John Naisbitt revela a nova Megatendência - a Ásia (1996)

O futurólogo John Naisbitt acaba de lançar mais um livro sobre megatendências, a sua especialidade literária, desde que, em 1984, publicou o célebre best-seller "Megatrends". A "buzzword" conquistou o meio académico e empresarial e Naisbitt tem procurado alimentar o filão com novos livros sobre o tema. Por vezes, associou aos lançamentos a própria mulher, Patricia Aburdene, como o prova a publicação de "Megatrends for Women".

Agora lançou "Megatrends Asia" para honrar este continente, que está a emergir como o número um do próximo século. Precisamente, durante o último ano e meio, Naisbitt esteve sediado em Kuala Lampur, na Malásia, e, a partir daí, viajou por toda a região, sentindo o incrível dinamismo de várias gerações de empresários e da vaga de massa cinzenta que retornou do Ocidente a casa, trazendo na bagagem o que de mais actual há em conceitos de gestão e tecnologias. O que mais o impressionou foram os quase 60 milhões de chineses da diáspora, a carta mais poderosa no xadrez da Ásia. E, entre estes, as mulheres, a tal ponto que uma delas foi uma das suas musas inspiradoras. Mas, sejam de etnia chinesa, ou sejam japoneses, sul-coreanos, malaios, ou outros, não são estrangeirados sem alma oriental, pelo contrário são "asiatistas" profundos, homens que localizaram na região o seu voluntarismo e vontade de vencer. Eles são o segredo da ascensão da Ásia, como nos explicou pessoalmente o autor.

John Naisbitt concedeu, em exclusivo para a EXECUTIVE DIGEST, esta entrevista, a primeira que deu depois de um périplo asiático de apresentação do seu novo livro, que, confessa, o deixou exausto. Tão exausto que, por ora ainda, não pensou noutro tema para um próximo.

Com 66 anos, continua a manter o seu bom humor. Ao longo da entrevista, foram muitas as vezes que sublinhou algumas conclusões com uma gargalhada bem sonora. Quando não está a galgar milhas pelo mundo, particularmente pelo Oriente, vive em Cambridge e no Colorado, e dirige, em Washington, a consultora Megatrends Limited e a The Global Network, que publica a "John Naisbitt´s Trends Letter".


Pensa que o conceito da "tríade" - a divisão económica do mundo pelos Estados Unidos, a União Europeia e o Japão - mantém a sua plena validade? Ou pensa, por exemplo, que o declínio do Japão e a ascensão da China e de outras economias dinâmicas, como as de Singapura, são o dobrar dos sinos pelo domínio triádico?

JOHN NAISBITT - Não penso a "tríade" como um conceito. Mas como a existência óbvia de três focos no mundo, neste momento particular. Analisando cada um deles, ocorre-me dizer o seguinte: a União Europeia não vai ser um dos maiores jogadores na economia global. Pelo contrário, julgo que os Estados Unidos estão a sair-se muito bem. Quanto ao Japão, penso que está a percorrer o lado descendente da curva e que terá um longo caminho a percorrer. Voltando à Europa, penso que são necessárias muitas reformas económicas. E, como em França ficou demonstrado, isso é muito complicado de negociar. Embora não considere a Europa como um dos jogadores principais em termos de crescimento económico, é claro que continuará a ter a sua importância. Mas não de uma forma tão intensa, como a América do Norte até à do Sul. Claramente, como escrevo neste último livro, é, no entanto, a Ásia que está a comportar-se especialmente bem e representará o principal papel. Ela está, realmente, a conduzir a economia mundial, neste momento. Estamos no lumiar de uma "renaissance" na Ásia.

Mas, dentro da sua ideia da emergência da Ásia, quem serão os grandes protagonistas, se o Japão ainda tem um longo caminho a percorrer e se a China deve o sucesso aos nativos que regressaram ao seu país, como escreve no seu livro?

J.N. - A meu ver, efectivamente, o Japão possui uma importância relativa para a emergência da Ásia. E a cartada chinesa não é, de facto, a China propriamente dita. Mas sim, os chineses que se encontram na diáspora, fora da China. A importância da China reside, fundamentalmente, nos seus "entrepreneurs", que constituem uma parte dos cerca de 60 milhões de chineses da diáspora, que deixaram o Continente ao longo das décadas. Criaram um "network" (rede de contactos) com uma força económica incrível em toda a Ásia e agora têm os olhos e o dinheiro postos na China. Aliás, escrevi claramente neste último livro que, essa "rede", será a força dominante do futuro da Ásia. Pequenos países, como Singapura, como referiu atrás, são muito pequenos, mas enquadram-se nesse "network".

Então, com todos esses novos protagonistas, que não cabem nessa fotografia que era a "tríade", não estaremos a caminhar para uma nova realidade?

J.N. - Não me parece, efectivamente, que estejamos a mover-nos para um mundo de "tríades". Acho que estamos a caminhar em direcção a uma economia, que constituirá, no futuro, a longo prazo, um único mercado livre.

E nesse quadro, como vê a emergência do que Kenichi Ohmae refere no seu livro, "The End of Nation State", como as regiões-Estado?

J.N. - A diáspora chinesa está a dominar toda a economia asiática, com excepção do Japão, da Coreia do Sul e da Índia. Para além dela, há a referir também a diáspora indiana, de cerca de 10 milhões de não residentes, que geram uma economia que é maior do que a própria Índia. Temos, por isso, de pensar cada vez menos em Estados-Nação. Deste modo, é cada vez mais complicado saber, por exemplo, qual o PNB de cada país. Não é possível avaliar com exactidão qual é o seu PNB, pois são inúmeras as relações económicas que possui com o resto do mundo. Hoje, os métodos estatísticos usados para calcular o PNB de um país estão perfeitamente ultrapassados. Como Kenichi Ohmae diz: "Os Estados-Nação estão, de facto, em declínio."

Mas, então, que tipo de economia global, única, é essa?

J.N. - As fronteiras, no futuro, não vão significar grande coisa, porque o mundo será dominado por relações jurídicas pessoa a pessoa. Os governos não criam valor acrescentado. São as pessoas e as empresas que o criam. E, assim, a importância actual dos Estados-Nação vai deixar de fazer sentido.

E como analisa a actual criação de blocos regionais de comércio?

J.N. - A meu ver, são blocos na direcção de uma única economia. São blocos de passagem. Os próprios "triângulos" de crescimento são outro patamar no sentido de uma total integração da economia global. Estes são mecanismos que visam a total integração da economia global.

Falou atrás do renascimento da Ásia. Qual é a sua avaliação do crescimento do "asiatismo" como doutrina? Pode comentar-nos o recente livro, "A Voz da Ásia", de Mahathir Mohamad, o actual primeiro-ministro da Malásia, e do japonês Shintaro Ishihara que escreveu com Akio Morita o também polémico "O Japão que Pode Dizer Não"...

J.N. - Ainda não tive oportunidade de ler esse livro. Estou certo, no entanto, que cada vez se vai falar mais da "asiatização". Mas, estou a ver esse problema de um outro ângulo: o de um contraponto aos excessos do Estado-providência. Embora seja muito difícil de demonstrar, concordo com os asiáticos quando nos dizem que o Estado-providência queimou as nossas hipóteses de competitividade. A Ásia não tem um tal tipo de Estado, nem vai tê-lo. Isso terá implicações em termos de competitividade bastante duras, o que irá trazer repercussões em termos económicos, culturais e políticos. O que acontecer na Ásia e no Oriente, em geral, irá influenciar de sobremaneira o Ocidente e o resto do mundo. E estamos, apenas, no começo.

No seu livro critica o polémico Paul Krugman, quando este fala do "milagre asiático" como um mito. Afinal, o que se passou com os "tigres asiáticos" foi um milagre económico, como diz o Banco Mundial, ou é apenas um mito, como o da economia da ex-União Soviética?

J.N. - O Ocidente pensa na Ásia como um milagre. Mas as pessoas que trabalham arduamente nesse continente não o reconhecem como um milagre, mas apenas como algo que o trabalho árduo produz. Agora, outros ocidentais como o Krugman dizem que isso é um mito. Para mim, sinceramente, tudo isso não passa de uma charada. Nem é um milagre, nem um mito. Krugman afirma que todo o crescimento asiático é devido aos "inputs" e compara Singapura com a ex-União Soviética, o que é um total absurdo. Krugman esquece a vitalidade empresarial da Ásia, que constitui um factor crucial do seu sucesso. Esquece também a entrada em cena da massa cinzenta, que se traduz pela inversão da fuga dos cérebros, pelo regresso dos inúmeros quadros asiáticos, e ainda pela quantidade de ocidentais que se estão a instalar no continente. É na Ásia que hoje estão as oportunidades. Krugman não vê nisso criatividade, mas é notória a sua energia e mentalidade empresarial, bem como as implicações psicológicas positivas que isso tem nas pessoas, o que está em contraste impressionante com o que se passou na ex-União Soviética. Por isso, considerei ridículo entrarmos nesse tipo de comparações. Penso que o Ocidente tenta descrever o Oriente sem o compreender na verdade, razão pela qual a maioria apelida de "milagre" o que se passa na Ásia. Outros esvaziam o milagre, chamando-lhe mito. Para mim, nem é uma coisa, nem outra.

No livro afirma que a Ásia está a passar do modelo de especialização intensivo em mão-de-obra para outro, apoiado na tecnologia e no saber. Poderá dar-nos alguns exemplos dessa mudança?

J.N. - A inversão da fuga de cérebros de que falei, bem como a chegada de muitos trabalhadores ocidentais altamente qualificados, estão a criar bastantes iniciativas empresariais na área da alta tecnologia. Por exemplo, num dos parques tecnológicos de Taiwan existe mais de uma centena de empresas, das quais cerca de metade é gerida por asiáticos que regressaram dos Estados Unidos. Devido à tecnologia que possuem, as empresas estão a atingir bons resultados. Muitas alimentam-se desse "roubo" do "know-how" por parte de muitos especialistas que regressam a casa depois da sua formação no Ocidente.

