Naomi Klein, a ideóloga acidental da «anti-globalização» apresenta
ao público português o seu livro «No Logo»

«A política pepsodent ruíu»

Jorge Nascimento Rodrigues com Naomi Klein do outro lado da linha em Toronto

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Site do No Logo | Enciclopédia dos movimentos alternativos de base na Web
Compra do Livro em «paperback» acabado de publicar

Capa do livro No Logo Deixou de se dar o benefício da dúvida. As pessoas perderam a fé na ideia de que as empresas e os políticos poderão cuidar do nosso bem-estar. Deixaram de acreditar. Estão fartas - sobretudo todas aquelas que estão completamente fora da «fotografia» do modelo triunfante. São palavras duras ditas com uma voz doce, cortada, aqui e ali, por um riso discreto numa cara bonita.

A canadiana, hoje com 30 anos, foi acidentalmente catapultada para a ribalta com o seu jornalismo de intervenção e particularmente com o livro de mais de 500 páginas contra a metáfora dos logotipos das marcas - No Logo: taking aim at the brand bullies (compra do livro), publicado pela Knopf, no Canadá, umas semanas depois das manifestações de Seattle em Novembro de 1999. Uma coincidência editorial face a um evento que «surpreendeu» toda a gente.

Os alvos de No Logo
  • As multinacionais e a sua cultura das marcas
  • As grandes organizações da regulação (Organização Mundial do Comércio, Fundo Monetário Internacional, Cimeiras do G7 e G8, etc)
  • A «terceira via» e todo o tipo de política-marketing
  • Paradoxalmente, é tímida, não gosta de multidões ou de gritar palavras de ordem. Detesta ser encarada como «propagandista», mas é tida como a ideóloga de um movimento muito diversificado e fragmentado, que elegeu como alvos de estimação as multinacionais, mesmo as da «nova vaga», as grandes organizações da regulação capitalista (FMI, OMC, G7, G8) e os políticos do sorriso pepsodent. «Isto é, também, uma reacção à 'terceira via', ao triunfo do estilo sobre a substância. Os políticos que entraram no jogo do marketing percebem, agora, que as marcas são muito voláteis», sublinha, com um sorriso malicioso, nesta entrevista exclusiva, a partir de Toronto.

    Naomi está longe do perfil austero de uma Rosa Luxemburgo - a polaca que andou na Revolução Russa de 1905, foi líder dos 'spartakistas' na Alemanha imperial e seria assassinada em 1919 -, apesar dos movimentos de massas das primeiras décadas do século a seduzirem pela sua diversidade e amplidão.

    Está, ainda, mais longe do estilo de um 'Dany, le rouge' (o líder estudantil francês Daniel Coh-Bendit, hoje deputado verde) à frente dos "enragés" de Maio de 1968. «Muitos dessa geração são hoje capitalistas 'fixes'. Mas não se muda um sistema por não se usar gravata», comenta no meio de outro riso.

    Naomi Klein Quem é, afinal, Naomi Klein? Uma jornalista? Uma ideóloga? Uma radical do século XXI?

    NAOMI KLEIN - Jornalista - primeiro do que tudo. Mas não do estilo repórter. Eu tenho e exprimo um ponto de vista. Talvez prefira a 'etiqueta' de jornalista-activista. Desde 1995 que me apercebi que algo estava a emergir e acompanhei o desenvolvimento desses movimentos.

    E porquê o título «No Logo»?

    N.K. - Soa bem! Gosto do termo. E as pessoas gostam de o repetir - quando falei com os meus amigos, todos foram unânimes. É, claro, que há um lado negativo na expressão. Pode passar a mensagem que quero banir os logotipos. É claro que se se ler o livro, vê-se que o que eu pretendo, a partir de factos, é capturar o espírito deste novo activismo de massas.

    Juntar as peças do puzzle num livro de 500 páginas

    Muitos críticos chamam-lhe um novo Manifesto de final de século, em cima dos eventos de Seattle. Escreveu «No Logo» com esse fim político?

