TENDÊNCIAS SEC: XXI

Pneumonia atípica "gripa" economia asiática

O primeiro predador viral do século XXI

O efeito económico global é já estimado em 40 mil milhões/bilhões de dólares. A Ásia/Pacífico teme que o seu PIB possa vir a ser "cortado" em 1% e a China emerge como a principal vítima económica do vírus que parece ter surgido na sua dinâmica Província de Cantão.

Jorge Nascimento Rodrigues

Fontes consultadas:
Channelnewsasia.com | Goldman Sachs Global Economic Weekly (2/04/03)

O impacto económico da síndrome respiratória aguda (SARS, no acrónimo anglo-saxónico) já atingiu uma estimativa de 40 mil milhões/bilhões de dólares - 30 mil milhões/bilhões de dólares nas economias dos países afectados e 10 mil milhões no sector mundial da aviação comercial, segundo os dados divulgados pela IATA, a Associação Internacional do Transporte Aéreo. Como resultado desta epidemia económica, o Banco para o Desenvolvimento Asiático prevê um "corte" de 0,3 a 1 pontos percentuais no crescimento de toda a Ásia Pacífico. A principal vítima será o espaço da "Grande China", a começar pela "locomotiva" chinesa continental que poderá diminuir de 0,5 a 1,7 pontos percentuais o seu crescimento em 2003, consoante os vários cenários apresentados pela Goldman Sachs, Banco Mundial, Banco para o Desenvolvimento Asiático ou Morgan Stanley. No espaço da "Grande China" adicionam-se a região especial de Hong Kong, Taiwan e Singapura.

Contagem ao trimestre

Trata-se de um ataque tão devastador quanto uma guerra geo-política, pois afecta a esperança da manutenção de uma locomotiva de crescimento no meio da depressão mundial actual. A China havia crescido 9,9% no primeiro trimestre do ano e o inesperado "Alerta Geral" da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Março já arrastou aquela grande potência asiática para uma presumível quebra brutal de 2% no segundo trimestre, segundo o J.P. Morgan Chase Bank.

A maior ou menor profundidade do impacto dependerá do número de trimestres necessários para estabilizar a epidemia em termos médicos e retomar o clima psicológico anterior. Alguns cálculos efectuados pela Goldman Sachs afirmam que cada trimestre de SARS "custa" 0,7 pontos percentuais (pp) ao PIB anual de Hong Kong, 0,5 pp ao de Singapura, 0,3 pp ao de Taiwan e Malásia, 0,2 pp ao da Tailândia e assim por diante.

O tempo é aqui um factor crítico. Jeffrey Sachs, do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, afirma que se a epidemia «durar anos e não trimestres, arrasará todo o investimento directo estrangeiro na Ásia». Os especialistas no terreno admitem que isso não venha a suceder. Davis Fong, consultor económico do Governador de Macau para a questão da SARS, admitiu-nos que a situação médica já poderá ter entrado em fase de "estabilização" em regiões muito críticas como Hong Kong e a Província de Guangdong (Cantão), onde se julga ter surgido o primeiro foco em Novembro passado. «Espera-se, por isso, que se possa dar uma retoma económica no segundo semestre», conclui Fong.

A partir do momento em que a OMS decretou o "alerta geral", depois da morte provocada pelo vírus de um seu especialista em Hanói em Março passado, a resposta da comunidade científica foi rápida. Em 1980 levou-se dois anos a identificar o HIV ligado à Sida. Agora, com uma rede de 10 laboratórios em 10 países e com uma estratégia de computação distribuída e em "grelha", o vírus foi identificado em duas semanas e a descodificação da sequência do seu genoma em mais duas.

Novo factor global

Mas a Ásia não se livrou do estigma nem de alguma paranóia. Um vírus, cuja taxa de mortalidade é apenas de 5%, mudou tudo sobre o "coração" do cenário asiático para este quinquénio. Na terminologia económica, a par do "factor geopolítico" (terrorismo, guerras), surge, agora, um primeiro "predador viral", que, em virtude do seu efeito de contágio real e psicológico, está a afectar directamente os motores da globalização - as viagens de turismo, as viagens de negócios, os fluxos de investimento directo estrangeiro e o funcionamento das transnacionais. O vírus está a vulnerabilizar todo o tecido económico asiático ligado ao turismo e às cadeias de "outsourcing" que transformaram a Ásia numa "fábrica" exportadora do mundo. É mais uma acha contra a famosa globalização.

Numa época de depressão e de fortíssima mediatização globalizada, a "combinação" de factores "externos" negativos - atentados terroristas, guerras geo-económicas, epidemias - tem um efeito em cascata devastador. E tanto mais dramático quanto mais "inesperado" for. Esta é a diferença em relação a outros períodos - em que epidemias mataram no mundo sem que as bolsas tivessem espirrado ou os analistas em pânico tivessem subitamente cortado as estimativas do PIB.

Os fenómenos de psicologia de massas ligados à epidemia estão a agudizar ainda mais o "choque" sobre a procura, tradicional dos períodos de depressão. Por efeito da pneumonia atípica, o consumo deve ter sido afectado em 25% em Singapura, 20% em Hong Kong e Taiwan, e 15% na Tailândia, ainda segundo a Goldman Sachs.

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