Argentina: O cemitério da globalização espanhola

O exemplo do investimento directo espanhol na última década na Argentina já foi eleito "case study" de como não se deve internacionalizar. Um especialista argentino traça a saga dos grupos empresariais de Espanha na "estrela" do Sul e aponta erros de palmatória.

Jorge Nascimento Rodrigues com Silvia Chauvin, editora de www.mujeresdeempresa.com
em Buenos Aires

Tendo partido de uma situação ideal e invejável de "acolhimento" na Argentina, segundo os manuais, em virtude da língua e história comuns, os principais grupos empresariais espanhóis revelaram alguns erros de palmatória, constatam agora os especialistas. Alguns deles inclusive granjearam rapidamente o lugar de inimigo público número um no coração da opinião pública argentina, apesar da Espanha continuar a ser local de eleição da emigração e não deixar de ser cortejada como destino de exportações.

Com o insucesso deste posicionamento de Espanha na "estrela" do Atlântico Sul de língua castelhana, é toda a União Europeia que perde pontos a favor dos ventos de "alcanização" (o projecto norte-americano para uma área de livre comércio) das Américas.

A corrida à "estrela" do Sul

A corrida espanhola teve um quinquénio de ouro. Só entre 1994 e 2000, a Espanha investiu directamente em termos líquidos na Argentina mais de 20 mil milhões de euros, segundo o Ministério de Economia do nosso país vizinho. Para os argentinos, o "stock" de capital espanhol terá alcançado em 2001 mais de 21 mil milhões de dólares, representando mais de 50% do "stock" de capital europeu investido na Argentina e 28,5% do "stock" total de investimento directo estrangeiro (IDE) neste país sul-americano.

Esta corrida deu-se num período em que a Argentina se revelou um dos países em desenvolvimento que atraiu mais fluxos de IDE de todo o mundo. Entre 1994 e 1999, a "estrela" do Sul ocupou o 4º lugar do "ranking" de maiores receptores de IDE no mundo em desenvolvimento, depois da China, Brasil e México. «Excluindo o México, a norte, que está de facto na esfera de investimento norte-americana, a Argentina era na América Latina e Caraíbas, o país mais interessante para Espanha», diz-nos Andrés López, 40 anos, doutorado pela Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Buenos Aires e investigador do Centro de Investigações para a Transformação (CENIT). Trata-se de um mercado de mais de 37 milhões de habitantes (número próximo da população espanhola que é superior a 39 milhões), fortemente urbanizado (90%) e alfabetizado (96%) e com uma tradição histórica de classe média.

Para este professor de desenvolvimento económico e autor de vários trabalhos científicos sobre a recente vaga de IDE , a década de 90 foi, também, «um período único na Argentina, excepcionalmente favorável ao IDE, em virtude do movimento de privatizações e da desregulamentação do sistema financeiro».

O pontapé de saída

De facto, o movimento estratégico dos grupos espanhóis tornou-se visível no princípio dos anos 90 do século passado. A privatização da ENTEL (a empresa estatal argentina de telefones), que foi ganha em 1990 pela Telefónica de Espanha, foi o pontapé de saída. A estratégia, então lançada pelo seu presidente, Luis Solana, foi, depois, "imitada" por outros grupos espanhóis.

O ano mágico viria a ser 1998, por coincidência um século depois do fim do ciclo da presença colonial da Coroa espanhola na América Hispânica saindo de Cuba. A viragem estratégica mediática da Telefónica de Espanha anunciando a sua "globalização" associando-se à hoje mal afamada WorldCom e à MCI, viria a marcar a aceleração de aquisições nos vários países latino-americanos durante o consulado de Juan Villalonga.

A Saga da Telefónica: «Ciberoamérica: Las carabelas electrónicas»

Foi em 1999 que se constatou nas estatísticas de IDE espanholas a grande viragem. A Espanha investiu na Argentina mais do que em toda a União Europeia naquele ano. Tornou-se no destino principal mobilizando então 36% do IDE espanhol, tendo atingido o valor anual máximo de 15,5 mil milhões de euros em termos líquidos. Este ano foi marcado pela aquisição de Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF, petrolífera estatal argentina) pela Repsol espanhola. Com o valor da compra estimado em 15,2 mil milhões de euros, não se sabe qual foi a parte em investimento directo.

Em quatro anos, entre 1998 e 2001, a Espanha passou de 10% do "stock" de IDE na Argentina para 28,5%, colocando-se mais próxima dos Estados Unidos, que detém a liderança (30,5%), e à frente do IDE que vem pela via dos paraísos fiscais (estimado em 13%). Acrescente-se que a Espanha ocupou durante dois anos consecutivos (1999 e 2000) o sexto lugar entre os principais investidores no mundo. Os bancos espanhóis como o então BBV (hoje BBVA) e o BSCH foram instrumentais nesta estratégia.

O fim da euforia

A euforia abrandou, depois, no ano 2000 e em 2001 verificou-se inclusive um desinvestimento fortíssimo na Argentina, próximo dos mil milhões de dólares em termos líquidos. A "estrela" do Sul tornou-se, naquele ano, no principal país de desinvestimento espanhol. No ano anterior, havia sido Portugal.

Sintomaticamente, os grupos espanhóis abandonavam o esforço financeiro nas duas "jóias" da sua globalização - o vizinho ibérico e a pátria do tango. Mais prosaicamente, em 2001, redireccionaram os capitais em 60% para o Luxemburgo e a Holanda, locais ideais para "holdings". Nesse movimento foram 20 mil milhões de euros. Os jornais espanhóis chamaram-lhe a "pausa" do guerreiro na internacionalização.

