«A Microsoft sabe que o que eu escrevo
é a pura verdade»

Wendy Goldman Rohm a Jorge Nascimento Rodrigues

A Entrevista Exclusiva sobre The Microsoft File

Não são os X Files. Mas mesmo assim para a Microsoft são pura ficção. Para Wendy Goldman é a pura verdade. O livro do 'contra' nas vésperas da reabertura do processo anti-trust contra a empresa de Bill Gates. E está a vender-se como 'milho', diz a autora. Traduções em japonês, alemão, italiano e francês estão na calha.


Bill Gates no pelourinho The Microsoft File é mais um livro típico da cultura do Silicon Valley contra o «Big Guy from Seattle»?

WENDY ROHM - Não houve outro livro até agora que cubrisse assim o assunto. Ele documenta uma década de práticas empresariais predatórias por parte da Microsoft. Mais: inclui documentação vinda de dentro da própria empresa que demonstra à saciedade uma conduta dos executivos séniores da Microsoft no sentido de conspirarem para liquidar a concorrência. Também segue as actividades da empresa no próprio mercado, e os estragos que faz na concorrência. Outros livros falavam de rumores, mas nunca haviam documentado os planos concretos baseados em comunicações secretas internas. (À parte - eu até vivo em Illinois!)

Fala-se que teve 'gargantas fundas' quer dentro da Microsoft, como dentro do aparelho governamental?

W.R. - Não me pergunte como. (Risos)

Em suma, este é o livro que a Microsoft não quer que ninguém leia?

W.R. - A Microsoft odeia o livro porque sabe que o que eu escrevo é a pura verdade. Não só, porque publico, pela primeira vez, comunicações de correio electrónico bem reais e memorandos dos executivos de topo da empresa, mas também porque ele revela que a Microsoft mentiu à imprensa, bem como aos seus parceiros.

Mas, diga-me, todo este movimento contra a Microsoft não é um pouco o seguinte: se não é possível bater o Golias no mercado, vamos ver se o liquidamos na secretaria? Não sente que pode estar a embarcar nisto?

W.R. - Repare: nos EUA - não sei como é aí no vosso país - as empresas só são processadas por violações à lei anti-trust se houver, de facto, fundamento suficiente. O que está a dizer é um dos argumentos das Relações Públicas da Microsoft. Mas não colhe.

Acha mesmo que a lei anti-trust vale alguma coisa no mundo digital? Não será que o trust pode ser benéfico na nova economia emergente? Ele não ajuda a criar uma nova indústria, um novo mercado?

W.R. - Eu penso que a Lei Anti-Trust instituída no princípio deste século é ainda mais importante hoje e necessita de ser actualizada. E provavelmente a melhor maneira de o fazer é realizar um caso exemplar - como poderá ser o da Microsoft.

Mas, então, qual é o argumento central desta sua obra?

W.R. - O livro é um balanço histórico de um monopolista clássico e conta algumas actividades secretas em que ele se envolveu 'comendo' mercado atrás de mercado.

O seu artigo na «Wired» de 1994, em que revelava o processo, foi escrito antes do furor da Internet e da Web. O que é que o livro agora traz sobre o após explosão da Web?

W.R. - Se ler o livro vai ver que Gates e os seus executivos de topo ficaram paranóicos com o impacto do «browser» da Netscape e com a tecnologia Java da Sun Microsystems. O impacto era óbvio sobre o monopólio do Windows. Aquelas inovações traziam a capacidade de tornar obsoletos os sistemas operativos.

E depois? O que é que há de errado na Microsoft acordar para a realidade?

W.R. - Você pode ler no livro os memorandos estratégicos da empresa onde os executivos de topo reconheciam a tal ameaça e decidiam desencadear o contra-ataque - alavancando o monopólio do Windows no sentido de cortar o passo às novas tecnologias.

Mas, o que há de batota nisso?

W.R. - Eles decidiram 'atar' o Internet Explorer - o seu «browser» concorrente com o Netscape - ao Windows e obrigar - forçar - os fabricantes de computadores e de PCs a incluir o Internet Explorer em cada computador que punham no mercado. Além do mais, 'olearam' essas empresas no sentido de acordarem em não fazerem mais negócios com a Netscape. O Departamento de Justiça norte-americano chama a estes pagamentos 'gratificações invertidas', que são basicamente subornos visando restringir o livre comércio, a livre concorrência - uma prática que John D. Rockefeller usou nos seus tempos áureos.

Mas o que é que há de errado em a Microsoft pegar nas inovações dos outros e prendê-las na sua velha plataforma com que domina o mercado dos computadores?

W.R. - Nada há de errado em usar a tecnologia dos outros ... se pagar por ela, ou se, com toda a legitimidade, melhorar os seus próprios produtos.

Contudo, parece-me que o problema de fundo é outro. Alguns economistas dizem que a Microsoft, bem como a Intel e a Cisco, por exemplo, dominam tecnologias de alavanca nos dias que correm, uma espécie de 'funil' - como você lhe chama - que domina toda a cadeia de valor das indústrias que lideram. Mas insisto - o que é que há de errado nisso?

W.R. - Não estudei os casos da Intel e da Cisco, por isso só lhe respondo sobre a Microsoft. Segundo a Lei Anti-Trust americana, é ilegal - sublinho o termo - alavancar o poder de monopólio de um mercado para outro, ganhando uma vantagem desonesta. Ter monopólio não é ilegal, vamos a ver se nos entendemos. Mas manter e alavancar esse poder através de meios predatórios é também totalmete ilegal, e é um abuso do poder de mercado.

Um dos episódios que levanta no seu livro é o do inesperado investimento de 250 milhões de dólares da Microsoft na Apple, uma empresa típica da cultura anti-Gates do Silicon Valley e com uma legião de fãs no mundo que nem pode ouvir falar do homem mais rico do mundo. O que é que aconteceu?

W.R. - Como mostro no meu livro, o investimento não se deu por um acto de generosidade de Gates, mas porque a Apple o ameaçava com mais um processo por violação de uma patente. Em resposta, a Microsoft acedeu a investir na Apple, para evitar ser processada.

Acha que a presente situação política de alguma fragilidade da Administração Clinton poderá ser favorável a Gates?

W.R. - Não me parece. Muitos notáveis Republicanos estão a pressionar o Departamento de Justiça para se mexer e agir.