A revolta dos tecnólogos

O "pai" da Nova Economia ataca de miopia os arautos do fim do papel multiplicador das tecnologias da revolução digital. É o ponto mais alto da revolta dos pensadores "tecnólogos" contra os pessimistas agora em voga.

Jorge Nascimento Rodrigues, Novembro 2003

Artigo na revista Fortune, edição de 24 de Novembro de 2003
Fortune Magazine - November 24, 2003 - Vol. 148, No. 11
SPECIAL REPORT ON THE U.S. ECONOMY
Why Tech Is Still the Future
Sumário da edição

Polémica sobre "IT Doesn't matter!" em janelanaweb.com em Maio de 2003

Entrevistas com Brian Arthur em janelanaweb.com
Estamos condenados a viver com duas economias
Nova Economia a 3 vozes

A polémica sobre se as tecnologias da informação continuam a contar ou não decisivamente para o desenvolvimento dos negócios trouxe para o palco do debate um dos pesos pesados do pensamento tecnológico contemporâneo - W. Brian Arthur, que assinou, esta semana, um artigo de combate na revista norte-americana Fortune. Sugestivamente intitulado "Porque razão a tecnologia é ainda o futuro", o artigo é sintoma de que a discussão acalorada do problema desceu das revistas académicas e tecnológicas, onde andou desde Maio de este ano, para os media da área de negócios, lidos pelos chefes de empresa e decisores no terreno. Brian é um matemático doutorado em investigação operacional nos anos 70 do século passado que se transformou num dos economistas de referência na Universidade de Stanford, na Califórnia, onde foi reitor. É considerado o "pai" da Nova Economia, ou seja do conceito de que a revolução tecnológica ligada à computação gera - em linguagem de economista - rendimentos crescentes, criando um "círculo virtuoso" em que "mais dá cada vez mais", para usar a noção simples propagada por Kevin Kelly na revista Wired, no calor da "bolha" nos anos 90. Brian é, ainda, reconhecido como um dos pioneiros das teorias económicas ligadas à complexidade, que hoje têm a sua "capital" no Instituto de Santa Fé, no Novo México, onde ele colabora.

Um ritmo lento

Brian Arthur, que é, também um estudioso da história económica, recorda que o efeito multiplicador de uma revolução tecnológica começa a verificar-se realmente nas décadas seguintes ao período de euforia inicial e de "crash". E o seu verdadeiro papel revolucionário é mais importante no resto da economia (a que chamaríamos "tradicional") do que nas chamadas indústrias de alta tecnologia, onde os primeiros efeitos são sentidos. "Uma das coisas que aprendi ao olhar para as revoluções tecnológicas do passado é que quanto mais profunda a transformação, mais devagar ela se processa", escreve o economista, que acrescenta: "A transformação económica é lenta não porque requeira novo equipamento, mas porque exige novas - e nem sempre óbvias - formas de organizar os negócios".

«Uma das coisas que aprendi ao olhar para as revoluções tecnológicas do passado é que quanto mais profunda a transformação, mais devagar ela se processa», diz Brian Arthur.

A questão decisiva desta revolução estaria nos modelos de negócio e na organização empresarial, em suma na gestão, mais do que na tecnologia em si. E levaria tempo - não é um "big bang" como o pintavam os voluntaristas do tempo da "bolha". Mas as novas tecnologias continuam a ter um impacto estratégico nos negócios, em particular nos "tradicionais", pois permitem induzir a sua mudança estrutural. Foi isso que aconteceu historicamente no capitalismo desde o século XIX. Como explica, Brian Arthur: "As indústrias não adoptam as tecnologias de informação, embatem nelas". E neste choque são obrigadas a transformar-se e a dar origem inclusive a novas indústrias, inimagináveis no passado. O artigo na revista Fortune dá um lote de exemplos, conhecidos de todos nós.

A questão decisiva desta revolução estaria nos modelos de negócio e na organização empresarial, em suma na gestão, mais do que na tecnologia em si. E levaria tempo - não é um "big bang" como o pintavam os voluntaristas do tempo da "bolha".

O economista condena, por isso, a ideia simplista de que, depois da "bolha", a tecnologia digital teria deixado de gerar rendimentos crescentes e diferenciação estratégica. Essa conclusão foi colocada a circular a partir de um artigo publicado em Maio passado na revista Harvard Business Review, uma das mais prestigiadas no meio académico da gestão e empresarial, a que, então, nos referimos. Muitos dos que, no tempo da "bolha", se mostravam ultra-revolucionários são hoje pessimistas e historicamente míopes. O "slogan" de que as tecnologias de informação já não contam - o título do artigo, assinado por Nicholas Carr, era explicitamente "As TI não contam" - provocou hesitação e recuo em muitos decisores empresariais, para mais em período de depressão. Brian Arthur vem dizer que "a principal esperança" para o futuro próximo continua a estar na actual tecnologia digital; a biotecnologia e a nanotecnologia, diz ele, ainda estão muito imberbes.

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