De Arrabalde da Utopia nos anos 30
à tradição de Fábrica Pioneira

Museu da Fábrica de Cimento de Maceira-LizHoje integrada na Secil, depois da privatização de diversas parcelas da Cimpor, a fábrica de Cimentos de Maceira-Liz tem um dos Museus de Arqueologia Industrial únicos a nível da história do cimento moderno, no contexto europeu. «Sempre houve aqui predisposição para a inovação. Compreende-se, por isso, a nossa motivação hoje em dia em torno dos métodos Taguchi. Fomos sempre uma fábrica de pioneirismo técnico. Este nosso museu pretende mostrar esse percurso histórico», diz Armando Manuel da Costa Castela, o director da fábrica de Maceira-Liz da Secil, um engenheiro químico que aos 31 anos de idade entrou no cimento e que viria para a Maceira há 25 anos. Apaixonado pela arqueologia industrial, é muito a propósito o director do Museu criado em 1991 como um circuito museológico integralmente dentro do espaço fabril.

Tudo começou na Gândara num local de vinha pobre mas rico em calcário e margas onde começaram uns estranhos trabalhos de levantamento topográfico de terrenos em 1919. «A ideia tinha sido congeminada por José Osório Rocha e Mello, um engenheiro civil formado em Lausana, que tinha estado a trabalhar numa fábrica de cimento lá fora. Para Portugal veio com o projecto de criação de uma fábrica de cimento moderna que apresentou num anteprojecto redigido como 'Notas Industriaes' em 1918. A novidade era a introdução de um novo processo industrial para a fabricação de cimento artificial 'Portland' por meio de fornos rotativos metálicos, com um processo de fabrico por via seca, que seria usado pela primeira vez no país», narra o nosso cicerone.

Locomotiva a vapor ECL nº 1 e a sua antiga garagemUm financeiro, Henrique Araújo de Sommer, apoiaria a ideia minuciosamente detalhada por Rocha e Mello em papel-tela, e a primeira pedra da fábrica seria lançada em 1920. A inauguração sucederia em 1923 com o acendimento do primeiro forno e o lançamento nesse ano do cimento de marca «Liz» popularizado pelo marketing da altura como «cimento nacional para obras de responsabilidade». O relatório dos primeiros três meses de fabrico, redigido pelo punho de Rocha e Mello, é uma curiosidade digna de leitura a quase 80 anos de distância. A partir de 1926 começa a circular a locomotiva nº1 da ECL (então Empreza de Cimentos de Leiria) entre Maceira e Martingança, uma máquina ainda hoje conservada e que é um dos dois raros exemplares sobreviventes daquele género alemão. Ela seria imortalizada como parte da imagem de marca da Maceira por Ernesto Korrodi num painel de azulejo ainda hoje visível na estação de combóios de Leiria.

Em 1928, nova inovação: a segunda linha de fabrico integra o sistema de co-geração de energia eléctrica. A fábrica atinge o apogeu do conceito de condomínio industrial naqueles conturbados anos 30 de guerra de classes ao rubro. Um filólogo e pedagogo referia-se a este espaço, com óbvia carga ideológica, como «arrabalde da utopia», depois de uma visita que fez em 1936. Na rota dentro do espaço da fábrica, podiam ver-se o bairro operário, a escola, a cooperativa, a capela, o posto médico, o balneário, a biblioteca, etc.. Na central turbo-geradora ainda se podem ler citações de Goethe.

Em 1938 introduz-se o forno Lepol que viria reduzir o consumo energético e implicar um conjunto de inovações na homogeneização do cru e no transporte à distância. Com a morte de Sommer em 1945 entra António Champalimaud em cena. Em 1968, a fábrica introduz os primeiros fornos curtos com torres de pré-aquecimento, bem como o comando centralizado do processo fabril. Depois do 25 de Abril, em 1986, remodelam-se as linhas de fabrico dando atenção à questão ambiental. Foi a primeira a usar pneus usados nos fornos e a vender os sacos de cimento em paletes e o cimento a granel em «self-service» totalmente electrónico.

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