Quem tramou a Andersen?

Um ano depois de entrevistado na Janelanaweb.com, Joe Berardino demite-se de CEO da Andersen no final de Março 2002

Uma das mais prestigiadas firmas de auditoria do mundo está no fio da navalha depois do rebentar dos escândalos ligados à contabilidade criativa durante a "bolha" da Nova Economia. A sua desintegração parece estar em marcha. Para alguns analistas trata-se, apenas, do pico do icebergue nas "Big 5", como o revela a multa atribuída esta primeira semana de Abril 2002 pela SEC à Xerox por "práticas contabilísticas fraudulentas" em anos em que havia sido auditada pela KPMG.

Jorge Nascimento Rodrigues

Colaboração do analista Peter Cohan

Entrevista com Joe Berardino em Maio de 2001

Em apenas 12 meses aquilo que pareceria impensável - que as auditoras de topo também se podem abater - está à beira de acontecer nos Estados Unidos. Para alguns analistas trata-se, apenas, do pico do icebergue nas "Big 5", para outros o azar bateu à porta da quase centenária Andersen num romance em que se mistura alguma intriga política. «A Administração Bush necessita de um bode expiatório para o caso Enron - considerada por muitos a maior falência da história americana - e a Andersen parece talhada à medida para o efeito», comenta-nos o analista Peter Cohan.

O Departamento de Justiça (DoJ) norte-americano incriminou a Andersen no passado dia 14 de Março por alegada destruição nos escritórios em Houston de documentos relacionados com a Enron, acusação que a auditora considera «enfermar de erros legais e factuais», argumentando que o material destruído não tinha qualquer valor e que o essencial foi preservado e entregue à Justiça. A auditora começará a ser julgada a 6 de Maio em Houston por aquela acusação.

Há um ano atrás, Joe Berardino, o recém-eleito CEO da Andersen Worldwide, em entrevista exclusiva na sede em Chicago, reafirmava a aposta numa oferta "integrada" de auditoria e consultoria, apesar dessa mistura poder revelar um claro conflito de interesses e comprometer a integridade da auditoria. A opção a contracorrente do que as outras "Big 5" já haviam entretanto decidido, revelou-se, agora, de alto risco. A consultora quase centenária foi atingida em cheio pelos "danos colaterais" do escandaloso caso Enron e Berardino acabou por pedir a demissão na semana passada num ambiente geral de grande desorientação estratégica e de fuga de mais de 100 grandes contas.

As medidas óbvias - nomeadamente, a separação legal da auditoria e da consultoria na Arthur Andersen LLP norte-americana, bem como o fim do cruzamento de compensações aos "partners" derivadas das dessas áreas de negócio - sugeridas, a 22 de Março, por Paul Volcker, empossado à frente de uma comissão independente na Andersen (Andersen Independent Oversight Board), poderão pecar por tardias junto do DoJ e com vista ao restabelecimento da confiança do público.

Recorde-se que, antes desta acusação do DoJ no caso Enron, a Andersen já havia sido obrigada a indemnizar em mais de 200 milhões de dólares accionistas das falidas Waste Management e Sunbeam, seus clientes de auditoria. Numa outra falência, a da Baptist Foundation of Arizona, considerada a maior no sector das instituições não lucrativas, a Andersen tem, também, sido envolvida. Mais recentemente, a Andersen começou também a ser acusada pelos accionistas da Global Crossing, que entretanto faliu.

A tentação de Ícaro

Entretanto, as operações nos EUA não "queimadas" pelo caso Enron e as afiliadas estrangeiras da Andersen servem, ainda, de reserva financeira hipotética para os cofres da auditora, se algum acordo global for feito com alguma concorrente - gorou-se, entretanto, com a Deloitte & Touche Tohmatsu e com a KPMG. Pelo que as negociações decorrem sobre "porções" das operações da Andersen nos EUA.

As próprias afiliadas no estrangeiro começaram cada uma de per si a resolver localmente ou regionalmente o seu futuro,como já aconteceu em Portugal em que a Andersen decidiu associar-se à Deloitte & Touche. Um outro acordo com esta mesma concorrente havia sido, também, obtido pela filial da Andersen em Espanha.

