Richard Rosecrance comenta «A emergência do Estado Virtual»

«Os pequenos países podem dar cartas
na geo-economia»

Os países mais 'inteligentes' teriam evoluído, nas últimas duas décadas, de uma lógica baseada na exportação de mercadorias para uma conquista de posições globais assentes no investimento produtivo noutros países. O barómetro desta «performance» teria deixado de ser a balança comercial para passar a ser o investimento directo no estrangeiro e os invisíveis obtidos pela exportação de serviços e de produtos de alto valor acrescentado e pelo retorno do investimento.

Jorge Nascimento Rodrigues em Nova Iorque com Richard Rosecrance

Versão adaptada publicada na Executive Digest

 O MODELO EUROPEU 

O Estado, nas nações designadas por Richard Rosecrance de «virtuais», teria deixado de favorecer uma diplomacia exportadora para o contentor para se tornar no braço direito das estratégias empresariais de investimento directo no estrangeiro.

Desta mudança teria surgido uma nova divisão mundial entre «países-cérebro» (autênticos 'Estados Virtuais', «head-countries», na designação em inglês) e «países braçais» («body-countries», na designação dada pelo autor), e da interdependência crescente entre estes dois tipos de países é de esperar uma situação menos belicosa em termos geo-políticos no século XXI.

Esta é a conclusão do mais recente trabalho de investigação levado a cabo por Richard Rosecrance, director do Centro de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que acaba de publicar The Rise of the Virtual State - Wealth and Power in the Coming Century (compra do livro), que surpreende pela sua mensagem optimista.

Capa do livro The Rise of the Virtual State - Wealth and Power in the Coming Century A tese de Rosecrance exposta nas conclusões do livro é simples: «Estamos no meio de uma revolução económica global. A economia mundial passou de uma ênfase na terra para a liderança do trabalho, do capital e da informação. Hoje em dia o Capital Humano é mais importante do que as matérias primas, a agricultura ou o petróleo. No século XXI, as Nações-Estado continuarão a ser o principal factor de organização na política internacional. Elas continuarão a competir - mas com a deslocação dos 'intangíveis' para o centro do palco, essa competição já não implicará, sobretudo, a competição sobre o território. Mas não será possível uma boa «performance» se não houver alguma forma de coerência política entre os grandes Estados no sentido de supervisionar e proteger o mercado. Se esse tipo de mecanismo funcionar, o século XXI poderá ser a primeira época na História com uma perspectiva de transformação pacífica e estabilidade duradoura».

Ainda que muitos analistas, mais pessimistas, achem discutível o papel «sobredeterminante» destas novas interdependências económicas sobre as diferenças civilizacionais potencialmente explosivas (basta recordar os trabalhos de Samuel Huntington já aqui referidos na Janela na Web) , o livro deste professor de Ciência Política está a provocar uma reflexão sobre as estratégias nacionais e é particularmente importante para um pequeno país como Portugal. Rosecrance aponta o exemplo de diversos pequenos países europeus e asiáticos que estão na vanguarda deste movimento e mostra as opções estratégicas que os empresários e gestores desses países fizeram com êxito.

Há 14 anos atrás, Rosecrance tinha dissecado em The Rise of the Trading State: Commerce and Conquest in the Modern World a ascensão do que ele designou como 'estado comercial', baseado nas estratégias exportadoras de conquista de mercado por países ascendentes na década de 60 e 70, como o Japão e a Alemanha. A obra actual vem afirmar que copiar esse modelo já não é o mais adequado para os países que querem sair do rótulo de «países braçais».

Nesta entrevista, o professor Rosecrance esclarece, em dois andamentos, alguns pontos mais polémicos do seu livro e fala da União Europeia como «modelo» de um novo tipo de Estado - o Estado em rede.

A nova geo-economia

Richard Rosecrance No século XX quando é que marcaria o nascimento do que designa por 'Estado Virtual'?

RICHARD ROSECRANCE - Esse tipo de país começou a emergir depois da Segunda Guerra Mundial, mas não floresceu até à Revolução do Conhecimento dos anos 80 e 90. Foi só a partir dessa altura que ficou visível que o retorno obtido do conhecimento e da informação era mais elevado do que o tirado da produção industrial e da exploração de matérias primas.

Mas, em termos «técnicos», como é que definiria esse 'Estado Virtual'?

R.R. - Em termos de indicadores económicos simples diria que é o país em que os serviços representam cerca de 80% do PNB e a produção industrial menos de 20%.

Mas não teme que o acusem de ser um defensor da «desindustrialização»?

R.R. - A ideia é que os países mais inteligentes concentram hoje os seus esforços domésticos em serviços de alto valor acrescentado - como a investigação & desenvolvimento, o design, o financiamento, o marketing e a logística.

Qual é, então, a diferença com o «Estado Comercial» que esteve na moda até há bem pouco tempo e cuja estratégia exportadora tantos países gostam de copiar para descolarem economicamente?

R.R. - O que eu designei em 1986 como 'Estado Comercial' estava baseado na troca de mercadorias e produtos manufacturados e foi uma situação que criou um alto grau de interdependência comercial. Contudo, essa dinâmica estava altamente dependente do nível de tarifas alfandegárias. Se estas fossem aumentadas, tal Estado já não conseguia funcionar. O Estado Virtual, pelo contrário, cria um outro tipo de interdependência baseado na produção dentro da zona tarifária de um outro país. Pode funcionar mesmo com tarifas elevadas.

Que tipo de países tinha em mente quando falou do êxito do 'estado comercial'?

R.R. - Casos como o do Japão e da Alemanha depois da 2ª Guerra Mundial que mudaram a sua estratégia da conquista de território para a conquista de quota de mercado. Depois, vários pequenos países europeus e os «tigres» asiáticos copiaram o modelo. Nos anos 60, 70 e até meados dos anos 80, as mercadorias tinham maior mobilidade do que os capitais e a mão de obra, e, então, exportar e vender no estrangeiro era o jogo certo.

Segundo o seu estudo, aparentemente o ano de 1986 foi o ponto de viragem à escala mundial de uma estratégia exportadora para uma estratégia de investimento directo no estrangeiro...

R.R. - Efectivamente, o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) apresentou a partir de 1986 uma taxa de crescimento muito superior à das exportações e do PNB. Um ritmo 2,5 superior ao das exportações e 4,5 superior ao do PNB!

Mas porquê?

R.R. - Por causa do dólar mais caro que dificultou o comércio. Todos os países ligados ao dólar enfrentaram o mesmo problema. A única solução para os Estados Unidos e outros países ligados ao dólar era «deslocar» a produção para fora - «deslocalizar» como então se chamou. Com a subida do marco alemão e do iene japonês sucedeu o mesmo. Essa deslocalização gerou o que chamo de «países-braçais».

Que implicações é que isso teve para o papel do próprio Estado nesses países?

R.R. - A estratégia geo-económica passou a ser, pelo menos, tão importante como a estratégia militar. O Estado passou também de promotor de exportações para facilitador de movimentos de capital.

A esses países que rapidamente colocaram a locomotiva no IDE designou-os por «países-cérebro». Quais são os ingredientes de uma estratégia desse tipo?

R.R. - Uma aliança muito clara entre empreendedores e líderes políticos no sentido de desenvolver estratégias baseadas na massa cinzenta. Esta aliança tem de convencer os cidadãos que os benefícios a longo prazo estão nos serviços de alto valor acrescentado e no Ensino e formação cívica que tornem esta estratégia possível.

Será mera coincidência o facto dos exemplos mais «puros» que dá de 'estados virtuais' serem pequenos países e cidades-estado?

R.R. - Não, não é um acidente. Os pequenos Estados dependem imenso do mercado mundial. Como os salários aumentaram rapidamente nesses meios pequenos, tiveram de ser os primeiros a deslocalizar as produções. Os pequenos países podem dar cartas.

Haverá alguma diferença entre as estratégias de deslocalização direccionadas para colocar produções em «países-braçais» e a globalização, ou seja a gestão da cadeia de valor a nível mundial que integra «braços» e «cabeça»?

R.R. - A meu ver não há conflito algum entre as duas abordagens.

Neste seu livro fala de novas formas de deslocalização. De que se trata?

