BALANÇO DE 1997

Boneco: Rivalidades
O ano das biografias dos reis dos gurus
por Jorge Nascimento Rodrigues
Publicado inicialmente no Suplemento XXI do EXPRESSO

O ano que, agora, finda foi marcado pela publicação das primeiras biografias dos gurus que marcaram a gestão no pós-guerra - Peter Drucker, a que todos atribuem a paternidade da disciplina do management por volta de meados dos anos 40, e Tom Peters, de quem o próprio Drucker disse uma vez ser responsável pela "gestão se ter tornado parte da cultura geral".

Até aqui tinhamos assistido, nos últimos anos, ao assalto dos escaparates de livraria e das prateleiras de biblioteca pelas biografias e auto-biografias de líderes empresariais. Repartiam-se entre laudatórias e malditas. Agora foi a vez dos inspiradores do management destaparem um pouco o seu véu.

Não o fizeram directamente, nem por encomenda, o que, ainda, valoriza mais estas duas obras escritas respectivamente por Stuart Crainer, um jornalista inglês, e Jack Beatty, uma das referências do jornalismo de esquerda americano, editor da revista The Atlantic Monthly. Os livros são apaixonados, mas mantém a distância e não são isentos de críticas aos biografados. O primeiro aproveitou os quinze anos da publicação de Em Busca da Excelência (tradução em português, esgotada), o livro que massificou a gestão, da autoria de Tom Peters e Bob Waterman, e o segundo teve em conta a idade avançada de Drucker.

Crainer intitulou a obra O Fenómeno Tom Peters - o que é bem revelador da marca essêncial do homem que transformou a palavra sobre gestão num negócio multimilionário de gurus, que "têm hoje à escala global tanta influência como os políticos". Beatty, por seu lado, tentou jogar com o título Dr. Management para a obra que escreveu sobre Peter Drucker, mas este, fiel à sua proverbial modéstia, torceu o nariz e sugeriu ao autor que escolhesse algo menos exuberante. Beatty acabou por dar à luz O Mundo segundo Peter Drucker.

O próprio Drucker ficou espantado com o resultado, e confidenciou recentemente, com uma boa dose de ironia, que "o autor descobriu uma filosofia minha de que nem eu me tinha dado conta". Beatty, naturalmente, tendo em conta a sua costela, procurou explorar alguma incomodidade que Drucker sempre teve com o capitalismo, e revelou uma faceta deste menos conhecida dos executivos - a de um homem que misturou um grande "moralismo social" com a arte de gerir, que nunca parou na peúgada de uma sociedade diferente, e que dedicou metade da sua vida a uma nova realidade organizacional, a das entidades sem fins lucrativos.

São, naturalmente, duas personalidades muito diferentes. Drucker é modesto e recusa a adulação. Nunca se quis transformar em «marca» e criou uma Fundação virada para o mundo das organizações sem fins lucrativos (The Peter F. Drucker Foundation for Non Profit Management. É de fácil acesso, responde com o punho próprio e o teclado de uma máquina de escrever electrónica às mensagens, em menos de 24 horas, esteja onde estiver. Por sua vez, Tom Peters adora o sucesso e a adulação, transformou-se numa marca de negócio e criou um grupo de empresas (cuja gestão não tem sido muito bem sucedida, dizem as más línguas).

Andam-se meses atrás dele e das «assistentes» para o levar a responder à entrevista que falta fazer sobre o balanço dos quinze anos de Em Busca da Excelência. O primeiro é reservado e não faz «show off», o segundo é um autêntico animal político em palco. Drucker continua a produzir ideias novas, apesar da idade (88 anos!), e de Peters (hoje com 54 anos) diz-se que, depois, de Liberation Management (1990) anda a repetir-se.

Mas têm vários pontos de contacto essênciais, de que o seu cunho de «outsiders» do mundo académico, a sua inclinação para a heresia que põe os cabelos em pé aos barões dos negócios, o seu sentido de antecipadores, a sua enorme carga de evangelizadores de gerações de quadros são de sublinhar. Algumas das suas ideias foram mal aproveitadas, lamentam eles. Os governos colaram-se à ideia de reprivatização lançada por Drucker em 1969 mas deram-lhe outro sentido, com que o autor nunca concordou. Os executivos pegaram na gestão da mudança em tempo de caos, pintada por Tom Peters desde 1987 em Thriving on Chaos, e colaram-lhe as reestruturações e o «downsizing».

Mas dizem os analistas, muitas das palavras de ordem que os dois lançaram mantém-se perenes e sedutoras. Nos últimos anos, a «sociedade pós-capitalista», criada por Drucker, abriu todo um novo continente de pensamento e a «excelência» de Tom Peters, depois de quinze anos e apesar do revés dos «modelos» que elogiava, ainda mantém uma carga mobilizadora enorme. Incomparavelmente mais forte do que a "competitividade" de Michael Porter - o professor de Harvard - e a "reengenharia" de Michael Hammer, dizem os analistas de «buzzwords».