A emergência das comunidades
de negócio na Web

Don Tapscott apresenta Blueprint to the Digital Economy

O criador do conceito de 'economia digital' desenvolve a ideia de «comunidades de negócio» suportadas pela plataforma da Internet e da World Wide Web. São configurações abertas, que vão para além do EDI (transferência electrónica de dados).

Entrevista conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues

Alguns especialistas criticam o conceito de 'economia digital' por ser mais uma plataforma tecnológica do que um sistema económico - seria como falar de economia industrial e nunca usar o termo capitalismo. Esses mesmos especialistas pensam que o conceito de economia do conhecimento (ainda que não se tenha gerado um «ismo» apropriado, que facilite a linguagem) seria mais adequado, porque, ao fim e ao cabo, é o saber que está a substituir o capital. O que é que pensa desta crítica?

DON TAPSCOTT - A nova economia é tudo isso - uma economia digital, uma economia do saber e inclusive é uma extensão do capitalismo. Cada um destes conceitos são 'lentes', se assim podemos dizer, que nos permitem ver o actual sistema envolvente de criação e extensão da riqueza. Tal como, a meu ver, o termo 'capitalismo industrial' foi útil para se perceber o crescimento do capitalismo, também os adjectivos 'digital' e 'conhecimento' são hoje úteis para se perceber o que está a mudar.

Tributo a Alvin Toffler

Alvin Toffler Mudando de registo. É curioso notar que muitos dos especialistas que contribuem neste seu livro recordam Alvin Toffler e o seu trabalho pioneiro nos anos 60 e 70. Qual é o lugar de Toffler - ou do casal, se se quiser ser mais fiel - na História do pensamento sobre a economia digital?

D.T. - Ele foi fundamental, para todos nós, ao descrever as mudanças 'tectónicas' que estavam a suceder na evolução da nossa sociedade.

Afirma, logo a abrir a obra, que a primeira vaga da Revolução da Informação que durou estes últimos 40 a 50 anos, é apenas um preâmbulo. Para que isso não seja apenas uma fígura de estilo, o que é que podemos esperar desta segunda vaga emergente ligada às redes e aos mercados digitais, que seja diferente do que vivemos neste meio século?

D.T. -- Estamos a assistir à emergência de novos modelos de criação de riqueza, em torno das «comunidades electrónicas de negócios», de que falamos em Blueprint for the Digital Economy. Também estamos a assistir a grandes mudanças no desenvolvimento social e na governação. Neste último aspecto, a Alliance for Converging Techonologies, que dirijo, vai lançar um novo programa internacional sobre a 'Governação na Economia Digital', que pretende ir mais longe do que a Reinvenção da Governação lançada nos Estados Unidos em 1992.

As comunidades electrónicas

Essas «comunidades de negócios electrónicas» são o futuro do mercado «livre»?

D.T. - Essas comunidades são redes electrónicas de fabricantes, distribuidores, intermediários comerciais, clientes e até mesmo concorrentes. A sua missão é simples: produzir colectivamente produtos e serviços através de uma estreita troca de informação, de saber e de pagamentos integralmente «on line». Estas comunidades já estão a refazer indústrias inteiras e, em certos sectores da economia, estão a modificar o conceito de empresa tal qual o temos conhecido até à data. Dantes, o modelo era o da empresa auto-suficiente detendo internamente toda a cadeia do valor do seu negócio. Pensem neste exemplo verdadeiro: a Ford chegou ao ponto de comprar florestas na Malásia para deter o fornecimento de tudo o que tinha a ver com borracha para o automóvel - pneus, etc. Nos anos 80 e 90, ocorreu uma mudança radical. A cadeia de valor passou a espalhar-se por uma série de empresas autónomas. As organizações começaram a poder integrar 'virtualmente' essas cadeias de abastecimentos através de um relacionamento electrónico com parceiros - uma empresa central conectava-se com parceiros.
A Chrysler foi uma das primeiras a fazê-lo, e trouxe os seus fornecedores, desde o design, à produção e à logística para dentro de uma mesma rede, com o apoio do EDI (da transferência electrónica de dados). Isso foi um enorme salto, contudo os parceiros podiam apenas 'falar' com os membros desse grupo fechado.

Então, o que me está a dizer é que as «comunidades» de que fala não são ainda essas baseadas no EDI?

D.T. - As que referimos em Blueprint - e que vamos desenvolver num livro próprio a lançar no princípio do ano 2000 - baseiam-se no que ocorreu nos últimos anos, quando a Internet chegou e mudou tudo. A Net e a Web fornecem uma nova plataforma de comunicações, mais parecida com a da rede eléctrica - permite aceder à informação através de qualquer ponto. O resultado é um caleidocóspio de conexões entre múltiplos grupos de parceiros.

Fala-se muito do digital e tende-se a esquecer a parte física em muitos sectores económicos. Será que a gestão da cadeia de abastecimentos morreu? A logística (física) é coisa do passado?

D.T. - Não. O que há que complementar é 'estendê-las' ao campo digital.

A geração que vai fazer furor

Mas não será que o grande salto da Economia Digital está ainda distante, uns dez a quinze anos, à espera que a 'geração Net' chegue à idade da razão?

D.T. - É sem dúvida verdade que quando essa geração - que eu denominei de «geração Net» no meu livro Growing Up Digital - chegar à idade adulta transformar-se-á numa força poderosissima de mudança nas organizações, nos mercados e nas sociedades. Em certo sentido, isso já começou a acontecer.
As crianças e jovens que hoje já têm a sorte de poder crescer 'digitalmente' são inovadoras, muito entendidas em termos de (novos) 'media', fortemente independentes, e orientadas globalmente, e estão a mudar as escolas, as universidades, os mercados de consumo e à medida que entrem nas empresas trarão uma nova cultura de trabalho.

Mas não poderá toda a actual euforia em torno da economia digital esvaziar-se se algum abalo se der provocado pela crise internacional? A 'bolha' de ultracapitalização das empresas do 'hi-tech' não poderá rebentar?

D.T. - As empresas baseadas na Web continuam a estar avaliadas incrivelmente, com valores que vão às 15 a 20 vezes os rendimentos projectados. É claro que há sérias interrogações sobre se isto é sustentável. É provável que a corrida ao ouro termine, e isso vai trazer rapidamente um novo contexto em termos do que se vai exigir à empresa digital para ser empreendedora e bem sucedida.

Qual é a relação entre algumas das 'buzzwords' mais quentes ultimamente, como a gestão do conhecimento e a aprendizagem organizacional, e o conceito de empresa da economia digital que falam em Blueprint?

D.T. - O que nós acrescentamos é que tudo isso tem de ser feito também ENTRE organizações no quadro das comunidades electrónicas de negócios. O que precisamos é de gestão do saber interempresas. O mesmo em termos de aprendizagem organizacional.

Poder-se-á dizer que o maior impacto futuro da economia digital vai ser no campo do ensino?

D.T. - Será que a chuva molha? De que cor é o cavalo branco de Napoleão?


A Ler Ainda: