Avaliação do Capital Intelectual das empresas
e nações (2005)

Muito do dinheiro gasto em "capital intelectual" cai em saco roto. O multiplicador deste investimento regrediu nos últimos dois anos em Portugal e apenas três das grandes empresas cotadas estão acima da média ibérica.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Julho 2005

«Os gastos em capital intelectual devem ser considerados investimento e não custo" e "a avaliação da eficiência em termos de geração de valor acrescentado é mais importante que os montantes absolutos ou a sua tendência de crescimento», diz Ante Pulic, criador do método de avaliação
do CI

EMPRESAS EM DESTAQUE
A REPSOL é a ibérica mais eficiente. CIMPOR e EDP são as portuguesas
no top 10 da Península. Vodafone lidera ranking europeu.

A situação portuguesa piorou nos últimos dois anos em termos de eficiência do investimento em "capital intelectual" (CI) - um palavrão que cobre o que os técnicos contabilizam como "intangível", quer seja relacionado com recursos humanos (o chamado capital humano) ou, por exemplo, com marcas, patentes e conhecimentos do mercado (coberto pelo chapéu do termo "capital estrutural"). Em 2002 por cada euro investido em CI em Portugal, o multiplicador fazia o milagre de gerar 2,18 euros em valor acrescentado - dois anos depois, este indicador baixou para 2,02. Uma queda que só acentua o já baixo nível de eficiência do investimento no intangível no nosso país, que apenas "valia" 84% da média da União Europeia a 14 membros (sem as recentes adesões e o Luxemburgo) e muito distanciado do pelotão da frente, segundo o estudo divulgado por Ante Pulic, um economista croata, professor em Zagreb (capital croata) e em Graz (na Áustria) e presidente da Associação do Capital Intelectual da Câmara de Economia da Croácia.

Os resultados do trabalho de investigação de Pulic provocaram espanto na Conferencia Internacional de Capital Intelectual dos Territórios organizada, recentemente em Paris, pelo Banco Mundial e pelos especialistas Leif Edvinsson e Ahmed Bounfour, a que já nos referimos. Olhando para os números de Pulic, o bloco nórdico diz adeus à liderança em termos de eficiência no intangível, apenas se salvando a Suécia, e os novos países da Europa de Leste aderentes da U E, bem como a Grécia, Itália, Irlanda e Áustria surgem como aqueles em que o toque de Midas é mais generoso no valor acrescentado gerado por cada euro investido em CI (ver quadros). As razões destes números-surpresa mereceriam todo um outro estudo dos casos, salientou Pulic.

O especialista croata participa no projecto internacional lançado em 2000 pelo economista norte-americano Baruch Lev para a criação de novos sistemas de contabilidade para a Nova Economia e desenvolveu uma metodologia proprietária de avaliação da eficiência do investimento em CI aplicável a países, empresas e mesmo internamente dentro de cada organização, a partir de dados disponíveis nas estatísticas e relatórios oficiais. O croata baptizou a sua métrica de VAIC (Value Added Intellectual Coefficient) e tem por base dois princípios que não se cansa de repetir: "os gastos em capital intelectual devem ser considerados investimento e não custo" e "a avaliação da eficiência em termos de geração de valor acrescentado é mais importante que os montantes absolutos ou a sua tendência de crescimento".

Para Pulic, na linha do discurso de outros economistas e gurus da gestão, como Peter Drucker - o "pai" da sociedade do conhecimento -, é "a eficiência na utilização do conhecimento e na geração de valor acrescentado que gera a vantagem competitiva das nações e das organizações", explicou.

Ante Pulic aplicou, também, a metodologia às 500 grandes empresas cotadas europeias, em que a Vodafone surge na liderança com um multiplicador superior a 8. Portugal coloca apenas 3 empresas acima da média das 29 grandes empresas cotadas da Península Ibérica analisadas. No "top" 10 ibérico, só a Cimpor e a EDP se classificam em 6º e 8º lugares, enquanto a Portugal Telecom não entra por uma unha negra nesse ranking, ficando atrás do Banco Popular Espanhol por algumas décimas (ver quadro). A CGD, o Millenium/BCP e a Sonae ficam abaixo da média ibérica, no pelotão final das 29. Apesar de tudo, as seis grandes empresas portuguesas analisadas têm uma eficiência superior à média do país. Para Ante Pulic é fundamental que "os dirigentes e os accionistas das empresas cotadas passem, também, a analisar este tipo de rácios de eficiência, que são indicadores da saúde a prazo das suas organizações e cujo perfil de evolução se revela, nas séries a cinco anos, muito próximo do valor de capitalização de mercado das empresas cotadas".

QUADRO 1
10 EMPRESAS IBÉRICAS MAIS EFICIENTES
 Empresa País Rácio de Eficiência
 Repsol Espanha 7,16
 Gás Natural Espanha 7,01
 Abertis Espanha 6,50
 Endesa Espanha 5,35
 Cepsa Espanha 5,15
 Cimpor Portugal 5,14
 Iberdrola Espanha 4,72
 EDP Portugal 4,46
 Telefonica Espanha 3,95
 BPE Espanha 3,83
 Média (*) Pen.Ibérica 3,15
 Nota: (*) Média das 29 grandes empresas ibéricas cotadas
 Fonte: Ante Pulic, Câmara de Economia da Croácia, Julho 2005

QUADRO 2
 Ranking das grandes empresas cotadas portuguesas estudadas 
(quanto gera 1 euro investido em conhecimento)
 Empresa Rácio de Eficiência
 CIMPOR 5,14
 EDP 4,46
 Portugal Telecom 3,56
 CGD 2,60
 Millenium/BCP 2,24
 Sonae 2,12
 Média 3,09

QUADRO 3
 Multiplicador da Eficiência do Capital Intelectual na Europa 
(quanto gera 1 euro investido em conhecimento)
 Hungria 3,85
 Grécia 3,26
 Rep. Checa 3,60
 Itália 2,82
 Irlanda 2,75
 Áustria 2,66
 Suécia 2,58
 Polónia 2,46
 Média da U E (a 14) 2,40
 Croácia 2,34
 Reino Unido 2,32
 Finlândia 2,31
 Espanha 2,27
 Holanda 2,23
 França 2,22
 Bélgica 2,19
 Portugal 2,02
 Alemanha 2,01
 Dinamarca 1,94
 Fonte: Ante Pulic, Câmara de Economia da Croácia, Julho 2005

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