    N.K. - Não, não é um Manifesto, no sentido do que eu penso - de um apelo às barricadas, de um exercício político retórico. São quinhentas páginas de factos, justamente em oposição à retórica. O meu objectivo é dirigir-me à mente das pessoas - de gente que está preocupada, mas que não tem um quadro de pensamento. Procurei com o livro juntar as peças. E mostrar o actual activismo numa óptica positiva.

    E o facto de ter sido publicado umas semanas depois de Seattle ajudou a amplificar a mensagem?

    N.K. - O movimento estava aí. Ainda não estava no radar político, mas estava a crescer e a formar-se como um movimento genuinamente internacional. E em Seattle mostrou-se. É claro que foi uma surpresa para toda a gente a sua dimensão.

    O inimigo do movimento tem uma cara? São as multinacionais das marcas universais propagandeando um estilo de vida e um ideologia organizacional eficaz?

    N.K. - Não são as multinacionais encaradas individualmente. É o modelo económico que elas representam, que mede o progresso apenas através do «crescimento» e da lucratividade. É um sistema massivo de consumismo e mensagens através das marcas que está presente em todos os recantos da nossa vida do dia-a-dia. Que invadiu o espaço público e o pessoal.

    Mas isso não é a «velha» retórica contra o capitalismo só que com novo discurso?

    N.K. - Alguns acusam, de facto, que não é mais do que um neo-comunismo. É provável que haja quem pense neo-comunismo dentro do movimento. Não o nego. Mas o que vejo no movimento dos jovens activistas e nas novas coligações que se formam nos Estados Unidos e na Europa é um renovado interesse em soluções locais e diversificadas. Não é um modelo único que está na mente das pessoas, algo centralizado. Isso não funciona. O que está em emergência são novos modelos de democracia participativa, de desenvolvimento económico comunitário, como antídoto da globalização e da centralização capitalista.

    Não se muda o capitalismo por não usar gravata

    Os novos capitalistas da revolução da informação e das marcas-conceito desta segunda metade do século XX são diferentes da velha guarda do capitalismo industrial?

    N.K. - São e não são. Não são diferentes, no fundamental, obviamente. As regras são as mesmas. Mas, também, é verdade que a cultura do capitalismo mudou enormemente - Richard Branson, ou Jeff Bezos, ou Bill Gates são outro tipo de «estrelas». Têm um estilo diferente no campo espiritual, vestem-se de forma original. Trouxeram a cultura dos anos 60 para o capitalismo. Mas um sistema económico não se muda através da moda, por se deixar de usar gravata!

    Mas as «stock-options» não são um corte com a gestão anterior, no sentido da partilha da riqueza criada? Ou funcionaram apenas como a «cenoura» enquanto o Nasdaq esteve em ascensão?

    N.K. - Depende. Foram apresentadas como uma espécie de «socialismo cooperativo» nas empresas. E, no início, até criaram muitos milionários - como reza a história da Microsoft. Bill Gates foi um génio. Mas essas empresas depois tornaram-se muito estratificadas - 1/3 dos empregados são «temporários», e têm as mãos vazias. Só um segmento ganhou com as «stock-options». No caso de uma Wall-Mart, por exemplo, isso é mesmo financeiramente insignificante. E, depois, da «correcção» nas bolsas, revela-se como algo muito vulnerável, como pura propaganda - sobretudo em muitas «dot-com» não passa hoje de «papel» nas mãos de pessoas que ganham menos do que deviam.

    O triunfo das marcas como conceitos dirigidos à mente das pessoas é pura propaganda?

    N.K. - Depende. Não penso que a Nike faça propaganda quando fala de conceitos. Este tipo de empresas está a sair estrategicamente da área da produção. Pretende criar uma cultura - coloca o grosso do investimento nisso. O problema é o que está por detrás dos produtos que apresentam - a realidade da vida de quem os fabrica, seja o trabalho infantil ou sem condições algures no mundo ou os próprios novos «escravos da web». E, também, o espaço público que essas empresas ocupam cada vez mais com o seu marketing.

    O movimento actual não é vanguardismo geracional

    Mas, historicamente, com quem se parece este movimento? Com o radicalismo dos anos 60 na Europa, na América do Norte e na China?

    N.K. - Este novimento não é nada como dantes. Muito menos é comparável ao Maio de 68. Encontro, no entanto, mais paralelismo nos anos 20 e 30. Havia, então, um movimento mais largo, com diferentes pontos de vista. Era uma coligação diversificada e forte e não apenas uma vanguarda e uma geração.

    De qualquer modo não teme que daqui a 40 ou 50 anos, olhando em retrospectiva, se verifique que o movimento «anti-globalização» que hoje emerge foi também tão «ineficaz» na mudança do actual sistema capitalista, como o foram o leninismo, o anarco-sindicalismo ou o vanguardismo cultural do início do século, ou o esquerdismo dos anos 60 e 70? Quem mudou, de facto, o capitalismo industrial não foram as revoluções silênciosas do transístor, do «chip», do PC (computador pessoal) e da Web?

    N.K. - Não creio. É verdade que o movimento dos anos 60 foi «corrompido» - passado o período radical, essa geração pensou, depois, que podia modificar o capitalismo pelo estilo de vida. Hoje são capitalistas «fixes» - cultivam um estilo 'funky'. Mas, nos anos 20 e 30, não - houve enormes revoluções que abriram a porta à gente simples, as condições de trabalho mudaram radicalmente com a sindicalização, criou-se um sistema de segurança social e de saúde.

    Porque o sorriso de Al Gore perdeu

    Além dessa reacção aos capitalistas «fixes», o movimento ficou cansado da esquerda «suave»?

    N.K. - É verdade, é uma reacção à 'terçeira via' também. A dita terçeira via mostrou-se muito vulnerável. A ideia do triunfo do estilo sobre a substância, do domínio do marketing na política foi temporário. Se se entra na lógica das marcas, descobre-se que esse terreno é muito volátil, mutável, e fica-se sujeito ao sobe e desce da opinião pública. A política pepsodent ruíu. Isso começou a ser visível com Tony Blair e agora mais com o que aconteceu a Al Gore. As pessoas resolveram mudar de marca - e furaram, inclusive, a «regra» de que o incumbente em bom tempo económico deve permanecer. Foi a surpresa geral.

    E está ou não a cavar-se um fosso entre uma élite cosmopolita, de profissionais do saber, e em rede, e os outros?

    N.K. - O que chamam hoje de «fractura digital»? Creio que é mais uma das estratificações a que assistimos. Mais uma. O que acontece é que o caminho actual de globalização do capitalismo chuta cada vez mais gente para fora do novo paradigma económico. Isso provoca um sentimento de «libertação» - é-se livre para se rebelar, quando se está fora da fotografia. Veja o caso dos «zapatistas» de Chiapas e do seu movimento «Ya Basta!». O que eles vieram dizer é que se rebelavam contra o facto de terem sido completamente esquecidos, de estarem fora do modelo, como se não existissem! Vamos assistir seguramente ao crescimento deste tipo de rebeliões.

    Criar uma agenda e não uma ideologia unificante
    Trazer o espírito da Net para as ruas

    Mas será possível criar um projecto «unificador» de uma sociedade alternativa para um movimento tão diverso que agrupa desde os «hactivistas» («hackers» politicamente activos) aos novos radicais urbanos até ao camponês de Millau, em França, ao zapatista de Chiapas ou ao líder sindical da Zona Franca de produção «deslocalizada» das Filipinas?

    N.K. - O objectivo não é unificar dentro de uma ideia global. Não há nostalgia desse tipo de movimentos do passado. O que acontece hoje é criar-se uma agenda que movimente gente mesmo que seja diferente. A ideia é ter controlo a nível local - democracia local, desenvolvimento local. Trata-se de descentralização coordenada. É um movimento do tipo da Internet - direi mesmo é trazer o espírito da Internet para a rua. É claro que isto desafia também a visão social-democrata. As pessoas perderam a fé na ideia de que os políticos e as empresas - mesmo as da nova vaga - poderão cuidar do nosso bem-estar. Deixaram, pura e simplesmente, de acreditar. Deixaram de dar o benefício da dúvida.

