Uma entrevista com Stuart Crainer
sobre Tom Peters


Tom Peters - o "animal político" da gestão

Entrevista a Stuart Crainer
conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues


O «fenómeno» Tom Peters precisava de ser contado nos pormenores e no que ocorreu nos bastidores. Hoje, reconhecidamente, se atribui a ele a popularização da gestão.

Stuart Crainer, um jovem escritor e colunista de gestão inglês, inaugurou o «nicho» da literatura sobre os gurus de gestão com este Corporate Man to Corporate Skunk - The Peters Phenomenon, A Biography (resumo do livro on line). Mas fê-lo com seriedade, equilibradamente.

O homem que inventou nos anos 80 - sem o saber, de início - o negócio dos gurus de gestão, na dupla óptica dos «best-sellers» que se esgotam nas lojas de aeroporto ou nas tabacarias, e da formação com uma forte carga de «evangelização» e galvanização, merecia uma biografia por ocasião dos 15 anos da obra que o tirou do anonimato (In Search of Excellence) e lhe revelou o segredo de transformar palavras em ouro.

Fomos falar com Stuart e descobrimos a enorme admiração que ele tem por esse "show-man" que actua como um verdadeiro "animal político" na área da gestão. Tem havido candidatos a esse lugar de número um, mas Michael Hammer com a «reengenharia» parece ter apenas conseguido passar de raspão. Gary Hamel espreita agora à esquina, vaticina Stuart Crainer.

O filão da escrita de biografias sobre os gurus da gestão parece começar a pegar. No início de 1998, Jack Beatty, um sénior da revista bostoniana The Atlantic Monthly, vai lançar The World According to Peter Drucker, na Free Press.


Estávamos habituados às biografias oficiosas ou renegadas sobre os líderes empresariais ou mesmo a autobiografias. Mas quanto a investigações sobre gurus da gestão, este seu livro é provavelmente o primeiro. Um outro sobre Peter Drucker está ainda em fase de gestação nos Estados Unidos. Ao lançar o livro, sente que há um «nicho» também para obras como a sua?

STUART CRAINER -- Sinceramente, acho que haverá sempre mercado para livros que falem de pessoas genuinamente interessantes, gente que consegue mudar a forma como pensamos ou fazemos as coisas. O aumento de interesse pelos pensadores de gestão é resultado, a meu ver, do reconhecimento geral de que as empresas são, no fundo, as grandes instituições da nossa época.

Outro aspecto que eu acrescentaria é que um homem destes pode ter um impacto muito profundo no dia-a-dia dos negócios. Por exemplo, seja o que for que hoje se pense sobre a reengenharia, o que é um facto é que essa ideia teve uma repercussão enorme em todo o mundo. As ideias de Champy e de Hammer provocaram grandes mudanças. À excepção dos políticos, poucas outras pessoas podem ter - têm - tanta influência e poder globais, como os gurus.

Mas porque é que um escritor europeu, como você, foi pegar em Tom Peters, considerado por muito boa gente do «establishement» académico e jornalístico, no nosso continente, como o protótipo do guru americano caça-níqueis?

S.C. -- É verdade que Tom recebeu ao longo dos anos muita crítica destrutiva da parte dessa gente. É um facto que se descobriu, poucos anos depois, que muitas das empresas que ele considerou "excelentes", não o eram. Esta, aliás, é a crítica mais trivial, mas não é o ascenso e a queda das empresas um facto da vida? É evidente também que Tom aprendeu com esse erro, enquanto outros não. A segunda crítica é que ele é muito inconstante. É claro que também é verdade.

Contudo, como ele argumenta, se as circunstâncias mudam, as ideias têm de mudar. [Faço aqui um parêntesis para lhe dizer que acho estranho que ninguém critique Peter Drucker por mudar de ideias.] Por fim, há uma grande dor de cotevelo, no meio desses ataques todos. Peters não é um académico, nem é mais um consultor, nem mesmo é um jornalista. Ele tem um pouco de cada um desses campos e todos eles invejam o seu enorme sucesso. Não acha que é um personagem que merecia ser analisado?

Aliás, o seu livro pode ser comparado, em parte, com um outro aí editado em Londres por dois membros da equipa da revista The Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldridge [um resumo deste livro foi publicado na edição da EXECUTIVE DIGEST de Julho de 1997], que escreveram uma obra arrasadora contra os gurus, em que mesmo Drucker sai chamuscado, que intitularam de "Os Bruxos" («The Witch Doctors - Making sense of the management gurus»). No seu livro sobre Peters, há uma análise menos ligeira e menos sensacionalista. Mas são eles mesmo «bruxos»?

S.C. -- Mas, diga-me uma coisa, os bruxos não curam, por vezes, gente? Se não fosse assim, as pessoas não continuavam a lá ir! (Risos) É o mesmo com os gurus. Por vezes, o que eles dizem ou escrevem pode fazer a diferença. Por isso, vale a pena ouví-los, e aproveitar o que de melhor houver e mais apropriado. Se os gestores fizessem tudo o que Tom Peters advoga não conseguiriam estar à frente de qualquer empresa! Os gestores têm de pensar pela própria cabeça.