Mas a economia tem horror às cadeiras deixadas vagas. Correm rumores de que a Telmex mexicana (ligada ao grupo argentino Techint) estará interessada nas operações da Telefónica na Argentina. Por seu lado, o Brasil que não tem sido um investidor de peso no vizinho, realizou uma operação de vulto com a compra da Pecom (do grupo argentino Pérez Companc) pela Petrobras. E a cervejeira brasileira Brahma comprou Quilmes (do grupo argentino Bemberg). Por outro lado, a Autoridade de Promoção Comercial dos EUA - a famosa TPA, mais conhecida pela alcunha de "fast track" - está à espreita do momento certo para atacar a Sul com a implementação da ALCA, a Área de Comércio Livre das Américas, colocando um ponto final nas veleidades "autonomistas" do Mercosul.

As três lições

Onde erraram, então, os grupos espanhóis? Ou quais são as suas limitações "estruturais"? Estas interrogações têm ocupado boa parte do tempo de investigação de Andrés López ultimamente. «O que salta à vista, desde logo, é que estes grupos concentraram os seus investimentos em países como a Argentina, que são de risco elevado por natureza. Isto torna as empresas vulneráveis, porque concentram investimentos em países onde há uma alta volatilidade económica institucional e um erro aqui afecta gravemente todo o negócio», refere o nosso interlocutor. As transnacionais menos recentes mostram uma estratégia historicamente mais diversificada.

Por outro lado, as transnacionais espanholas são grupos empresariais de nível "intermédio" à escala mundial. Casos como a Repsol ou a Telefónica estão «naquele patamar que os peritos em internacionalização denominam de dilema de comprar para ganhar massa crítica ou ser apetecível para ser comprado pelos maiores», sublinha Andrés López. A estratégia de aquisições no campo internacional foi a saída para prolongar o espaço de manobra. «A Repsol se tiver de vender a YPF, provavelmente perderá viabilidade internacional», remata o estudioso das transnacionais.

Finalmente, a estratégia espanhola parece ter sido "cortoplacista" (visão de curto prazo), como classificam os argentinos. Uma das regras básicas que falhou foi a da densificação de alianças com grupos locais e o desenvolvimento do próprio tecido local, bem como dos seus "clusters" de exportação. Apostar na drenagem do mercado, na desarticulação das cadeias locais sectoriais e na alimentação de uma burguesia "compradore" especializada no "cambio de manos" de activos públicos e privados é suicídio certo. «Os grupos espanhóis não potênciaram as alianças locais. Promoveram poucos esforços para favorecer o desenvolvimento da economia argentina. Substituíram fornecedores locais por estrangeiros sobretudo para poder facilitar a transferência de divisas», recorda Andrés López. A colagem a mercados cativos ligados ao Estado foi outra tentação espanhola, de grupos como a Telefónica, Repsol e Endesa.

O estado de espírito da opinião pública argentina é hoje profundamente negativo em relação a alguns desses grupos espanhóis. O processo de privatização das Aerolíneas Argentinas, no tempo de Carlos Menem (quando presidente da Argentina) e de Felipe Gonzalez (então presidente do Conselho de Ministros em Espanha), é considerado inclusive "um escândalo" e a destruição da marca pela Iberia "um crime". Hoje a companhia aérea passou para as mãos do operador turístico espanhol Marsans.

RADIOGRAFIA ESTATÍSTICA
INVESTIMENTO DIRECTO ESPANHOL NA AMÉRICA LATINA
(Investimento líquido em milhões de euros)
Países de Destino1998199920002001
Argentina370155222966- 923,6
Brasil4048,75109,910873,31406,3
Chile4074427,3875,2709,2
México380,81253,23955,21453,4
Fonte: Ministerio de Economía de España, www.mcx.es/polco/InversionesExteriores/estadisticas/informestrimestrales/inversionesexteriores/iflujos.htm

REPARTIÇÃO NO TOTAL DO INVESTIMENTO DIRECTO ESPANHOL ANUAL NO ESTRANGEIRO
(%)
Países de destino1998199920002001
Argentina3366-
Brasil3212224
Fonte: Ministerio de Economía de España

STOCK DE INVESTIMENTO DIRECTO ESTRANGEIRO NA ARGENTINA
(Posição em %)
País de origem1998199920002001
Estados Unidos36333130,5
Espanha10232828,5
França8878,5
Itália5,35,254,8
Chile8543,8
Fonte: Ministerio de Economía de Argentina, Direción Nacional de Cuentas Internacionales, www.mecon.gov.ar/cuentas/internacionales/inversion00-01.doc

Quadro de conclusões estatísticas

A SAGA ESPANHOLA NA ARGENTINA
  • Em 1999, Espanha investiu mais na Argentina do que em toda a União Europeia. A Argentina foi o principal destino dos capitais espanhóis de internacionalização
  • 1999 foi o ano de viragem do investimento directo espanhol no estrangeiro: 3,4 vezes mais do que em 1998; em direcção à Argentina foi 42 vezes mais
  • Em 2000, Espanha voltou a investir mais no Brasil (tal como fizera em 1998) do que na Argentina. O Brasil foi o principal destino dos capitais espanhóis em 1998 e 2000
  • Em três anos, entre 1998 e 2000, a Espanha passou de 10% do stock de investimento directo estrangeiro na Argentina para 28%, colocando-se em 2º lugar depois dos Estados Unidos
  • Em 2001, a Argentina foi o principal país de desinvestimento espanhol (quase mil milhões de euros); em 2000 havia sido Portugal (quase 1400 milhões de euros)
  • Em 2001, Espanha redireccionou os capitais de internacionalização para a União Europeia (que passou a ter uma fatia de 60%), sobretudo para o Luxemburgo e Holanda, países conhecidos pela sua atractividade em termos de holdings e incorporação de empresas
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