(Começou) a revolta dos accionistas
no rescaldo do «crash» de 2000

A manipulação dos dados contabilísticos tornou-se uma «arte» durante
a euforia dos IPO (entradas em bolsa) e pode continuar no período de refluxo actual. Agora os accionistas «populares» ameaçam reagir e pedir contas pelos truques que os prejudicaram - os administradores e os «brokers» estão sob fogo cerrado, e nalguns casos poderão acabar em tribunal. Um artigo polémico e oportuno na revista Harvard Business Review

Jorge Nascimento Rodrigues entrevista David Young

Artigo na Harvard Business Review (July/August 2001 - vol 79, n 7)
Site de David Young

Os 6 pecados mortais
  • Engordar a facturação
  • Manipular custos futuros para provisões
  • Evaporar custos e manipular o imobilizado
  • Abusar do uso de derivados financeiros
  • Desnatar a empresa
  • Manipular as comparações internacionais

  • Esteja de olho nestes
  • «Bluffs» bolsistas (spin-offs gerados para IPOs)
  • Empresas com crescimento rápido nos últimos anos entrando
    agora numa fase de abrandamento
  • Sobreviventes das «dot-com»
  • Empresas com modelos de negócio ambíguos
  • Empresas com estruturas de grupo e financeiras complexas
  • Empresas com falta de mecanismos de controlo ou com
    máquinas de propaganda bem oleadas
  • As primeiras notícias quase que passaram despercebidas da opinião pública, apesar do New York Times (NYT) de 22/07/2001 já ter contado uma primeira história em que nomes como a Morgan Stanley Dean Witter e a Merril Lynch surgem como «alvos» do que pode indiciar o começo da revolta dos accionistas (pequenos e minoritários) contra a delapidação de uma parte dos 5 biliões (milhões de milhões) de dólares que foram «derretidos» desde Abril de 2000 no «crash» bolsista norte-americano.

    Os dois casos citados pelo NYT - num artigo sugestivamente intitulado «One Investor. Two Brokers. An Account Runs Dry» - começaram a fazer correr tinta, provocaram o interesse dos advogados e poderão acabar em julgamentos e no mínimo péssima publicidade para as grandes e afamadas casas de «brokers», para os seus analistas «cinco estrelas» que avaliaram alegremente empresas durante a «bolha» e para as próprias administrações dessas empresas cotadas em bolsa, que viram as suas acções cairem da estratosfera para a lama.

    Num caso, a Merril Lynch desembolsou já 400 mil dólares a um lesado que teria sido aconselhado por um analista a verter 800 mil dólares numa dada empresa cotada, que viria a revelar-se um «bluff». Noutro caso, um ex-empregado da Microsoft acusa dois analistas da Morgan Stanley de lhe terem estragado a vida, deixando-o com 400 dólares em acções, um imposto de 40 mil dólares para pagar e várias centenas de milhares de dólares - a sua poupança de uma vida de trabalho - que se sumiram pelo cano.

    Para além do dramatismo destas situações pessoais dos pequenos accionistas que se multiplicaram com a euforia das «dot-com», a tal ponto que 50% das famílias norte-americanas empenharam os seus prémios, poupanças e reformas na bolsa, há toda uma investigação sobre como foi possível chegar a este ponto. Um dos aspectos que tem merecido a atenção dos académicos é o próprio contexto das práticas contabilísticas seguidas por uma boa parte das empresas cotadas durante este período e dos resultados, nalguns casos, lesivos para os accionistas e investidores.

    Truques na facturação

    No foco da análise está o que se convencionou designar de «contabilidade criativa» - algo que se pratica um pouco por todo o lado -, mas que, no caso das empresas cotadas em bolsa, começa a chocar com a transparência necessária e o interesse dos próprios accionistas. «Tais artes sempre desempenharam um papel nas empresas, mas o principal problema foi a tendência das dot-com em exagerarem - e nalguns casos de um modo grosseiro - os seus rendimentos. Esta tentação disparou porque os únicos números positivos que se podiam oferecer ao mercado eram os da facturação», começa por nos dizer David Young, 45 anos, um americano em França, professor no INSEAD na área de contabilidade e controlo há mais de 12 anos, que acaba de publicar com David Sherman um artigo sobre o tema na prestigiada revista Harvard Business Review (sob o título «Accounting Minefields», na edição de Julho-Agosto 2001. Young conta desenvolver a matéria e publicar um livro.

    A ideia de apresentar a facturação esperada «não é má em si», concorda David. «O crescimento da facturação e as expectativas é importante, é um bom indicador de lucratividade futura. O problema é que uma boa parte era pura ficção», adverte. Noutros casos chegou-se a considerar o valor total de um contrato, que se espalhava por vários anos, como rendimento imediato, «tática que a Securities Exchange Commission começou a ter debaixo de olho».

    Outro terreno de eleição são as provisões para custos futuros, umas vezes subavaliadas (escondendo-se o crédito mal parado no exemplo da Xerox narrado no Wall Street Journal) ou sobreavaliadas em função de custos de reestruturação astronómicos. Mais conhecidas do público são as práticas de transferência de preços dentro dos grupos. «Muitas delas são motivadas pelos impostos, e dificilmente mudarão. Mas certamente passaremos a ver mais coordenação entre as autoridades nacionais para cobrar os impostos, mas isso não afectará tais práticas que poderão prejudicar os accionistas numa dada empresa», explica-nos David Young.

    «Spin-offs» de drenagem

    Os arranjos dentro de uma rede são outro mecanismo legítimo, mas com margem para truques curiosos, muito difundidos durante a euforia das dot-com, como o de criar «spin-offs» por sócios da empresa-mãe, que depois se transformam em principais fornecedores ou clientes, drenando os rendimentos, sem que os accionistas vejam um centavo. Um dos casos analisado por Young reporta a uma dot-com de sucesso (há um ano atrás) belga, a Lernout & Hauspie Speech Products (traduções), cotada no Nasdaq (e entretanto «saneada» desta bolsa), que fazia drenar os rendimentos através de um grupo de «start-ups» sediadas em Singapura, que haviam sido criadas e mesmo financiadas com capital semente pela LHSP. «Os gestores desonestos usaram o expediente para expropriar activos ou lucros para benefício pessoal ou de outras empresas onde tinham interesses», acrescenta Young.

    O recurso a derivados (financeiros) foi outro expediente. «Em geral, creio que os accionistas ganharão com o uso de derivados pela gestão financeira das empresas. O problema é saber se são bem usados e se os accionistas estão ao corrente disso e do risco inerente», comenta o nosso interlocutor.

    Com o abrandamento da economia e a desconfiança em relação às bolsas, o uso dos truques poderá não diminuir. Pelo contrário, David Young crê que os accionistas deverão redobrar a atenção, pois as tentações em usar alguns dos expedientes conhecidos são muito grandes. «Penso que a avaliação correcta do rendimento continua a ser a principal preocupação. Os investidores e os accionistas têm de ter confiança nos números que são apresentados e acreditar que estão conformes aos princípios correntes de contabilidade», conclui, para salientar a necessidade de estar de olho em seis tipos de empresas.

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