Voltando aos dois homens que mais marcaram a gestão neste último meio século, Peter Drucker, o «pai» da doutrina, e Tom Peters, o maior popularizador de sempre, como os compararia, se é que é possível ou legítimo fazê-lo?

S.C. -- Aparentemente estão em pólos opostos. Mas há enormes pontos de encontro. São ambos, autênticos «outsiders». O horizonte de interesses de ambos é enorme. Os dois são, também, imensamente lidos. Quanto à influência de cada um, o tempo o dirá.

Durante a investigação da vida de Tom Peters que fez para este seu livro, qual foi o acontecimento nestes quinze anos do "fenómeno" que mais o espantou?

S.C. -- O turbilhão da fama. Falando com ele, em privado, eu apercebi-me do esforço que ele faz para manter o sentido da realidade, no meio de um frenesim de viagens à volta do mundo, tentanto aproveitar ao máximo um período de fama e fortuna que ele sempre julgou efémero.

No seu livro, avança a ideia de que «Liberation Management» foi o grande livro da vida de Tom Peters. Porquê?

S.C. -- Se o ler do princípio ao fim, é um esforço terrível - o livro custa, de facto, a ler.

É bem verdade. São 834 páginas em escrita galopante. Só menos vinte páginas do que «The Competitive Advantage of Nations» de Michael Porter, outro dos que ocupa mais de cinco centímetros de prateleira...

S.C. -- ...Ele precisava de ter sido editado como deve ser. Mas se ler cada uma das secções por si, você descobre a enorme força da escrita de Tom - é uma verdadeira mina de informação e de conhecimento. Quanto a mim, Liberation Management funcionará melhor como uma obra de referência sobre o que deverá ser a organização dos anos 90. Está cheio de vida e de opiniões, escrito naquele estilo típico, entusiástico, sem perder o fôlego, de Tom.

E, depois desse clímax em 1992, não lhe dá a sensação que ele perdeu a pedalada? É difícil classificar como trazendo algo de novo os últimos dois livros dele que já datam de há três anos - «The Tom Peters Seminar: Crazy Times call for Crazy Organizations» e «The Pursuit of the Wow!: Every Person's Guide to Topsy-Turvy Times»? Um pouco provocatoriamente - terá Tom Peters perdido a inspiração neste "confuso", "baralhado" e "louco" final de século?

S.C. -- Tom continua a defender com unhas e dentes esses dois livros, mas também acho que eles são fracos. São basicamente uma operação de reciclagem de muito material de Liberation Management. Mas nunca escreveria que Tom está acabado! Ele continua a percorrer o mundo. Continua, com aquele espírito acutilante, a ler tudo o que sai. Não irá provavelmente escrever outro In Search of Excellence, mas basta ir a um dos seus seminários para se ver como ele continua a ser imensamente popular.

Mas, ao fim e ao cabo, quem é Tom Peters? Um mensageiro de tendências? Um grande intuitivo? O homem que pôs o «management» ao alcance do gestor comum? O homem que também revolucionou o modo de fazer formação em gestão?

S.C. -- Um pouco de tudo isso. Mas eu salientaria dois dons naturais que ele tem. O primeiro, é que Tom está sempre à frente do jogo. A sua capacidade de ler e de absorver a informação permite-lhe estar sempre uns passos à frente do resto do corpo de pensadores da gestão. Isto é, em parte, fruto da intuição. Tal como um político, por vezes, consegue apanhar rapidamente o sentir do povo - aliás como recentemente o fez Tony Blair, aqui em Inglaterra, a propósito da morte de Diana. É a arte de se ser um "animal político". Tom consegue fazer o mesmo no mundo empresarial. O segundo dom é a sua enorme capacidade de comunicação da mensagem numa linguagem terra-a-terra que é compreendida pelas pessoas.

E, agora, pessoalmente, o que é que mais o seduziu e desagradou nele?

S.C. -- É uma pessoa indiscutivelmente carismática, cheia de humor e encantadora. Gosta-se dele com muita facilidade. Mas, para além dessa linha, ele é muito sensível e altamente complexo. Suspeito que pouca gente consegue "penetrar" nessa faceta dele.

Tom Peters abriu um caminho. Mike Hammer julgou poder seguir-lhe as pisadas e ser o novo "fenómeno", mas a reengenharia parece estar condenada. Quem é que vê no horizonte para se tornar no guru número um do final de século?

S.C. -- Por ora, o homem mais solicitado é Gary Hamel. Ele está a seguir as pisadas de Tom Peters - viaja freneticamente atrás do sucesso dos seus livros. É claro que muito poucos conseguem manter-se no poder. Tom Peters tem estado nele por ora. Veremos.