R.R. - Do surgimento do que eu designo por 'fundições', ou seja de unidades industriais deslocalizadas que manufacturam para diversas multinacionais. São locais de produção partilhada, se assim podemos dizer. Em áreas como o têxtil, o automóvel, os 'chips', a capacidade mundial instalada ultrapassa largamente a procura e isso exige uma certa consolidação dos locais de produção

Qual é a relação entre a virtualização do Estado e a digitalização das infraestruturas, dos modelos de negócio e dos hábitos dos cidadãos? Ou não há relação directa?

R.R. - A virtualização depende como o pão para a boca de tudo isso. Virtualização é basicamente a gestão à distância, se calhar até noutro fuso horário. Por isso, não só os países-cérebro, mas também os próprios países-braçais têm de apostar na digitalização. Isso pode explicar porque razão a China, a Europa de Leste e a América Latina se tornaram «países-braçais» eficientes - porque adquiriram pelo menos uma 'aproximação' a essa nova situação digital. Explica, também porque a África não consegue, em grande parte, ser inclusive uma região boa para deslocalizar hoje em dia.

Para terminar esta parte da nossa conversa: a balança dos invisíveis tornou-se estrategicamente mais importante do que a balança comercial?

R.R. - Os invisíveis constituem hoje mais de metade do PNB em muitos países. Mas as transações neste campo ainda não ultrapassaram as que ocorrem entre coisas visíveis. Isto sucede, porque, até muito recentemente, os invisíveis eram encarados como bens não transaccionáveis. Esta visão das coisas está a mudar muito rapidamente e os rendimentos da transação de invisíveis estão a crescer muito mais rapidamente do que os originários na transação de visíveis. Isto é uma linguagem um pouco 'técnica', mas é estrategicamente importante acentuar este ponto.

A nova geo-política

Porque razão a Ásia é a região onde vai buscar mais exemplos de 'Estados Virtuais'?

R.R. - A mudança nos níveis salariais na Ásia foi das mais extraordinárias, pois, recorde-se, que foram países que mudaram em pouco tempo da agricultura para a manufactura e depois para os serviços. Deste modo, para manterem a sua competitividade, tiveram de deslocalizar rapidamente. Na Europa, a rigidez institucional atrasou este processo, na medida em que os eleitorados europeus não perceberam, no princípio, os malefícios que trazia produzir em casa com perca de competitividade. Os casos de estudo que cito são, de facto, países como Hong Kong, Singapura e Taiwan, que deslocalizaram, cedo, para a China e países limítrofes, como a Malásia ou a Indonésia. O Japão fê-lo para os grandes mercados, como os EUA e a Europa, e mais tarde para a China.

Onde coloca nessa escala, países como os Estados Unidos, a Alemanha ou a França?

R.R. - Estão um pouco a meio caminho. Não foram tão longe como aqueles países asiáticos. Têm-se especializado em alto valor acrescentado nos serviços mantendo, em simultâneo, uma capacidade de produção doméstica considerável.

Essa nova divisão do mundo entre «países-cérebro» e «países braçais» não é potencialmente explosiva, criando novas divisões geo-políticas?

R.R. - Não creio que venha a criar esse tipo de fosso.

O professor é um optimista...

R.R. - Não é essa a questão. Eu creio que a interdependência estrutural entre os dois grupos o impede. Em segundo lugar, essa divisão é cada vez mais fluida e pode mudar. As próprias «nações-braçais» estão a desenvolver estratégias de massa cinzenta, dando origem à criação de outros «países-braçais» dependentes. Veja o caso da Coreia do Sul. Por outro lado, nenhuma das «nações-braçais» tem um só «cérebro» de que é dependente, o que faz com que os «países-cérebro» compitam entre si, e isso traz vantagens para os dependentes. Veja como a China - o maior «país-braçal» da actualidade - é exímia na arte de arrancar concessões aos EUA, Alemanha e Japão.

Chega mesmo a falar de uma «parceria» entre os dois tipos de nações. Não será ir longe demais?

R.R. - Não acho. Este relacionamento entre os que concebem e os que produzem não envolve um novo imperialismo dos do Norte sobre o Sul.

