Charles Handy
às voltas com uma cataplana de peixe

Os 'alquimistas' por acidente

Prefere esta palavra medieval ao galicismo 'entrepreneurs', que acha que está um pouco 'degradado' na Europa. São gente que do nada cria negócios. Mas não são sobredotados, nem feitiçeiros. Foram empurrados pelo azar ou aproveitaram oportunidades rigorosamente NÃO planeadas. Despidos de toda a mitologia, foram empreendedores por ACIDENTE. O nosso interlocutor, irlandês de gema, mas casado com uma inglesa típica, descobriu quase 30 casos na sua cidade de eleição, Londres. Elizabeth fotografou-os em movimento e Charles descreveu-os. Uma antecipação do livro «The New Alchemists», a publicar em Setembro próximo

Com Jorge Nascimento Rodrigues no Faz Figura*, em Lisboa
Uma iniciativa com a revista Ideias & Negócios

*Faz Figura, restaurante com varanda sobre o Tejo, aquando da vinda a Lisboa do casal Charles e Elizabeth Handy a convite do INDEG/ISCTE para a Conferência comemorativa do seu 10º Aniversário

Review do Livro O Espírito Faminto ('The Hungry Spirit')

Charles Handy, a quem muitos chamam o «Drucker europeu» (apesar de muito mais novo), nunca viaja sózinho. É um dos casos em que a cara-metade é parte integrante da marca do guru. Este irlandês simpático casou com Elizabeth, uma inglesa bem «english», que é sua 'manager' e fotógrafa oficial, e com quem vive numa das áreas 'chique' de Londres, onde é conhecido pelo 'sábio de Putney Hill'. Elizabeth vai assinar, pela primeira vez, com o marido um livro em parceria a que deram o nome de 'The New Alchemists - How visionary people make something out of nothing' - Os Novos Alquimistas - Como gente visionária faz algo a partir do nada, com texto de Charles, fotografias de Elizabeth e histórias de cerca de 30 figuras do meio londrino agrupadas em 27 casos. Este marido & mulher Inc. não é caso único - o leitor não deve ficar espantado. Acontece o mesmo, por exemplo, com o futurista Alvin Toffler (que não dispensa a parceria com a sua Heidi) ou com Jack Nilles, o «pai» do teletrabalho, sempre com a sua inseparável Laila.

Fomos encontrar Charles e Elizabeth a mirarem o Tejo da varanda do Faz Figura, nesta primeira vinda a Lisboa. Casados há trinta anos, como já é raro, nos últimos dez anos articularam o trabalho profissional entre eles e dividem o ano em dois semestres, alternando o apoio de um ao outro. Desta vez, Charles veio a Lisboa fechar com a sua filosofia de gestão o 10º Aniversário do INDEG e revelou a 'Gurus à Mesa' não só o seu apetite por uma boa cataplana de peixe regada discretamente com um bom vinho alentejano, como o porquê desse bizarro título 'medievo' (às portas do século XXI !) para a obra que vai lançar em Setembro próximo no Reino Unido.

Torcer o nariz ao francês

Os 'alquimistas', mais propriamente os novos alquimistas, ficámos a saber por Charles Handy, são essa gente que, a partir do nada, cria empresas, funda organizações, inova, sem pedir licença a ninguém e sem alguma vez o ter 'planeado', e que tem deixado o casal Handy fascinado.

«É claro que o termo não pode ser levado à letra. É uma metáfora», ri-se o nosso interlocutor, ainda que, a bem da verdade, muitos destes novos alquimistas tenham, literalmente, transformado ideias de sucesso em fortuna a peso de ouro, sem usar qualquer engenhoca laboratorial medieval!

A escolha do termo 'alquimista' intriga. Mas Charles logo desfaz o mistério: «O termo 'entrepreneur' (empreendedor) que se tem usado na literatura de gestão norte-americana tem uma origem francesa...», e torce o nariz. «A palavra, como sabe, tem-se degradado um pouco ultimamente e quisemos usar um termo mais inglês e com o alquimista queremos salientar a criatividade do que fazem», salienta Charles.

«O progresso da sociedade depende destes alquimistas, não dos políticos», ri-se, por sua vez, Elizabeth. O alquimista moderno, na palavra dos Handy, é o tipo que acha que mais e melhor do mesmo não chega. «O mundo necessita de novas ideias, novos produtos, novos tipos de associações e instituições, novas iniciativas, arte nova e design novo. E este novo raramente - essa é a verdade - vem de dentro das organizações estabelecidas. É fruto de indivíduos diferentes», prossegue Charles. Génios, portanto?, perguntámos. Ao que este irlandês, de sorriso bondoso, logo responde: «No way! São gente comum, não são superstars! Qualquer um de nós, em determinada área, em determinado momento da vida, o pode ser. Basta saber descobrí-lo no dia em que a oportunidade surge». O que nos reconforta.