    Para fechar, o que é que pensa da revolução da genómica que se começa a desenrolar perante os nossos olhos?

    N.K. - Não é a minha área de estudo. Mas penso que muito do activismo que começa a nascer contra aspectos da revolução genética é o medo da privatização da vida humana. Se essa lógica vai para a frente, as pessoas pensam que amanhã não haverá escapatória à «empresarialização» da nossa vida. É natural que se rebelem.

    PERFIL
    A jornalista-activista
    Os liberais mais puritanos acusam-na de arauto de um «neo-colectivismo milenar». O epíteto foi lançado por um distinto gentleman inglês nas muito selectas conferências de Wincott, promovidas pelo Institute of Economic Affairs, no Reino Unido.
    Mas os protagonistas deste movimento ainda sem nome certo nem ideologia à vista respondem que são verdadeiramente «libertários», que trazem para as ruas o espírito da Internet.
    Na sua diversidade geográfica, social e geracional cabe tanto o camponês francês em guerra contra a McDonald's, como o sub-comandante Marcos de Chiapas, o «hacker» politicamente anarquista e activo na Web, os jovens radicais do ReclaimtheStreets.net, os artistas-guerrilheiros (que sabotam os logos das marcas), os ecologistas independentes da GreenNet e os cidadãos bem intencionados que querem o perdão da dívida dos países mais pobres (movimento DroptheDebt.org. Todos estão nas mesmas listas de «e-mail».
    O ponto de encontro desta liturgia são as cimeiras - o mundo foi apanhado de surpresa em Seattle, na reunião de 1999 da Organização Mundial do Comércio, depois - já sem surpresa - em Praga, este ano, e provavelmente no G8 em Genebra em Julho de 2001, se não mesmo antes. Há uma agenda na Web actualizada permanentemente.
    A escrever e explicar esta rebelião está Naomi Klein, desde 1995. A jovem canadiana teve um percurso que explica parte desta sua actual posição de observadora privilegiada. Ela é uma das filhas da revolta contra o marketing e o consumismo que dominou os adolescentes dos anos 80.
    Naomi nasceu em Montréal em 1970 e enquanto adolescente transformou-se - nas suas próprias palavras - «num rato de centros comerciais», atraída pelos logos das marcas. O fascínio pelo logo levou-a inclusive a trabalhar aos sábados numa loja de roupa da Esprit (ela adorava a marca).
    Esta geração nasceu literalmente debaixo do que Naomi chama de «microscópio do marketing». O enjoo só poderia provocar uma revolta contra o que ela alcunha hoje de «Big Brother branding».
    Aos 19 anos deu-se a viragem. O massacre na Universidade de Montréal (que ela frequentava) por um louco «machista» que matou 14 jovens acusando-as de «feministas» despertou em Naomi o gostinho pelo activismo. Ao mesmo tempo, toma consciência da paralisia da esquerda tradicional e começou a desconfiar do «chique» que era as multinacionais abraçarem causas nobres (como o anti-racismo pela muito polémica campanha da Benetton).
    Com o jornalismo veio-lhe a possibilidade de ser ela a usar o «microscópio» da investigação da realidade e percorreu o mundo coleccionando factos do nascimento de um movimento «de base». Naomi é filha da geração politicamente envolvida dos anos 60 e 70 - os pais atravesssaram a fronteira para o Canadá em protesto contra a Guerra do Vietname. E nos genes há a herança de um avô que foi um dos organizadores da primeira greve na Disney.
    Naomi Klein escreveu no Toronto Life, na revista Ms, em The Village Voice e na Elm Street Magazine, e agora tem uma coluna no The Globe and Mail, de Toronto.
    Para 2001 prepara uma deslocação a vários pontos da Europa. O seu best-seller No Logo acaba de ter uma edição mais barata em «paperback» (compra do livro).
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