Mas será que as grande potências poderão «sublimar» a sua pulsão pelo território?

R.R. - A meu ver, historicamente, os impérios territoriais floresceram quando a terra era o factor de produção mais importante. Perderam sentido quando o ganho territorial deixou de poder ser traduzido em poder militar e força económica. Essas pulsões territoriais poderão persistir em regiões como o Cáucaso ou o Médio Oriente, onde a terra é ainda o factor dominante.

Poderão a escassez da água e de petróleo e a disputa pelas reservas de gás natural (ao que tudo indica a energia ascendente no actual ciclo de Kondratyev) provocar essas tais «pulsões» pelo território?

R.R. - Teoricamente, sim. Se isso acontecer será, de facto, um cenário muito pessimista. Mas sempre se encontraram substitutos ou novas reservas. Isso já aconteceu nos anos de 1840 quando o óleo de baleia se tornou escasso e, no nosso século, depois da 2ª Guerra Mundial quando os limites do fornecimento do petróleo foram prognosticados. A Ciência e Tecnologia sempre demonstraram a sua superioridade em arranjar substitutos em relação à escassez aparente.

E qual será o futuro do que designa pelo «Quarto Mundo» que nem para «países-braçais» tem interesse?

R.R. - De facto, não entrarão na economia mundial, enquanto as guerras civis endémicas não chegarem ao fim. Mas até estes países estão conscientes dos custos de oportunidade acarretados pela militarização e pela guerra. No futuro, com governos estáveis, farão a transição para o tipo de «países-braçais».

EUROPA: UM BOM BANCO DE ENSAIOS
A Europa é um bom exemplo em dois sentidos. Para Richard Rosecrance é uma região onde se podem encontrar pequenos países modelo do que é o 'Estado Virtual' e a União Europeia é o «clube» de topo num novo tipo de sistema interdependente.

No seu livro fala imenso da Europa como terreno também muito fértil para o despontar de 'Estados Virtuais'. Que exemplos tem em mente?

RICHARD ROSECRANCE - Casos de pequenos países como a Suíça, Holanda e Luxemburgo, e cada vez mais o Reino Unido e a Escandinávia. A Suíça é a «nação virtual» líder na Europa. A Holanda produz a maioria dos seus bens fora. A Inglaterra tem um Investimento Directo Estrangeiro tão amplo como os Estados Unidos (pelo menos, para dados de 1994, quando analisei a questão).

Um dos exemplos que em Portugal é muito citado é o da Irlanda. O que é que poderemos aprender com ele?

R.R. - A meu ver quer Portugal quer a Irlanda não estão muito longe do modelo. São pequenos países que prosseguem uma estratégia bicéfala, quer «braçal» quer de massa cinzenta. No vosso caso, continuam ainda a ganhar vantagens em termos de país parcialmente «braçal». Mas, à medida que os custos e os salários aumentem, tentarão evoluir para a área dos serviços de alto valor acrescentado. Veja o caso de Israel. Era um produtor agrícola de nicho. Depois, com apoio externo, tornou-se num fabricante militar forte. Agora, está a usar as suas competências militares e analíticas para se transformar numa poderosa «fábrica» de software e transformar-se na única «nação-cérebro» do Médio Oriente.

Manuel Castells, da Universidade da Califórnia em Berkeley, na sua trilogia sobre a nova sociedade da informação, fala da União Europeia como um novo tipo de Estado que ele designa de «Estado em rede», que coloca como o exemplo institucional mais avançado para o século XXI?

R.R. - Creio que os países cada vez mais criarão laços de interdependência em rede como os países da União Europeia fizeram. Essas redes criam 'standards' de comportamento, como no caso da adesão à moeda única. É curioso notar que, por exemplo, a China está a tentar aplicar tais «standards» na sua adesão à Organização Mundial do Comércio. Neste sentido, a União Europeia é o clube de topo neste novo sistema. Outros clubes se estão a formar, mas a novidade é que se cruzam uns aos outros, não são exclusivistas. Nos anos 30, os clubes económicos regionais e funcionais não se cruzavam e os conflitos eram inevitáveis.

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