O Rockefeller do Software
no Pelourinho

A poucas semanas do reinício do processo legal de averiguação sobre se a Microsoft infringe ou não as regras anti-trust norte-americanas, os meios editoriais foram agitados pelo lançamento no princípio do mês de Setembro (de 1998) do "livro que Bill Gates não quer que você leia", segundo o anúncio feito pela Amazon.com

Jorge Nascimento Rodrigues apresenta The Microsoft File
Best-seller na Amazon.com e na lista do The New York Times em Setembro/Outubro 1998

Uma jornalista independente andou quatro anos a investigar os meandros do caso Microsoft vs Lei Anti-Trust para a editora Random House. O fruto é The Microsoft File - The Secret Case Against Bill Gates (Compra do Livro), da «free-lancer» Wendy Goldman Rohm.

 Wendy Rohm sobre a saída de cena de Gates em Janeiro de 2000 

Na mesma semana em que a empresa de Seattle anunciava ter já vendido mais de 2,5 milhões de cópias do «Windows 98», a jovem autora vinha à cidadela de Gates lançar o livro incendiário, e garante que foi acolhida com simpatia.

Wendy Rohm no lançamento do livro

Wendy é, também, dramaturga e poeta, e por isso o livro tem algum floreado literário que leva a Microsoft a arrumá-lo como pura ficção.

O excerto que a Random House colocou «on line» só para nos abrir o apetite, remonta a 1992 e fala de um alegado «flirt» de Gates com uma louraça da Microsoft Germany, mas tudo para contar os alegados truques para levar a Vobis alemã a largar da mão outros fornecedores concorrentes.

Não é um livro de rumores

O livro conta mais uma série de historietas do género, a que a Justiça americana denomina de 'gratificações invertidas', ou seja a arte de convencer um cliente seu a largar o produto do seu concorrente a troco de um conjunto de benesses, pressões e ardis. O inventor mais célebre do método foi John D. Rockefeller, o barão do petróleo do final do século passado. Esta é uma das 'práticas' de que a líder actual da 'informática' é acusada e que restará comprovar legalmente.

«A diferença do livro, diz-nos Wendy numa entrevista exclusiva, é que eu não falo de rumores, mas documento os planos de negócio e o modo de actuar da Microsoft» a partir inclusive de 'gargantas fundas' dentro da empresa e dos departamentos governamentais envolvidos no processo judicial. Particularmente «trocas de e-mails e documentos secretos» são revelados, e «não me pergunte como obtive tudo isso», ri-se Wendy.

 Entrevista Exclusiva a Wendy Rohm 

Com tanto picante, a obra tornou-se nestas duas últimas semanas de Setembro de 1998 um top de vendas na livraria virtual Amazon.com e já entrou para a lista dos 35 «best-sellers» do The New York Times.

O livro vem na sequência de um artigo de há quatro anos na revista Wired, que fez capa em Abril de 1994 com 'Oh No, Mr Bill - The Inside Story of the US Government's Anti-Trust Case Against Microsoft', assinado por Wendy, onde esta falava da técnica do 'buraco negro' por parte da empresa de Gates.

Contudo, para além de se saber se a Microsoft vai perder na secretaria anti-trust, o que, até agora, não lhe aconteceu no mercado, são importantes as questões de fundo que o caso levanta.

O problema do monopólio numa economia emergente, como é a digital, é crucial no plano de uma política de concorrência sem batota. Há quem defenda - como o economista Paul Romer, da Universidade de Stanford - que temporariamente ele pode ser benéfico, desde que não atrofie a inovação e não use práticas predatórias. O julgamento da actuação da Microsoft nesta última década da sua afirmação estratégica é, neste capítulo, crucial.

À parte a comprovação ou não das alegadas práticas de 'trust', a Microsoft tem, neste período de auge, actuado como um «funil» por onde o resto da indústria da informação tem sido obrigada a passar. O que ela vende é uma 'tecnologia de alavanca', como lhe chama Peter Cohan, outro especialista americano.

Mas essa alavanca já será uma herança do passado (da revolução da informação). O mecanismo da Microsoft tem sido agora 'absorver',com mais rapidez nuns casos ou relutância em outros, as inovações criadas pela actual revolução da comunicação (que, em grande medida, têm passado ao lado da Microsoft) e 'encaixá-las' na oferta da velha plataforma.

O que diz Peter Drucker

O velho a comer o novo é coisa que não dura muito, contudo. Peter Drucker, o pai da gestão, diz esta semana, com algum humor, numa grande entrevista à revista Fortune ('Peter Drucker Takes The Long View', Fortune 28 de Setembro 1998, "que os monopólios nunca duraram mais de uma quinzena de anos, e historicamente a melhor coisa que lhes pode acontecer é serem salvos pela lei anti-trust". A comparação com o barão do petróleo e com a sua Standard Oil vem logo à memória, diz Drucker. Rockefeller, então o homem mais rico do mundo e um verdadeiro 'estado' no planeta, é hoje trazido à liça como advertência histórica. O homem tinha uma máxima: 'Eu criei o mercado, o mercado é meu'. Quem vier depois ou salta fora ou fica no canto que eu reservar, seria a conclusão natural. O tom de Drucker é um pouco o ambiente que se está a gerar em diversos meios americanos, e não só no Silicon Valley da Califórnia (onde, aliás, o «Big Guy from Seattle», como aí é conhecido, acaba de abrir mais um 'campus' de 13 há para 800 empregados). A cobertura ao homem mais rico da América (uma fortuna de 58 biliões de dólares segundo a última lista dos 400 mais da revista Forbes) perde gás.

Amigos, como Rob Glaser, o fundador da Real Networks - que esteve em destaque, agora, com a sua tecnologia para a transmissão de vídeo na Web -, acabam por testemunhar contra as alegadas práticas da Microsoft, depois de as sofrerem na pele, segundo dizem. As revelações recentes de Steve Case, o líder da American On Line (AOL), sobre o acordo com a Microsoft para a opção pelo «browser» Internet Explorer, também não são abonatórias.

É certo que há muitos interesses em jogo e nomeadamente a pressão da 'oposição' à Microsoft na emergente indústria das redes e entre todos os despeitados em episódios do passado.

Por isso, um dos pontos interessantes será ver como a opinião pública norte-americana, e em particular os investidores anónimos (é preciso não esquecer que o peso da Microsoft no NASDAQ passou de 0,4% em 1986 para 12% em meados de 1998), vão reagir ao processo.

Será que o Rockefeller da Era da Informação passará o teste ou o vaticínio de Peter Drucker será para levar mesmo à letra?


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