Leif Edvinsson, o «pai» da contabilidade do Capital Intelectual

«O problema do trabalho é se é parte
do multiplicador ou do denominador»

Já alguma vez avaliou quanto vale a «massa cinzenta» da sua empresa? Um 'contabilista' sueco, apaixonado pelo Capital Intelectual', inventou há oito anos um método de avaliação e testou-o numa empresa de seguros. Hoje transformou-se no guru de uma nova ferramenta de gestão que pretende transformar os recursos humanos num multiplicador de valor e não num fardo

Jorge Nascimento Rodrigues do outro lado da Net.
Uma versão adaptada foi publicada na revista Executive Digest

 Apresentação do Livro Intellectual Capital | O Dicionário rápido de Leif 

Leif Edvinsson, 53 anos, considerado o «pai» da contabilidade empresarial sobre o Capital Intelectual, acaba de deixar o lugar de vice-presidente da Skandia para esta área nova, posição que inaugurou nos anos 90 e que foi criada à medida dele na cúpula deste grupo empresarial sueco, para ir liderar a UNIC, Universal Networking Intellectual Capital (na Web em www.unic.net), uma rede criada recentemente para replicar a criação de Centros do Futuro, segundo o modelo pioneiro de «espaços de contactividade» para quadros de uma empresa, criado pela Skandia numa «villa» sua em Vaxholm, a norte de Estocolmo. Encontrá-mo-lo no regresso da Malásia, onde está em estudo a criação de uma infraestrutura especial para o Capital Intelectual no quadro do «Super Corredor Multimedia», adjacente a Kuala Lampur.

Autor de dois livros com o mesmo começo de título baseado no 'Capital Intelectual', que são referência no tema, ele foi «descoberto» pela revista Fortune em 1994, e desde aí tornou-se no «guru» nórdico mais solicitado, por reunir uma sólida formação teórica com um conhecimento prático aprofundado. Em 1996, o projecto por ele liderado na Skandia recebeu uma distinção do Centro Americano de Produtividade e Qualidade (APQC) e em 1998 um prémio pela Fundação Europeia para a Gestão da Qualidade (EFQM). Em Janeiro do ano passado foi distinguido como o 'Cérebro do Ano' pela Fundação inglesa Brain Trust, onde ombreia com o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov e com o cientista Stephen Hawking, entre outros, na galeria de premiados.

Convidado a entrar em 1991 na empresa financeira (Skandia AFS) do grupo sueco, Leif esteve na origem da elaboração em 1993 do primeiro relatório anual sobre Capital Intelectual anexo ao Balanço e Contas que alguma vez uma empresa tinha apresentado. O original modelo de contabilidade foi, depois, estendido a todo o grupo e a toda a cadeia de valor dos negócios do grupo. Esta experiência foi transformada em «case study» por investigadores do International Institute of Management, IMD, da Suíça.


Como amadureceu nos últimos anos o modelo prático da avaliação do capital intelectual desde os testes que fez na Skandia AFS no começo dos anos 90?

LEIF EDVINSSON - Saiu claramente dos serviços e da indústria para se espalhar em organizações tão diferentes, como hospitais, e saltou para a macroeconomia, tendo sido aplicado a nível regional, e mesmo a nível de países que pretenderam visualizar o seu capital intelectual «nacional», como no caso da Suécia e de Israel.

Pode fazer-nos o ponto de situação dessa «exportação» sueca?

L.E. - A Dinamarca e a Holanda, também, já redigiram Relatórios sobre o seu capital intelectual e mais recentemente está em curso um estudo deste tipo na Áustria e no Japão, onde estou a ter a colaboração de Caroline Stenfelt. O Fundo para o Desenvolvimento Regional da Indústria Norueguesa aplicou o nosso modelo. A Academia de Mercado da Universidade de Estocolmo publicou um estudo aplicando-o à economia sueca. Coisas novas estão a ser feitas na OCDE em Paris, onde se estuda a relação entre a economia baseada no saber e o capital intelectual. No Brookings Institute nos Estados Unidos estuda-se como avaliar os intangíveis para empresas cotadas. Recorde-se que a Securities and Exchange Comission norte-americana expressou o seu interesse por este novo tipo de contabilidade e afirmou que pensaria propor legislação que torne o Capital Intelectual transparente nas contas das empresas cotadas na Wall Street.

A propósito de Bolsa e começando pela sua investigação sobre o valor inexplicável atingido por empresas da nova economia (como a Microsoft), nós estamos a assistir, particularmente no NASDAQ norte-americano, à capitalização astronómica do «goodwill» de empresas que têm a Web na sua actividade e usam no logotipo o célebre '.com' ou '.net'. Isto é apenas o fruto de uma onde especulativa do tipo da das tulipas holandesas na Idade Média, ou reflecte o valor do capital intelectual que elas detêm?

L.E. - Em meu entender, a resposta é a segunda opção que levanta. Reflecte efectivamente o capital intelectual dessas empresas, e nomeadamente a propriedade intelectual e outros activos 'intangíveis', que estão a ser claramente valorizados pelos mercados de capitais.

De qualquer modo, a Amazon.com, por exemplo, que é capaz de ser o melhor modelo de uma destas novas empresas com uma alta capitalização de mercado, apresenta perdas elevadas anuais. Como é que se explica este paradoxo em termos da sua visão do papel do capital intelectual?

L.E. - O que se passa é isto: estas empresas da Web e da Net estão a investir em tecnologias de informação, em relações com os clientes, em competências centrais e em outras componentes do capital intelectual de que eu falo. E estão a fazê-lo de um modo impressionante. Naturalmente que isto é contabilizado como despesa e transferido para o balanço como passivo. Por isso, o fosso entre o valor contabilístico e o valor de mercado cresce.

Poderá a investigação em torno do capital intelectual explicar o chamado paradoxo da produtividade que teima em permanecer desde o começo da Revolução da Informação, ou seja a constatação de que, apesar do enorme investimento em tecnologias de informação e comunicação, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho não cresceu, ao contrário do que seria de esperar nos últimos 30 anos? Que revolução do saber é esta em que todo este investimento no capital intelectual não tem impacto no essencial - na produtividade?

L.E. - A meu ver, o problema é com a forma tradicional de avaliar a produtividade que não capta o que se passa, que está obsoleta. O capital intelectual, a meu ver, poderá dar uma melhor avaliação, já que o valor acrescentado por trabalhador está a crescer a olhos vistos - ou seja o que chamamos de eficiência do capital intelectual tem aumentado. É claro que isto pressupõe uma outra forma de «ver» os Recursos Humanos - o Trabalho tanto pode ser a solução do problema do multiplicador do valor, como parte do problema se for encarado como um custo, um fardo.

Qual é a diferença entre a sua ferramenta de «navegação» sobre o capital intelectual e outras metodologias como o planeamento de cenários ou a prospectiva francesa, que também visam potênciar o capital intelectual das organizações?

L.E. - A minha abordagem é de avançar para o futuro aprendendo. Não é ficarmos sentados no lugar traseiro a olhar para cenários. Caricaturizando, pode ser a diferença entre a análise vectorial e a opinião do observador. A «navegação» de que falamos é trazer o futuro ao momento actual através da prototipagem, do lançamento de protótipos de implementação do capital intelectual. É uma ferramenta prática traduzida em linguagem de negócios e não só reflexão.

Qual é a diferença entre o que chama de «contactividade» facilitada pelos seus Centros do Futuro (de que criaram um, pioneiro, na Suécia, numa «villa» oitocentista em Vaxholm) e a mais comum metodologia da 'conversação estratégica' que procura em reuniões ou 'brainstormings' criar conhecimento colectivo a partir de interacções entre conhecimento tácito com conhecimento tácito, ou seja - sem tanto termo sofisticado - de fomentar as conexões entre pessoas, já que o conhecimento (tácito) é puramente pessoal?

L.E. - É parecido. Mas nós no Centro do Futuro procuramos focalizar também na dimensão emocional através da tal «contactividade» de que falamos, e não só a partir da conectividade entre pessoas. Por exemplo, o Skandia Future Center na «villa» Askudden, em Vaxholm, já atraíu perto de 20 mil visitantes desde Maio de 1996. Conseguiu orientar a perspectiva da liderança mais no sentido da inovação e do crescimento do capital intelectual. Contribuiu também imenso para novas abordagens do design do capital organizacional. Um dos traços distintivos da composição de quem frequenta este Centro é que se trata de algo muito heterogéneo. Procura-se trazer grupos com uma grande diversidade de idade, de conhecimentos, de interesses, implicando o espectro mais largo possível de opiniões e percepções dentro da Skandia.

Se a chave para o desenvolvimento do saber 'invísivel' é a mudança comportamental (das pessoas, incluindo a tal dimensão ideológica e emocional), deveremos concluir que os «pacotes» de software de gestão do conhecimento chave na mão são a parte menos importante?

