Um encontro em Lisboa com Alain Touraine

O sociólogo europeu das rupturas

Os movimentos sociais recentes mostraram que a ideia de globalização é uma «construção ideológica» que não é inevitável (ler entrevista com Naomi Klein). Os novos actores sociais animam o autor de «Como sair do liberalismo?» a desembaraçar-se do termo globalização.

Por Jorge Nascimento Rodrigues e Ruben Eiras

Obras de referência | Perfil de Touraine
Livro em Destaque: Comment Sortir du Libéralisme? (compra)

Capa do livro Comment Sortir du Libéralisme? Começou por ser um dos fundadores da escola europeia da sociologia do trabalho e da análise da condição operária no capitalismo industrial maduro. Foi, depois, um dos pioneiros da «sociedade pós-industrial» no final dos anos 60. Analisou os movimentos sociais radicais da altura, viveu a «quente» o Maio de 68, e a ascensão do «terciário» de serviços.

Mais tarde, foi dos primeiros, na Europa, a perceber, novamente, o fim de uma época e a emergência dos novos movimentos de actores sociais, até ao anti-globalismo de hoje. A caminho dos 76 anos, este sociólogo francês, continua a ter como «hobby» o trabalho. De passagem por Lisboa, concedeu esta entrevista à revista portuguesa Executive Digest.


Alain Touraine O professor ficou definitivamente ligado à geração dos arautos do fim da sociedade industrial no final dos anos 60. O seu livro sobre «A Sociedade Pós-Industrial» de 1969, ou o do sociólogo americano Daniel Bell, ou mesmo o de Peter Drucker anunciando uma «era de descontinuidade», e um ano mais tarde o de Alvin Toffler sobre «o choque do futuro», marcaram claramente uma ruptura. Olhando para trás, qual foi o vosso papel?

A.T. - Todas essas obras anunciaram uma mudança de sociedade. Que foi realizada. Por isso, torna-se inútil continuar a falar àcerca da sociedade «pós-industrial». Isso é história. O que é importante falar, agora, é da Sociedade da Informação.

A economia actual é definitivamente a tal economia de «serviços», o triunfo do «terciário», de que falavam, na altura?

A.T. - O conceito de «os serviços» está progressivamente a ficar desprovido de sentido, dado que já designa 2/3 ou mesmo 3/4 da população activa. Portanto, o que é importante, agora, é falar dos trabalhadores do conhecimento, que não são uma mera categoria no interior da Sociedade da Informação. São os actores económicos emergentes.

Falando, ainda, do passado. O Maio de 68 impressionou-o muito, como confessou. Era, então, professor em Nanterre (Paris), um dos pontos «quentes» do abalo ocorrido em França. Mas 20 a 30 anos depois, essa geração mudou de casaca ou converteu-se ao capitalismo «fixe», navega nalguma nostalgia ou dedica-se a novos «nichos» políticos. A China entrou numa estrada de reforma anti-Revolução Cultural ainda no final dos anos 70 e a queda do Muro de Berlim no final dos anos 80 enterrou definitivamente o sovietismo. Foi o computador pessoal e a Internet que fizeram a revolução «silenciosa» dentro do capitalismo nos últimos vinte e tal anos em vez desses movimentos sociais?

A.T. - Não creio. Nos últimos vinte anos não se deu qualquer ruptura no mundo capitalista, mas sim, pelo contrário, o seu triunfo. As políticas sociais recuaram, bem como o sindicalismo. Talvez nunca na história, a economia esteja tão independente de todo o controlo político e social - o que, aliás, é a própria definição do capitalismo.

É totalmente possível numa economia internacionalizada aumentar inclusive a intervenção do Estado e a defesa das culturas nacionais
e regionais

Os actuais movimentos anti-globalização vêm colocar em causa esse triunfo globalizante do capitalismo?

A.T. - A sua importância é que consciencializam que a globalização não é uma inevitabilidade, uma necessidade, mas sim uma opção de alguns. Esses movimentos, como eu refiro no meu livro mais recente «Como sair do liberalismo?» (compra do livro), permitiram a tomada de consciência de que se pode fazer algo com o surgimento de novos actores sociais. Houve um regresso da consciência das possibilidades de agir. No contexto actual, quero sublinhar que é totalmente possível numa economia internacionalizada aumentar inclusive a intervenção do Estado e a defesa das culturas nacionais e regionais contra o globalismo ideológico e cultural. Contra o pensamento «único» à escala global. Aliás, eu gostaria de me desenvencilhar do termo «globalização».

Esses movimentos estão a recriar uma nova frente mundial de actores que vão socavar o capitalismo, que vão trazer uma «alternativa» de sistema, como no início do século XX?