Os analistas do Wall Street Journal falam de uma estratégia de "abutre" por parte das outras quatro concorrentes nas "Big 5" no sentido de comprarem os quadros e as contas de clientes ao mais baixo preço no decurso deste processo de desintegração. «O bolo de clientes detido pela Andersen totalizaria 9 mil milhões de dólares a repartir pelas quatro restantes», sublinha Peter Cohan. Até final do ano, espera-se que as "Big 5" fiquem reduzidas a "Big 4".

Nos anos 80, os 'partners' da Andersen sentiram o enorme perfume do dinheiro que os consultores e os analistas financeiros estavam a fazer e resolveram também meter a colher na consultoria. A meu ver, acabaram por perder a independência profissional que fez a reputação da sua objectividade. Lembra a tentação de Ícaro que queria chegar ao Sol e acabou com as asas derretidas caindo no mar.

Peter Cohan

Como foi possível a uma organização prestigiada e com "uma cultura forte", como sublinhava Joe Berardino, chegar a este ponto?

Peter Cohan, o analista por nós ouvido, recorre à mitologia grega para caracterizar o que se passou: «A Andersen construiu a sua reputação por sempre ter afirmado uma total independência em relação aos seus clientes - recusando-se a certificar contas que não satisfizessem os seus padrões elevados. Mas, nos anos 80, os 'partners' sentiram o enorme perfume do dinheiro que os consultores e os analistas financeiros estavam a fazer e resolveram também meter a colher na consultoria. A meu ver, acabaram por perder a independência profissional que fez a reputação da sua objectividade. Lembra a tentação de Ícaro que queria chegar ao Sol e acabou com as asas derretidas caindo no mar».

Em busca do ouro perdido

Com a ressaca do "crash" bolsista da Nova Economia, a "contabilidade criativa" nos grupos empresariais ficou sem rede e as jogadas financeiras dos fundadores e do management de topo em muitas situações ficaram a nu. Sentindo-se "espoliados", os accionistas e investidores desses grupos viraram-se para todos os potes de ouro onde pudesse haver ainda liquidez ou activos que os ressarcissem das perdas com as falências e fraudes. Nessa viagem começaram por encontrar os auditores e depois as próprias casas bancárias envolvidas nas recomendações que alimentaram a "bolha".

Parecendo estar decepcionados com a hipótese de reaver o que pretendem nos cofres da Enron e da Andersen, os advogados dos accionistas e credores viram-se, agora, para os gigantes bancários que estiveram envolvidos nas aventuras bolsistas da Enron. O escritório de advogados Milberg Weiss Bershad Hynes & Lerach, em nome dos regentes da Universidade da Califórnia, deverá avançar com acções judiciais nomeadamente contra a J.P. Morgan Chase e o Credit Suisse First Boston. «Se Bill Lerach, um dos principais sócios desse escritório de advogados, conseguir provar que os bancos são cúmplices do que se passou, estes terão de recorrer à falência legal para se protegerem dele. As consequências serão, então, imprevisíveis para a própria Wall Street», comenta Peter Cohan.

Moral da história

Como comentava, na sua edição de Março 2002 (volume 80, número 3), a revista Harvard Business Review, num artigo sugestivamente intitulado «Os jogos são para os perdedores», no âmbito de um dossiê sobre «A Lista (de ideias emergentes) da HBR para 2002» (The 2002 HBR List:Breakthrough Ideas for Today's Business Agenda), assistimos nestes últimos anos a relatórios e contas que nada tinham a ver com «produtos, vendas robustas e disciplina fiscal». Entre os casos mais conhecidos nos Estados Unidos, fomos surpreendidos pela sucessão de "estrelas" postas em causa, como a Waste Management, a Sunbeam e a hiper-mediática Enron. Até a respeitável Xerox foi, esta semana, condenada pela Securities and Exchange Comission (SEC) a uma multa de 10 milhões de dólares por «práticas contabilísticas fraudulentas».

Entretanto, a SEC iniciou um processo de investigação em outros grupos empresariais, como a Williams Co. e a Adelphia Communications Inc., constando que, só em Janeiro e Fevereiro deste ano, aquele organismo já abriu 49 casos, e não só no sector tecnológico.

«Cada uma delas, dedicou-se mais a jogar com números», que produziram «um sucesso ilusório temporário», escreve-se na revista com alguma delicadeza. «As recessões e os mercados bolsistas em baixa foram uma forma de nos lembrar que a honestidade é mais do que uma admirável virtude. É a fundação das empresas que perduram», conclui a revista como moral da história.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal