O pecado original da Informática

A indústria da computação colocou a tecnologia em primeiro lugar e o cliente depois. Esse foi o seu pecado original. Os tecnólogos encurralaram-nos num mundo de alta tecnologia criado para sua própria auto-satisfação e empurraram-nos para uma dinâmica de vida 'paranóica'. Mas o que era incontornável há 30 ou mesmo 20 anos atrás é hoje intolerável. A ideologia 'digital' emergente não faz mais do que amplificar hoje a desumanidade do taylorismo. Este é o grito de revolta de Donald Norman, um histórico dos tempos áureos do Silicon Valley, que acaba de lançar um livro polémico, sugestivamente intitulado 'O Computador Invisível'.

Jorge Nascimento Rodrigues esteve à fala com este pensador de 63 anos, considerado
o «pai» da Era Pós-PC

 As obras de referência de Don Norman | A mais recente aventura de Norman
A página pessoal de Don Norman 
Capítulos do O Computador Invisível disponíveis na Web
Entrevista Exclusiva para 'Alquimistas do Digital' (Uma anti-ideologia digital
quer revolucionar a nossa galáxia digital)

Estamos prisioneiros num mundo criado por tecnólogos para tecnólogos e a economia digital emergente está a amplificar este pecado original muito óbvio na história da indústria da computação. Este é o alarme lançado por um entusiasta da tecnologia, um histórico dos tempos áureos da informática no Silicon Valley nos idos anos de 70 e 80, que criou uma nova escola de design para o desenvolvimento de produtos centrada numa abordagem 'humanista' e que é hoje uma referência mundial em ciências cognitivas.

Don Norman em traje analógicoJá o alcunharam de «pai» do Movimento Pós-PC. A sua proposta é tirar o PC (computador pessoal, obviamente) de cena e dar-lhe o destino muito nobre que se deu, outrora, ao motor eléctrico, que «passou a estar por detrás de tudo quanto mexeu no Capitalismo Industrial, mas não à frente do nosso nariz», refere-nos Donald Norman, ao resumir em poucas palavras o sumo do seu último livro sugestivamente intitulado O Computador Invisível (compra do livro), e que tem como pós-título esta explicação: «Porque razão excelentes produtos podem falhar, porque é que o PC é tão complexo e porque é que utensílios informacionais são a resposta».

Essa máquinazinha que hoje em dia está omnipresente em toda a nossa vida profissional, e cada vez mais pessoal, deveria passar para detrás da cortina, sair de palco, e dar lugar ao protagonismo de uma galáxia de utensílios, domésticos, pessoais e profissionais, dirigidos a tarefas específicas, mas conectados em rede. «Talvez um 'server' em casa que nunca se vê mas que distribui a computação e gere as conexões por diferentes aparelhos com que lidamos no dia-a-dia, sejam electrodomésticos, sejam de uso pessoal ou profissional. Esta é a promessa da ubiquidade da computação que nos trouxe a massificação da Internet e da Web», sublinha-nos este ideólogo anti-tecnocrata que tem como mote para o século XXI esta frase logo à cabeça da sua página pessoal na Web (em www.jnd.org): 'As Pessoas propõem, as Ciências estudam e a Tecnologia conforma-se'.

O Erro de Edison

O fonógrafo de Edison não teve culpa do erro do seu criadorPara Norman, o «caminho errado» tomado pela Sociedade da Informação e pela emergente Economia Digital vem do início do discurso sobre a 'alta tecnologia'. O erro original teria sido de Thomas Alva Edison. Não por ter inventado em 1877 o fonógrafo, entre outras coisas. Mas por ter alimentado uma cultura centrada na tecnologia e na arrogância dos tecnólogos.

«Ele foi o verdadeiro inventor da 'alta tecnologia'. Foi o primeiro a fazer convergir o processamento da informação com as comunicações e o entretenimento. Mas ele padecia de um mal - julgava saber melhor do que os consumidores o que estes queriam. Criou esta 'escola' centrada na tecnologia e de costas viradas para o cliente», critica o nosso interlocutor. «E o problema é que nunca mais nos livrámos dela. Mais tarde, a própria indústria da informática empurrou-nos para esta armadilha em que hoje estamos. A Sociedade da Informação está a enterrar-nos debaixo de um exagero de informação, de um galope constante de actualizações centradas na tecnologia e para satisfazer uma minoria de entendidos, está a forçar-nos a agir mais como máquinas, conduzindo-nos a muito erro e disparate», lamenta, para soltar uma saudável gargalhada: «Diga-me lá: será que queremos ser todos paranóicos? Não será que essa corrida do que hoje até designam por 'tempo internet' não é um passaporte para a cegueira estratégica?».

O que até poderia ser tolerável no início, deixou de o ser desde que a tecnologia da informação se massificou e ainda mais com a emergência do tal 'tempo Internet' que mais do que tecnologia é «interacção social humana». Explica-se Norman: «No início, a informática era orientada pelas necessidades dos profissionais da área e dos consumidores tecnicamente muito sofisticados. Mas quando a tecnologia amadureceu tudo mudou de figura. Mas a indústria das tecnologias de informação respondeu a isto fazendo mais do mesmo, continuando com o mesmo processo de desenvolvimento de produtos: primeiro o engenheiro, no fim o cliente. Salvo raras excepções».

O Erro de Negroponte

Negroponte: Being Rural, o seu próximo moteA doença tecnocrática agravou-se com o digitalismo. Esta ideologia lançou o primado do «ser digital», para recordar o título da célebre obra de Nicholas Negroponte, o fundador do Media Lab no Massachusetts Institute of Technology. Normam não se refere directamente ao erro de Negroponte, mas comenta: «Nós somos seres analógicos apanhados nesta armadilha do mundo digital, e o pior disto tudo é que fomos nós que nos enfiámos lá».

E, mais cáustico, refere-nos: «O digital é para as máquinas. Deixem-no ficar aí. As pessoas são biológicas, são analógicas. As pessoas não são máquinas, nem têm que as imitar. Escravidão a esses valores, nunca mais! Concentremo-nos não em ser digitais, mas em construir uma interacção mais humana com as máquinas e em potenciar totalmente a interacção humana que nos é permitida pela Internet».

Uma entrevista com Negroponte na altura do lançamento de Being Digital

Num desabafo humanista reclama: «A nova revolução não deve ser primordialmente económica. Muito menos deve ser confundida com computadores. Do que se trata, é, de facto, de uma revolução na interacção social entre humanos. O digital é óptimo para as máquinas de hoje, mas quero dizer-lhe isto que pode parecer bizarro: o analógico - que quer dizer análogo com o real - será ainda melhor para as máquinas de amanhã que deverão ser análogas às necessidades humanas do mundo real».

E em epitáfio ao digitalismo, conclui: «O ser digital é o taylorismo dos dias de hoje. Taylor continua a influenciar a mudança tecnológica. Ora, a Internet e a Web são contra essa moléstia. O que elas fazem é encorajar o pensamento e o primado do humano».

Principais obras de referência de Donald Norman

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