A.T. - Não creio, de modo algum, na formação de actores sociais ou políticos ao nível mundial. É mais provável que se formem novas políticas ao nível local e nacional. O que eles rejeitam precisamente é uma hegemonia ideológica e cultural unicitária, no caso a do globalismo. São pelo reconhecimento da sua individualidade cultural. São pela máxima «diferentes, mas iguais». Ainda que actuem globalmente, fazem parte de uma tendência do que eu chamo de «desglobalização».

A genómica e a biotecnologia vão revolucionar o capitalismo, como o transístor e o computador fizeram? Estaremos a caminho de algo pós-sociedade da informação?

A.T. - A revolução genética irá evidentemente transformar a medicina. Podemos esperar, em particular, progressos rápidos no domínio das doenças de degenerescência do sistema nervoso central. Quanto ao resto, não seria tão apressado.

Alguns profetas da desgraça, inclusive em França, falam do terrível fim do trabalho, e outros regozijam-se, finalmente, com o direito à preguiça tão querido dos anarquistas do início do século XX?

A.T. - É tão completamente absurdo falar do fim do trabalho como da chegada de uma sociedade do lazer. O verdadeiro problema actual é saber como podemos combinar a necessária flexibilidade com a indispensável segurança do trabalhador.

Mas já se fala do «não-trabalho»...

A.T. - O «não-trabalho» significa, antes de tudo, o consumo, cuja amplitude tem aumentado imenso. Hoje em dia, nós agimos, de facto, mais como consumidores do que como trabalhadores.

As fontes principais de progresso da produtividade estão nos métodos de gestão das organizações e das empresas

Mas a pressão da flexibilização e a precaridade não estão a condenar a dignidade do «trabalho», em detrimento da especulação, da exploração de oportunidades, da «fama» mediática mesmo que efémera, de vias mais «fáceis» (mesmo que «informais», para usar um eufemismo) de ganhar dinheiro e poder, da ilusão do próprio consumismo vivendo a crédito?

A.T. - Numa sociedade em que o nível de qualificação se eleva fortemente, seria paradoxal, a meu ver, que o trabalho perdesse a sua dignidade social.

Falou, atrás, da emergência de um novo tipo de actor económico - o que é que caracteriza a «sociedade do conhecimento» de que alguns, como Peter Drucker, já falam?

A.T. - Creio que se pode sublinhar que os aspectos mais importantes da sociedade da informação - eu ainda me fico por ela - e também as fontes principais de progresso da produtividade já não se encontram mais na produção ou na troca directa da informação. Estão nos métodos de gestão das organizações e empresas de todos os sectores.

A condição operária, que analisou há mais de 30 anos atrás, ainda existe?

A.T. - A classe trabalhadora - com uma definição de contornos cada vez mais difícil - perdeu muita da sua importância na população activa. Mas, por outro lado, tende a extremar-se uma divisão entre os qualificados, que entram no mundo dos quadros, e os não qualificados que, na maioria, são mulheres e trabalhadores imigrantes, e que estão condenados hoje a uma grave precaridade.

As próprias condições precárias trazidas pela Nova Economia e a vaga das «dot-com» está a fazer renascer movimentações e uma organização defensiva nos locais de trabalho, sobretudo nos Estados Unidos. Pode-se falar da reemergência de um novo tipo de sindicalismo?

A.T. - É difícil. O antigo sindicalismo deveu a sua importância ao facto da luta de classes aparecer, então, como o motor central da sociedade. Agora já não é o caso.

