Os «clusters» estão de volta

O professor de Harvard aproveitou o refluxo nas expectativas da Nova Economia para regressar com o seu modelo de vantagem competitiva local em confronto com as estratégias de organização virtual de uma cadeia
de valor geograficamente fragmentada. É a segunda vez que Michael Porter este ano (2001) sai em defesa das suas "damas".

Jorge Nascimento Rodrigues com Scott Stern

A crítica de Porter à Nova Economia | Site de Scott Stern

Michael Porter não perdeu um segundo para voltar à carga com o seu argumento da competitividade nacional e regional baseada em "clusters" económicos bem focalizados e claramente localizados, passada a euforia da organização "virtual" da cadeia de valor trazida pelas potencialidades da Web.

Desta vez (a segunda em um ano), aplicou o seu célebre modelo do "diamante" (contexto de concorrência, condições do lado da oferta, condições do lado da procura e indústrias de apoio) à inovação e demonstrou que ela se concentra "disproporcionadamente" em aglomerações geográficas bem visíveis em países como os Estados Unidos (todos nos estamos a recordar do Silicon Valley) e mais recentemente nos países escandinavos, em Israel, em Singapura ou Taiwan.

As decisões de localização têm de ser feitas estrategicamente

«A inovação é fortemente influenciada pela localização: o ambiente externo, o local, conta decisivamente. Os investimentos com este objectivo deverão fluir preferencialmente para estas localizações. As vantagens locais são vantagens competitivas que são difíceis de copiar por gente de fora», sublinha o professor da Harvard Business School em Innovation: Location Matters que acaba de publicar na revista de gestão do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que fica do outro lado do rio que separa Boston de Cambridge. «As decisões de localização devem ser feitas estrategicamente, reconhecendo que tende a haver apenas um punhado de centros de inovação para cada indústria», acrescenta.

Nesse artigo que publicou na edição do Verão 2001 (Summer 2001) da Sloan Management Review com Scott Stern, um seu discípulo no MIT, defende que o principal critério de investimento num dado país deverá pautar-se pela avaliação da geografia económica, das regiões "relevantes" onde existam infra-estruturas de inovação e uma dinâmica de "clusters" locais. Fazer este mapeamento geo-estratégico é uma das "ferramentas" fundamentais para os decisores e gestores, aconselha um dos mais conhecidos professores da Harvard Business School.

Scott Stern, que trabalha também no National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos, responde aos críticos numa entrevista em que salienta que «irónica e paradoxalmente, são as vantagens locais que se revelarão sustentáveis, já que ideias, tecnologias e processos que possam ser acedidos à distância, organizados virtualmente, não poderão ser fundamento de vantagem, pois acabarão por estar largamente disponíveis».


Apesar do vosso modelo, a maioria das decisões de investimento pensam a localização em função de custos baixos e apoios e subsídios de autoridades locais, regionais ou supraregionais. O vosso argumento não é puramente teórico?

SCOTT STERN - Uma localização pode ser considerada favorável por outras razões - como essas que alega - mas poderá ser desfavorável em termos de inovação. O nosso ponto de vista é que a decisão dos gestores deve ser feita estrategicamente, particularmente em matéria de Investigação & Desenvolvimento. Essas escolhas são importantes para empresas que aspirem a estratégias globais. É fundamental estabelecer uma presença em países ou regiões onde os ambientes de inovação sejam os mais favoráveis. Se se pensa em dispersar esses centros, é importante que uma dada localização seja a base central para cada unidade de negócio ou linha de produto. De outro modo, a dispersão criará problemas.

Num mundo globalizado e com um contexto de uso cada vez mais generalizado da Web, que permite baixos custos de interacção e organização, o "cluster" não pode ser gerido virtualmente, através de diversas localizações?

S.S. - A nosso ver, os custos reduzidos de comunicação e a abertura das fronteiras, ainda reforçam mais a importância da localização. A vantagem competitiva a longo prazo reside em evitar a imitação pelos concorrentes. E, ironicamente, o que pode parecer um paradoxo, as vantagens baseadas na localização revelar-se-ão mais sustentáveis, já que ideias, tecnologias e processos que possam ser acedidos à distância, organizados virtualmente, não poderão ser fundamento de vantagem, pois acabarão por estar largamente disponíveis.