L.E. - Absolutamente. O mais importante é o capital humano multiplicado pelo capital estrutural, ou seja o crescimento do capital organizacional a partir da alavancagem do potencial humano. Os sistemas tecnológicos podem ajudar, mas, por si só, não criam o tal «ambiente» para que as pessoas - que são quem detém o conhecimento dentro de si - contactem, comuniquem, de uma forma eficaz e empenhada, entre si. O saber colectivo só pode nascer da vontade de partilhar.

Mas se o conhecimento é algo puramente pessoal (que está dentro da minha cabeça e da sua) e se as organizações não podem ser 'donas' dele, então a chamada gestão do conhecimento, hoje tão em voga, é uma 'buzzword' que nos prega uma rasteira?

L.E. - Acho que sim. (risos) A gestão do conhecimento está focalizada muito nas competências e vive disso. A «navegação» de que falamos na Skandia envolve a organização num ritmo alinhado com o mercado.

Qual é a sua avaliação pessoal da apresentação anual do relatório sobre Capital Intelectual na Skandia desde há seis anos? Valeu a pena em termos de percepção pública do valor da empresa? Ou em termos de capitalização bolsista ou de apoio por parte dos accionistas?

L.E. - O maior resultado foi a visibilidade crescente do «valor escondido» da Skandia, isto é do seu capital intelectual. O mercado aumentou a valorização da empresa em mais de 8 mil milhões de dólares desde 1991. A atracção de investidores, clientes e pessoal foi crescente. A liderança neste campo foi refinada com um novo processo de contabilização à volta do capital intelectual e a inovação organizacional foi melhorada com um 'seguro de competência'.

Seguro de competência?

L.E. - Foi uma inovação que criámos. (Recordo-lhe que a Skandia AFS é uma seguradora). Em 1998 resolvemos criar um seguro para o desenvolvimento de competências pessoais. Estes novo tipo de seguro de empresa permite aos empregados ter a oportunidade de renovar o seu conhecimento durante um período alargado com o pagamento assegurado. Tanto a empresa como os seus empregados financiam este seguro através das contribuições para um Fundo de Conhecimento.

Qual é o impacto da teoria do capital intelectual sobre a gestão corrente dos números das empresas?

L.E. - É que é preciso ir para além do capital financeiro. É uma viragem de 180 graus na perspectiva.

Ultimamente desenvolveram na Skandia novos conceitos no modelo?

L.E. - Sim, por exemplo, o «rating» de Capital Intelectual, um mapeamento topográfico do dito capital e a criação de Centros do Futuro como ferramentas de arquitectura de organização.

Para finalizar, uma indiscrição - qual foi o ROIC (retorno sobre o capital intelectual) na Skandia?

L.E. - Para 1998 foi - tentativamente - avaliado em 20 vezes o investimento, ou seja 2000%! Por exemplo, noutra óptica, o crescimento do valor criado por trabalhador no grupo passou de 480 mil coroas suecas em 1995 para mais de um milhão em 1997. Mais do que duplicou, o que é atribuído à transformação do capital humano (pessoal) numa forma de capital intelectual mais durável, o capital estrutural, como eu o designo.


Dicionário de Leif Edvinsson
  • Uma das componentes do valor de mercado é o capital intelectual, a par do capital financeiro (em geral só este último é tido em conta).
  • O capital intelectual pode dividir-se em duas componentes: o capital humano (puramente pessoal, e baseado em competências individuais, atitude e agilidade intelectual) e o capital estrutural (o que fica na empresa, quando toda a gente vai para casa).
  • O capital estrutural é composto por três componentes - o capital de relações (com clientes e todos os «stakeholders»); o capital organizacional (composto por: capital de inovação em propriedade intelectual e activos intangíveis, capital de processos formalizado em manuais, melhores práticas, recursos na Intranet, e capital cultural, assente em símbolos e normas que diferenciam); e o capital de 'renovação e desenvolvimento de valor' (todos os items que terão um impacto no futuro).
  • O capital intelectual é mais do que o conhecimento. Inclui também as marcas, as patentes, os processos e todas as relações com todos os «stakeholders» do negócio - distribuidores, aliados, clientes, comunidades locais, fornecedores, etc..
  • O capital intelectual não é baseado em dados nem mesmo em informação, assenta no saber. O saber é um processo pessoal e subjectivo que brota da experiência, enquanto que a informação é objectiva e nasce a partir do ambiente envolvente.
  • O capital intelectual é mais do que o somatório das competências nucleares da empresa. Abrange também as competências que não são centrais, e implica os resultados da aplicação de todas essas competências.
  • O capital intelectual é mais do que a «aprendizagem organizacional», vai para além do desenvolvimento do conhecimento, implica também a sua exploração plena e a sua transformação em conhecimento explícito colectivo.
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