PERFIL
MEIO SÉCULO DE SOCIOLOGIA
Alain nasceu em 1925. A sua «idade da razão» começou como professor agregado de História nos anos 50. Entraria, depois, para investigador do CNRS, o poderoso organismo de pesquisa científica francês. Teve tempo para ter um «banho» americano, tendo estudado na América, nas universidades de Harvard, Columbia e Chicago.
A sua carreira na Sociologia começou cedo. Em 1958 criou o Laboratório de Sociologia do Trabalho em França e foi nos anos 60 presidente da Société de Sociologie Française. Foi co-fundador da revista Sociologie du Travail. O seu pioneirismo no estudo da condição operária do capitalismo industrial maduro levou-o a escrever «La conscience ouvriére» (compra do livro) em 1966.
A sua paixão pela América Latina (assunto que não abordamos nesta entrevista) data, também, do final dos anos 50. O Chile é o seu «país do coração», onde criou o Centro de Investigação em Sociologia do Trabalho da Universidade do Chile naquela época. Ele exerceu uma grande influência na sociologia latino-americana.
O Maio de 68 que «o impressionou muito» apanhou-o num dos epicentros da revolução juvenil - em Nanterre (Paris). A reflexão levou-o mais longe do que o próprio movimento geracional, e antecipou a ruptura profunda e silenciosa que estava a ocorrer - o fim do industrialismo e a emergência de uma «sociedade pós-industrial», tema do seu livro de 1969. A par de Daniel Bell, Peter Drucker e Alvin Toffler, nos Estados Unidos, Touraine foi um dos arautos mais distintos na Europa da mutação de então.
A partir dessa altura, faz a transição da sociologia do trabalho para a sociologia dos movimentos sociais. Em 1970 cria o Centro de Estudos dos Movimentos Sociais. Nos anos 70, foi vice-presidente da Associação Internacional de Sociologia. Na América Latina prossegiu o seu trabalho e «o golpe de estado de Pinochet atingiu-o profundamente por razões inclusive pessoais».
Os novos movimentos levaram-no a estudar, no começo dos anos 80, durante um ano, na Polónia, o Solidarnosc. Criou em 1981 o CADIS-Centre d'analyse et d'intervention sociologiques, sedeado na École de Hautes Études en Sciences Sociales. O conceito de sociologia como «intervenção» tornou-se a linha de conduta. A sua ligação à América Latina levou-o a escrever uma obra de fundo em 1988 sugestivamente intitulada «La Parole et le Sang» (compra do livro), escrita inicialmente no Chile.
A atenção sobre a realidade no final dos anos 80 levá-lo-ia, de novo, a intuir uma nova emergência - a de um mosaico de novos actores sociais. Em 1984 escreveu «Le Retour de l´Acteur» (compra do livro) (o título é óbvio, uma vez mais). A queda do Muro de Berlim em 1989 mais o convenceu dessa nova situação que o conduziu à compreensão, anos mais tarde, dos movimentos anti-globalização. Duas obras marcantes desta nova fase são «Pourrons-nous vivre ensemble?» (compra do livro) de 1997 onde lançou a máxima «Egaux et différents» (iguais e diferentes) e «Comment Sortir du libéralisme?» (compra do livro), a sua mais recente obra de 1999.
Os movimentos anti-globalismo levaram-no a retomar algum optimismo social e a descobrir novos «actores sociais». Alain Touraine é, hoje, por uma «quarta via», contra as três tendências que dominam a cena política: os liberais esgrimindo a omnipotência da economia globalizada e do globalismo ideológico e cultural, os esquerdistas nostálgicos, e os pragmáticos (da terceira via) que gerem o sistema. A «quarta via» vive dos novos sujeitos (actores) sociais autónomos capazes de exercer influência, de novo, sobre as decisões políticas e económicas, nas palavras do autor.
A ideia da globalização é uma «construção ideológica que surgiu depois da queda do Muro de Berlim», refere Touraine no seu mais recente livro, alavancada pela hegemonia ideológica e cultural americana, o predomínio dos movimentos financeiros e a acentuação da transnacionalização do comércio mundial.
Mas, paradoxalmente, acentua o professor, está a desenvolver-se uma «desglobalização» - com o estilhaçamento do «glocal», com um choque cada vez maior entre o cosmopolitanismo e o localismo, com o «basta» de muita gente derivado de uma vontade difusa de ruptura, com a reacção pela individualidade local contra o hegemonismo globalista. «As gentes querem ser reconhecidas», afirma o nosso sociólogo.


PRINCIPAIS OBRAS DE TOURAINE
A mais recente:
  • Comment sortir du libéralisme? (compra do livro) (Livres de Poche, Março 2001; 1ª edição 1998)
    A mais célebre:
  • La Société Post-Industrielle (1969) - Esgotado. Não disponível na Amazon.fr
    As mais populares segundo a Amazon.fr:
  • Critique de la Modernité (compra do livro) (Livres de Poche, 1995; 1ª edição 1992)
  • La Recherche de Soi (compra do livro) (2000)
  • Sociologie de l'Action (compra do livro) (Livres de Poche, 2000)
    Outras Obras de referência:
  • Pourrons vivre ensemble? (compra do livro) (Livres de Poche, 1999; 1ª edição 1997)
  • Qu'est-ce que la Démocratie? (compra do livro) (Livres de Poche, 1997; 1ª edição 1994)
  • La Parole et le Sang (compra do livro) (1988)
  • Le Retour de l' Acteur (compra do livro) (1984)
  • L'Aprés Socialisme (compra do livro) (1980)
  • Pour la Sociologie (compra do livro) (Livres de Poche, 1974)
  • Le Communisme utopique. Le mouvement de Mai 68 (compra do livro) (Livres de Poche, 1972)
  • La Conscience Ouvrière (compra do livro) (1966)
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