Quais são os principais ingredientes que afectam a inovação num dado país?

S.S. - Os estudos que temos feito revelam que a inovação é influenciada pelo número de cientistas e tecnólogos na força de trabalho, pelo nível agregado de gastos em I&D, pelo grau de protecção da propriedade intelectual, pela abertura à concorrência internacional e pela intensidade da despesa na educação superior. A produtividade da obtenção de patentes - um dos indicadores que avaliámos - é fortemente determinada pelo nível de I&D financiada pelas empresas, desempenhada pelas universidades e claramente especializada num conjunto de tecnologias.

Isso significa que o sistema local universitário pode ser uma "ferramenta" importante do ambiente de inovação em determinadas regiões e locais?

S.S. - Nós falamos de "capturar" as vantagens locais através de uma boa exploração das "ligações", incluindo às Universidades. Mas é necessário mais do que isso - investir proactivamente nos pontos fortes do ambiente local implica uma participação muito activa nas associações empresariais, formação constante do pessoal qualificado e atenção aos consumidores locais mais sofisticados. Nas relações com o potencial de inovação pode haver várias abordagens. Por exemplo, aqui na Route 128, à volta de Boston, apenas um punhado tem ligações directas com os meios académicos da investigação e com os centros de pesquisa do MIT. A maioria recruta na oferta de bons engenheiros e de gente que sai das outras empresas nos "clusters" das tecnologias de informação e das ciências da vida que aqui são fortes.

Como avalia o papel dos parques tecnológicos no desenvolvimento desse ambiente favorável à inovação?

S.S. - Podem ser úteis numa estratégia global, mas não são a solução milagrosa. Podem servir, apenas, para deslocalizações de curto prazo, o que não favorecerá o desenvolvimento de "clusters".

O MONOPÓLIO DE UM PUNHADO
Os estudos desenvolvidos por Michael Porter e Scott Stern para o Council on Competitiveness sugerem que um grupo de países da OCDE continua a dominar a capacidade de inovação, se medida por um rácio de patentes por milhão de habitantes. Um bloco de três países lidera, com o Japão, Estados Unidos e Suíça, bem destacados (num escalão entre 150 e 200 patentes por milhão de habitantes), seguidos por um pequeno grupo de países, onde predominam os escandinavos (num escalão próximo das 100 patentes por milhão de habitantes). A este núcleo duro, há que acrescentar o desempenho de países como Israel, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, acrescenta o estudo referido no artigo publicado na Sloan Management Review de Verão 2001.
Contudo, os críticos alegam que essa avaliação tem os seus pés de barro. O caso do Japão, o líder mundial em patentes, é óbvio - encontra-se em crise há anos. Scott Stern contra-argumenta que o problema do Japão é distinto: «Durante muitos anos a política monetária foi errada e o sector de serviços continua a ter problemas estruturais em virtude de não estar aberto à concorrência mundial. A alta capacidade de inovação nacional nipónica será, em última análise, um dos ingredientes da mudança estrutural requerida».
O exemplo da Finlândia, citado pelo estudo, é relativizado em virtude de uma boa dose de sorte e de estar muito centrado em torno da Nokia, alegam os críticos. Scott responde: «A Nokia não emergiu do vazio, mas pelo contrário reflectiu um conjunto de políticas pró-activas de longo prazo por parte do governo finlandês desde meados dos anos 70. E dada a pequenez da economia finlandesa nada mais natural do que concentrar esforços num dado 'cluster', ainda que isso não deva significar apenas à volta da Nokia».
Finalmente, sobre Israel os críticos alegam que a dinâmica de inovação está muito colada ao esforço de guerra, aos meios financeiros judeus nos Estados Unidos e aos IPO feitos no Nasdaq no período da "bolha". O nosso interlocutor contesta: «O motor central da inovação nesse país é o 'pool' de cientistas e engenheiros e as políticas governamentais encorajando inovação de nível mundial e favoráveis aos 'clusters' em que apostaram. Israel foi capaz de aproveitar oportunidades, como as conexões aos EUA e a 'bolha' do Nasdaq, precisamente porque tinha desenvolvido uma sólida base nacional de inovação».
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