Sem plano de 'fabrico'

Esta democratização do acesso ao empreendedorismo não é discurso, sublinha Charles Handy, que nos conta a génese do livro: «Fomos investigar o problema num lote de 27 casos e encontrámos um padrão comum na forma como as coisas aconteceram. Nenhum deles alguma vez 'planeou' ser um empreendedor. Nenhum aos 15 anos acordou um dia a dizer que queria vir a ser um empreendedor, e pronto, como contam as narrativas VIP! As coisas simplesmente aconteceram, regra geral por acaso. E, mais desconcertante ainda, por azar. O azar traz oportunidades se o soubermos 'olhar'».

Foi o azar que gerou um Richard Branson, o inconfundível patrão da Virgin. Ele era desléxico e queria ser desportista. «Mas um pontapé nos joelhos liquidou os planos do miúdo. Aos 16 anos deixou a escola e foi fazer pela vida», conta Handy num dos 27 casos de Os Novos Alquimistas.

Foi, também, o azar mais negro que 'empurrou' Dee Dawson para um empreendimento que nunca lhe passara pela cabeça. «Dee foi literalmente obrigada a dar uma volta na vida aos 40 anos, com cinco filhos e um marido no desemprego e na mais terrível depressão. Dee criou em Londres a primeira clínica para crianças anoréxicas!», explica Elizabeth que quis captar esta guinada da vida dela em fotografias que denomina de 'compósitas', em que procura capturar diferentes aspectos destas pessoas em movimento num mesmo ambiente.

O empreendedor não é o produto de um qualquer plano de fabrico pessoal. Mas, sem dúvida, que algumas circunstâncias da sua história influenciaram estas pessoas. «Constatámos que 80% são os filhos do meio numa dada família, nem são os primogénitos nem os mais novos. Curiosamente são os do meio. Na Escola não eram sobredotados, mas apenas diferentes. O 'QI' não tem nada a ver com isto. Os miúdos foram marcados não pelo que aprenderam, mas pelo impacto que neles teve um ou alguns professores, 'grandes' professores, de que se recordam para toda a vida. Aprenderam a ver as coisas de um modo diferente», continua Handy.

O empreendedorismo não escolhe, também, idades. Michael Young é outro dos exemplos de Os Novos Alquimistas. Ele tem 83 anos e, entre muitas coisas, criou mais recentemente em Londres a Escola para Empreendedores Sociais (School for Social Entrepreneurs).

Também não é coisa que se aprenda em aula: «Os alquimistas não se formam» - Charles dá uma gargalhada.

A estatística dos casos escolhidos para o livro revela que metade meteram-se nos negócios e a outra metade nas mais diversas actividades. Apenas 8 são mulheres, algumas em muito pequenos negócios ilustrativos da nova economia urbana que mexe. «Há, ainda, poucas mulheres, diz Elizabeth. Elas foram educadas para não serem 'experimentalistas', mas sim mães e esposas, ou então executivas em organizações chefiadas por homens. Mas o panorama está a mudar e o livro quer mostrar essa mudança também».

A cidade, o local ideal

Os Handy foram falar com gente interessante da sua cidade. Geoff Mulgan, por exemplo, é um dos ideólogos londrinos, o criador do 'think tank' Demos, com tremenda influência no Reino Unido. Rose Fenton e Lucy Neal cuidam do London International Festival Theatre. Terence Conran inventou as lojas do Habitat e criou uma cadeia de restaurantes sem «a ditadura dos 'chefs' de cozinha» a pensar nos mais jovens.

Este mosaico ilustra bem o que os Handy chamam de 'ambiente' citadino onde a inovação prolifera. «O enfoque do nosso livro é Londres porque é aí que vivemos, e também porque sentimos que a nossa cidade está a viver como que um Renascimento. Quisemos capturar este mood», diz Charles, para logo acrescentar: «Nós os dois temos uma teoria, baseada na aplicação do conceito de 'cluster' de Michael Porter às cidades. Há um efeito de aglomeração muito importante para a gente criativa. Um bom ambiente citadino gera a inovação, atrai e fixa talentos, gente diferente, alquimistas como lhes chamamos. Cremos que Londres se está a transformar num desses lugares do mundo». E termina o jantar, com um conselho: «É preciso investir nas cidades para se transformarem nestes viveiros de alquimistas».


Referências de cabeçeira

  • The New Alchemists - How Visionary People Make Something out of Nothing, Charles Handy com fotografias de Elizabeth Handy, Century/Random House, Setembro de 1999, Londres. A PUBLICAR
  • Obras do autor traduzidas em português pelas Edições CETOP, na colecção 'Pensar a Gestão': A Era da Irracionalidade ou a Gestão do Futuro, que inaugurou a colecção, Os Deuses da Gestão, A Era do Paradoxo, A Era da Incerteza e O Espírito Faminto. (Edições CETOP, Grupo EuropaAmérica de Lyon de Castro, Mem Martins)
  • Comentário ao livro The Hungry Spirit
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