PME metanacionais: A tendência emergente nos estudos académicos

A experiência finlandesa no divã

Para além das renas do país dos lagos, uma nova espécie do reino empresarial, as «gazelas» de visão global e cosmopolita, atraem a atenção dos investigadores académicos e dos líderes de PME

Jorge Nascimento Rodrigues com Erkko Autio em Julho de 2001, um dos expoentes académicos da investigação sobre as «born global»

O caso Nokia | Investigação académica portuguesa sobre metanacionais
Reportagem sobre as metanacionais portuguesas
Página Web de Erkko Autio
Site do Institute of Strategy and International Business

Suomi, o país dos lagos, é hoje conhecido sobretudo pela Nokia e pelo simpático pinguim mascote do Linux (o sistema operativo alternativo ao Windows da Microsoft) criado pelo universitário Linus Torvalds, que se vieram juntar ao compositor Sibelius e ao arquitecto Alvar Aalto para tornar a Finlândia uma referência internacional contemporânea.

O pequeno (em população) país nórdico dá cartas, também, no dinamismo empreendedor de um novo tipo de PME designado na literatura académica por «gazelas», pequenas empresas com altas taxas de crescimento e rápida internacionalização. A própria Nokia começou por ser uma «gazela», antes de atingir o pico actual.

Ideia central: A vontade genética de serem globais

O traço marcante destas «start-up», típicas dos sectores de novas tecnologias, mas não só, é nascerem com a vontade genética de serem globais - o que na gíria académica se designa por «born globals» e que Ives Doz, do INSEAD, vai, em breve (final de 2001), celebrizar em livro com a denominação de «firmas metanacionais».

O fenómeno, também muito vísivel num pequeno país mediterrânico, Israel, tem sido estudado intensivamente por vários investigadores finlandeses que criaram uma «escola» sobre este novo fenómeno de internacionalização de PME, distinto do clássico modelo de «etapas», do mercado doméstico à exportação, da exportação à multinacional.

O exemplo de Israel tem sido citado nos fóros internacionais, desde que ficou conhecido o facto dos israelitas terem cotado mais de 100 «start-ups» no Nasdaq no período de «boom» e de terem criado, na última década, mais de 3000 novas firmas de base tecnológica. Mas o caso israelita vive muito da particularidade das relações com os Estados Unidos e com a sua diáspora financeira, da imigração russa qualificada entre 1989 e 1998 e do entrosamento do complexo militar expansionista com a investigação e a economia.

Erkko Autio «Pelo que olhar para um pequeno país pacífico como a Finlândia que é considerado o número dois em capacidade empreendedora, logo depois do Estados Unidos, e à frente do Canadá e de Isreal, é a opção certa», começa por nos dizer Erkko Autio, um professor finlandês de 38 anos (nascido em 1963), que é director do Instituto de Estratégia e Negócios Internacionais (Institute of Strategy and International Business) integrado no Departamento de Engenharia Industrial e Gestão (Department of Industrial Engineering and Management) da Universidade de Tecnologia de Helsínquia e que, até há dois anos, entre 1997 e 1999, ensinou na London Business School.

A abordagem passo-a-passo tradicional

«Em sectores intensivos em conhecimento, o mercado é naturalmente global. Por isso, para se ganhar nesta competição, as jovens empresas têm de andar rápido, têm de obter cedo uma liderança no seu nicho, no seu segmento. O único caminho realista para estas PME é serem globais», prossegue o nosso interlocutor.

Autio é justamente considerado um dos expoentes da nova corrente, com diversos «papers» publicados recentemente em que crítica, com alguma veemência, a abordagem convencional da internacionalização defendida por outros académicos e muito sustentada por grandes empresários e governos.

Maratonista assumido e apaixonado do império romano, o investigador acusa a estratégia passo-a-passo de ser «muito lenta, um autêntico suicídio em sectores intensivos em tecnologia onde as janelas de oportunidade são estreitas, onde os vencedores e os vencidos são decididos cedo». Aponta o dedo a muitas agências oficiais que recomendam (e financiam) uma estratégia de internacionalização «incrementalista» assente numa via sacra da exportação para o contentor, da presença em feiras, da abertura de sucursais, etc..

Difícil livrar-se do vício doméstico

Há correntes académicas que defendem explicitamente - e gente no terreno que pensa de igual modo - que a internacionalização é uma «extensão lógica» do crescimento no mercado doméstico e de aquisição de alguma senioridade. «Este tipo de gradualismo peca pela base. Se você se atrasa a internacionalizar acaba por se viciar nos hábitos do mercado doméstico. E, pode crer, que desaprender esses vícios é muito difícil. Desaprender é muito mais lento e doloroso do que aprender os hábitos globais desde pequenino, desde o berço, desde o primeiro dia», defende Autio.

A investigação no terreno das «gazelas» finlandesas conduzida na Universidade de Helsínquia revelou que o sucesso destas PME «depende fortemente da orientação internacionalista desde a génese», o que exige líderes empreendedores de vocação cosmopolita. Contudo adverte que o caminho não é uma passeata fácil ao luar. «A abordagem globalista é mais fácil de falar e de escrever do que implementar. É terrivelmente ‘sangrenta’, exige pulso duro, persistência, coração forte, atributos essênciais para um líder e equipa que se meta nesta estratégia», conclui Erkko Autio, que nos recebeu exactamente na semana em que lhe nasceu um filho e em que Hensínquia vivia um Verão escaldante.

O EFEITO NOKIA
A conhecida empresa finlandesa de telemóveis representa aproximadamente 1/3 do crescimento do Produto Nacional Bruto daquele país nórdico. Os finlandeses da alta tecnologia exclamam amiúde «Graças a Deus que temos a Nokia». O efeito trazido pelo sucesso desta firma metanacional foi notável.
«A Nokia funcionou como uma locomotiva que permitiu, depois, a muitas outras ‘start-up’ arrancar para uma estratégia internacional, o que tem feito baixar a dependência dessas PME finlandesas em relação à própria Nokia», refere-nos Erkko Autio, para sublinhar, de seguida, que «a Nokia é efectivamente demasiado dominante no tecido económico da Finlândia, mas a geração de empresas de base tecnológica que tem catapultado poderá fazer diminuir essa dependência com o tempo, o que ‘amaciará’ essa vulnerabilidade da nossa economia».
O sucesso da Nokia deveu-se a uma série de «coincidências felizes» estrategicamente bem aproveitadas pela sua liderança. «Foram acasos de sorte explorados com visão estratégica. O standard nórdico da telefonia móvel ajudou a Nokia a estabelecer uma posição incumbente no sector. Recorde-se que esse standard foi o primeiro a permitir ‘roaming’ internacional. Em relação ao GSM, a Nokia tiraria proveito de um programa finlandês de software, o Finsoft, que permitiu o desenvolvimento de muitas tecnologias do standard GSM», afirma o investigador finlandês. «Mas, para além disso, acho que o papel do CEO da Nokia, Jorma Ollila, não pode ser subestimado. É um grande visionário e com ele tem um muito boa equipa de gestão», acrescenta Erkko Autio.


PORTUGAL NA CORRIDA DAS METANACIONAIS
Investigação académica sobre os casos portugueses apresentada em Tese de Mestrado
na Universidade de Aveiro

Autor em destaque: António Teixeira

O habitual é olhar para a Irlanda quando se fala de um exemplo de pequeno país europeu a «copiar» em matéria de dinâmica empreendedora privada, propensão exportadora com valor acrescentado e políticas estatais de inovação. Contudo, o seu indiscutível interesse está mais direccionado para o campo das políticas de atracção de investimento directo estrangeiro e goza de uma especificidade histórica relacionada com a diáspora irlandesa nos Estados Unidos.
«Em vez de estarmos sempre a olhar para a Irlanda, o que se tornou moda ultimamente, seria interessante que, em Portugal, se seguisse com atenção a experiência finlandesa. Penso que a sua principal virtude é a lógica sistémica que se deu à inovação e o papel que se atribuiu ao empreendedorismo virado, desde o início, para a globalização», diz-nos António Manuel Sampaio Teixeira, que se inspirou na investigação académica finlandesa (nomeadamente em Erkko Autio, a que nos referimos acima) para desenvolver a sua tese de mestrado sobre «A Internacionalização das Novas Empresas de Base Tecnológica em Portugal» apresentada na Universidade de Aveiro.
Uma das conclusões principais ressalta «a importância fundamental da existência de uma orientação estratégica para a competição internacional assumida desde a génese da empresa por parte dos empreendedores e na política estatal que apoie e fomente esta visão».

A terceira geração metanacional: clara descontinuidade
no panorama empresarial português

António Teixeira, um conimbricense de 32 anos, aplicou uma metodologia similar à finlandesa no nosso país, tendo constituído, há dois anos, uma base de dados de novas empresas portuguesas de base tecnológica criadas por privados desde 1979 na área das tecnologias de informação e comunicações, que totalizaria 280 empresas no começo de 2000. Para a tese investigou em profundidade 24 que se inseriram num perfil de empresas com visão global, focalizadas em nichos de mercado com potencial internacional e com uma maioria de quadros qualificados.
O estudo detectaria a emergência de «uma terceira geração» de empresas, criadas desde meados dos anos 90 (como Critical Software, Chip Idea e Primavera Software, a que já nos referimos) ou fruto de reformulações estratégicas naquele período de empresas originárias em gerações anteriores (como os casos da Altitude Software, Intersis e ESDI), com uma clara vocação metanacional.
Apesar de se tratar de um núcleo ainda de pequena dimensão, esta terceira geração correspondeu, na opinião do autor da tese, a «uma clara descontinuidade no panorama empresarial nacional».
Os resultados do inquérito revelaram, ainda, que mais de metade destas empresas tinham, no início de 2000, mais de 20% do total dos seus negócios em mercados internacionais e que ¼ se orientava a 100% para o estrangeiro. Em cerca de 40% dos casos da amostra a velocidade de internacionalização foi muito elevada, tendo sido praticamente imediata (inferior a um ano). Este perfil surpreendeu agradavelmente o investigador: «Trata-se de uma intensidade internacional notável quando comparada com o paroquialismo do tecido económico português de PME e com a nossa fraca imagem tecnológica lá fora».

O tipo de empreendedor cosmopolita

O facto diferenciador neste comportamento centra-se no tipo de empreendedores envolvidos, que em 50% dos casos exploraram contactos pessoais internacionais e em 30% detectaram janelas de oportunidade em nichos mundiais. «A intensidade da internacionalização não apresenta qualquer relacionamento com a dimensão da empresa, mas está intimamente ligada com a experiência internacional dos fundadores, quer em experiências laborais anteriores ou levadas a cabo à frente da empresa», refere-nos António Teixeira, que acrescenta: «Trata-se de uma nova vaga de empreendedorismo português, de gente que adora Portugal, mas que detesta os nossos vícios estruturais».
As entrevistas realizadas aos fundadores mostraram que 63% dos que criaram empresas no período de 1985-1995 - na segunda geração - e a totalidade dos que lançaram «spin-offs» e «start-ups» no período de 1996-1999 - a terceira geração - responderam afirmativamente à pergunta se tinham «idealizado a empresa com uma orientação internacional logo desde o início».
A investigação de António Teixeira vem na sequência de estudos anteriores, a que nos referimos na altura (e não disponível online), desenvolvidos entre 1993 e 1997 por Manuel Laranja, Vítor Corado Simões e Margarida Fontes sobre este tipo de PME de base tecnológica em períodos anteriores, nomeadamente sobre a designada «segunda geração» dos anos 80 onde predominou uma estratégia de «cópia criativa» de produtos e serviços de empresas estrangeiras de vanguarda.

Referências bibliográficas de investigação anterior:
  • Manuel Laranja e José Alves Marques, As Tecnologias de Informação e Electrónica em Portugal: Importância, Realidade e Perspectivas, 1994, editado pela Direcção Geral da Indústria, Estudos, Lisboa
  • Manuel Laranja, Victor Corado Simões e Margarida Fonte, Inovação Tecnológica – Experiência das Empresas Portuguesas, 1997, editado Texto Editora, Lisboa
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