Essa inversão da fuga de cérebros surge como argumento decisivo, do seu livro, para demonstrar que o salto asiático não é meramente quantitativo, mas sim, qualitativo.

J.N. - Em "Megatrends Asia" afirmo, de facto, que o factor de maior relevância para o sucesso da Ásia diz respeito aos inúmeros asiáticos que, nos anos 60 e 70, emigraram para o Ocidente, tiveram acesso a uma óptima formação e hoje estão a regressar à sua terra natal. Hoje, os asiáticos conseguem estar a par do "estado da arte" da tecnologia em qualquer área. Trata-se de uma área em que serão cada vez mais competitivos no mercado global.

Qual é o seu comentário em relação à mais recente reunião da APEC, em Osaka?

J.N. - Vocês podem ficar admirados com o que vou dizer, mas, a meu ver, a APEC e outros organismos do género não significam grande coisa. Todo o dinamismo económico asiático foi criado no mercado. Foram os países, individualmente, agindo no seu próprio interesse económico, que procederam à desregulamentação e à liberalização, e não devido a qualquer orquestração levada a cabo por uma organização, seja ela a APEC ou qualquer outra. A meu ver, estes são apenas casos de pessoas dos governos que tentam "apanhar" o que se passa na realidade económica. É um pouco o que aconteceu na Europa com o Mercado Único, em que os governos tentaram acompanhar o que se passava no mercado, a real integração económica da Europa. E, também, o que aconteceu com o Nafta, em que os governos tentam acompanhar a integração económica, que ocorre na América do Norte. Estas organizações, tal como a APEC, não são decisivas. Fundamental é o que acontece no mercado e o que os "entrepreneurs" fazem. São os países que, no seu próprio interesse económico, liberalizam as economias.

No seu livro anterior, "Global Paradox", afirmou que, à medida que as economias são mais globais, maior é o poder das pequenas empresas. Ainda acredita nesse paradoxo, face ao incrível movimento de integração entre as grandes empresas à escala global?

J.N. - Absolutamente. Essa integração das grandes empresas traduz-se, a meu ver, em actos de sobrevivência. Estas grandes empresas, alcunhadas de "dinossauros", implementam processos de reengenharia, ou de "rightsizing", ou de "downsizing", com o intuito de estas técnicas funcionarem como tábua de salvação. O mundo está a girar demasiado depressa e as empresas demasiado hierarquizadas não conseguem competir. Têm de romper com o passado, porque o mercado global implica uma inovação constante. Por outro lado, algumas pequenas empresas tornar-se-ão também grandes na devida altura. A meu ver, o importante não é tanto a dimensão, mas sim a escala apropriada, ou seja, a dimensão adequada a cada negócio. Eu sei que não posso meter um Boeing 747 na minha garagem, porque a sua dimensão, ou escala, não é apropriada. Veja outro caso: as alianças e fusões nas telecomunicações são muito importantes, porque criam as infra-estruturas necessárias para as telecomunicações globais e para a nossa própria vivência na economia global. Mas, essas grandes infra-estruturas são criadas para servir o indivíduo, para prestar serviço aos indivíduos, bem como às pequenas e médias empresas, de modo a aumentar a eficiência de pessoas como eu e vocês.

E em relação a pequenos países como Portugal. Pensa que esse paradoxo global irá beneficiá-los ou prejudicá-los?

J.N. - Penso sinceramente que os pequenos países vão ter os seus benefícios e vantagens. Existem vários exemplos que o podem comprovar. Por exemplo, Hong Kong, com menos de 6 milhões de habitantes; ou Singapura, com menos de 3 milhões. Os pequenos países podem mover-se, tal como as pequenas empresas e as pessoas, de uma forma mais rápida do que os grandes. Não existe qualquer tipo de "handicap" apenas pelo facto de serem mais pequenos. Os países em si não acrescentam valor. Não é o que Portugal "faz" em abstracto, mas o que você faz, o que os "entrepreneurs" fazem, que conta. E neste momento com a enorme abertura que o mundo tem, graças às vantagens das telecomunicações, tudo se torna mais fácil para os indivíduos e "entrepreneurs" poderem negociar por todo o mundo. Mas, sublinho, não é Portugal em abstracto que tem de o fazer, mas sim os indivíduos. Vocês vivem em Portugal, mas dispõem hoje de todas as vantagens e possibilidades comuns a qualquer pessoa em qualquer local. É possível, hoje, operar de qualquer lugar. Pessoalmente, opero globalmente, a partir do sítio onde estou agora a comunicar convosco, a partir daqui, do Colorado.

Quais são as próximas megatendências que tem na ideia, depois deste "Megatrends Asia"? Qual será o seu próximo livro?

J.N. - Neste momento, muito sinceramente, só vou falar desse meu último livro sobre a Ásia. Só foi publicado aqui, nos Estados Unidos, no princípio deste ano. Como sabem, saiu primeiro na região que lhe deu razão de ser. Por isso, não me venham falar, por ora, em mais nenhum livro. Estou literalmente exausto depois de ter estado um ano a observar diversos países asiáticos. Esta é, aliás, a primeira entrevista que dou, depois de oito dias no hospital em Hong Kong.