PapersUma segmentação inteligente
dos fornecedores

Jorge Nascimento Rodrigues

A gestão da cadeia de fornecedores está hoje no topo das preocupações em diversas indústrias em que as compras "fora" se transformaram na parcela dominante. Um dos truques de sucesso é uma correcta segmentação desses fornecedores, o que pode ser aprendido com os japoneses, segundo um estudo apoiado pelo MIT.

Uma das "boas práticas" industriais a recomendar vivamente hoje em dia é a segmentação inteligente da cadeia de fornecedores em distintos grupos com quem nos devemos relacionar de um modo diferente em função do carácter "estratégico" dos fornecimentos que fazem.

Com aqueles que fornecem materiais, componentes ou serviços "estratégicos", ou seja de alto valor acrescentado, que têm a ver com as "competências centrais" da empresa que compra, ou que ajudam a diferenciar a oferta desta, devem ensaiar-se parcerias estratégicas.

Com os que não se enquadram neste círculo, podem adoptar-se estratégias de relacionamento mais tenso, mas que contudo devem rejeitar os métodos tradicionais de esmagamento de preços, ameaça de rescisão permanente e pouco envolvimento com o fornecedor, que têm caracterizado a prática corrente de gestão do «outsourcing» no Ocidente.

Estas conclusões podem ser apreciadas num estudo a que tivemos acesso levado a cabo por Jeffrey H. Dyer, Dong Sung Cho e Wujin Chu, da Wharton School da Universidade de Pennsylvania, que foram apoiados pelo Programa "International Motor Vehicle" do Massachusetts Institute of Technology (MIT), programa que poderá vir a estar envolvido num estudo sobre a indústria de componentes automóvel em Portugal.

O trabalho deste grupo foi considerado pela Associação Japonesa de Estudos Empreariais como dos melhores jamais realizados sobre o assunto e acaba de ser publicado pela California Management Review ("Strategic Supplier Segmentation", volume 40, nº2, 1998, pg. 57), revista editada pela Walter A. Haas School of Business da Universidade de Berkeley, perto de São Francisco, nos Estados Unidos. A equipa recolheu dados de campo na indústria automóvel entre 1992 e 1994 junto da General Motors, da Ford e da Chrysler, nos EUA, da Toyota e da Nissan, no Japão, e da Hyundai, Daewoo e Kia, na Coreia do Sul, bem como apreciou 453 relações entre estes construtores e 70 fornecedores naqueles três países. Esta indústria é considerada como uma das melhores "cobaias" deste tipo de estratégias de relacionamento no seio da cadeia de valor.

Três modelos em confronto

Os investigadores encontraram no terreno automóvel três modelos, em que os EUA se situam num extremo caracterizado por uma prática de grande tensão, rotação e visão de curtissimo prazo em relação aos fornecedores, e a Coreia do Sul no outro extremo com excessiva dependência dos fornecedores em relação a um determinado conglomerado automóvel (chega a implicar mais de 80 por cento da facturação do fornecedor).

O caso americano mais paradigmático da política do "cotelo" em cima da cabeça dos fornecedores foi praticado pela GM quando teve à frente das compras o temível Jose Ignacio Lopez de Arriortua. Na altura, foi noticiado ele ter poupado à GM qualquer coisa como 3 a 4 biliões de dólares, que não foram para os bolsos dos fornecedores.

Contudo, verificou-se, depois, que este tipo de políticas conduziam, por um lado, ao atrofiamento da dimensão dos fornecedores e ao aumento dos próprios custos administrativos e de transação nos construtores, sujeitos a um vai-vém de negociações de contratos, de dificuldade de controlo da qualidade e de sinergia na optimização das melhores soluções.

No "meio" deste contínuo entre os dois modelos, verificou-se que os construtores japoneses seguem uma abordagem mais inteligente baseada numa segmentação estratégica em três "aneis" concêntricos - o primeiro, dos fornecedores mais "estratégicos", um segundo de clubes de fornecedores de componentes que exigem alguma customização e interdependência no desenvolvimento, e o terceiro de fornecedores de partes «standard».

No entanto, ainda que em graus diferentes, os construtores japoneses seguiram uma política, quer em relação aos parceiros estratégicos como em relação aos outros, baseada na permuta de informação e de custos, no apoio à redução de custos e à qualidade, na colaboração no desenvolvimento, chegando ao próprio apoio no design do lay-out fabril ou da logística. Um dos pontos centrais que começa a ser falado é o da gestão do conhecimento (a célebre «buzzword» do "knowledge management") entre as diferentes organizações que compõem estas redes.

A equipa de investigação concluíu que as estratégias de parceria são mais apropriadas para indústrias de produtos complexos, para épocas de expansão, e sempre que está em jogo a criação de valor a longo prazo, com exigências altas de customização, qualidade, tecnologia e serviço. Por outro lado, estratégias com maior "tensão", mas duráveis no plano contratual, são mais adequadas a indústrias de produtos triviais ou com grande grau de estandardização das suas componentes, em indústrias em declínio, ou quando a redução de custos a todo o preço é o objectivo central de curto prazo.