DA GUERRA

Depois da Queda do Muro

O regresso às causas e a algumas formas das guerras do passado.
O teatro de guerra voltou a ser marcado pela geo-política do controlo
dos recursos naturais vitais.
Depois do fim da luta hegemonista entre os dois sistemas do século XX,
há uma nova geografia de conflitos.
Petróleo, gás, pedras preciosas e madeiras exóticas motivam guerras civis
e conflitos entre nações.

Jorge Nascimento Rodrigues com Michael Klare

O livro em destaque: «Resource Wars: The New Landscape
of Global Conflict» (compra do livro)

Artigo relacionado sobre O Apagão Planetário
Artigo (não disponível "online" de Klare na revista Foreign Affairs
(Maio/Junho 2001, vol.80,nº3)

Entrevista recente com Klare na Alternet.org

A guerra é a continuação das relações políticas com uma mistura de outros meios, dizia literalmente o célebre general prussiano Carl von Clausewitz no seu tratado «Vom Kriege» (Da Guerra), publicado postumamente em 1832 pela sua viúva. Ficou célebre o capítulo VI do Livro V desta obra em que falava desenvolvidamente da guerra como um instrumento da política e em que advertia que as alterações na geo-política implicavam sempre alterações na natureza e na forma das guerras.

«A guerra é a continuação das relações políticas
com uma mistura de outros meios»
Carl Von Clausewitz, Vom Kriege (Da Guerra), 1832

Michael T. Klare, director do Programa de Estudos sobre Paz e Segurança Mundial (conhecido pelo acrónimo PAWSS) na Universidade de Hampshire, em Amherst, no Massachusetts, nos Estados Unidos, levou à letra as recomendações de Clausewitz e foi investigar as causas das guerras depois da Queda do Muro de Berlim, à luz de factos novos como a Guerra do Golfo (1991), o multiplicar absurdo de guerras civis em África, as simulações de operações pela CIA na região do Mar Cáspio, ou o aumento de tensão nos mares do Sul da China, de que o episódio recente (2001) do avião de reconhecimento norte-americano obrigado a aterrar em Hainão foi mais um indício.

Capa do livro Resource Wars: The New Landscape of Global Conflict Klare "descobriu" que a competição e controlo pelos recursos naturais vitais tinham voltado ao palco principal da geografia de conflitos. Este inusitado apetite pela geo-economia dos recursos "casa" muito bem com a globalização, o que o levou a escrever Resource Wars: The New Landscape of Global Conflict (compra do livro), que acaba de ser publicado pela New York Metropolitan Books. Antes de ter ingressado em Hampshire em 1985, Michael Klare foi director do Programa sobre Militarismo e Desarmamento do Institute for Policy Studies em Washington DC. Notabilizou-se com obras como American Arms Supermarket (1984), Low-Intensity Warfare (1988), Rogue States and Nuclear Outlaws (1995 - compra do livro) e Light Weapons and Civil Conflict (1999 - compra do livro).

Actualmente, pertence à direcção da Arms Control Association e ao conselho da divisão sobre armas do Humam Rights Watch.

Ele foi entrevitado no decurso do Seminário de Verão sobre Conflitos em torno de recursos, globalização e segurança internacional que decorreu em Junho de 2001 no Amherst College.


As guerras baseadas na ideologia passaram à história com a queda do Muro de Berlim?

M.K. - A ideologia e a política continuarão a ser um factor incendiário. Mas, penso que a competição à volta dos recursos naturais tornar-se-á um factor mais importante, pelo menos em certas áreas do Globo, à medida que as fontes de matérias primas vitais, designadamente água, fontes de energia e terra arável, se tornarem escassas.

A actual vaga anti-globalista poderá gerar situações de guerra no futuro, ou trata-se apenas de poeira?

M.K. - Não acredito que de per se se torne uma fonte de guerra, mas o descontentamento em relação à repartição desigual dos recursos ou a privatização dos abastecimentos de água pode muito bem gerar conflitos aparentemente inesperados. Por exemplo, um assunto que não foi muito falado: no ano passado, houve enormes tumultos na Bolívia, e sabe porquê? Porque o governo tentou vender a uma multinacional a companhia de águas de Cochabamba, a terceira maior cidade do país.

A importância das causas étnicas, culturais e civilizacionais foi muito exagerada

O conceito de "choque entre civilizações" de Samuel Huntington é uma visão romanceada ou pode efectivamente gerar guerras no futuro? Por exemplo, os conflitos nos Balcãs terão alguns ingredientes deste tipo, com civilizações tão diferentes como a ortodoxa, a muçulmana e a europeia ocidental numa mistura explosiva?

M.K. - É claro que antagonismos étnicos e culturais continuarão a ser factores de conflitos futuros. Mas, sinceramente, acho que a importância desses aspectos foi muito exagerada em diversos casos e, em contrapartida, o papel da competição em torno dos recursos tem sido muito subestimada. Por exemplo, na Serra Leoa e em Angola, a guerra civil é, em grande medida, motivada pelo controlo do negócio dos diamantes, e nada tem a ver com hostilidade étnica.

O hegemonismo entre superpotências foi, também, para o caixote do lixo da história? O tão apregoado choque com a China, considerada a superpotência emergente no século XXI, é, também, uma visão romanesca ou é algo que está efectivamente em desenvolvimento? Ainda recentemente foi divulgado que em 2030 a China terá 750 milhões de activos qualificados, enquanto que a Europa e os Estados Unidos, no conjunto, não terão mais de 530 milhões...

M.K. - Creio que vamos continuar a assistir a fricções entre os Estados Unidos, por um lado, e a China e até a Rússia, por outro. Mas, a meu ver, não terá qualquer paralelo com o que sucedeu no tempo da Guerra Fria. Além do mais, creio mesmo que, por vezes, a tensão entre estes países disparará em virtude de disputas pelos recursos, e não por diferenças ideológicas. Veja o caso da Bacia do Mar Cáspio, onde os Estados Unidos e a Rússia estão manifestamente em desacordo quanto à forma de explorar as fontes de energia da região. Veja o caso dos mares do Sul da China onde se movem diversas potências maiores, como a China, o Japão e os Estados Unidos, e menores.

Guerra do Golfo de 1991 o primeiro conflito pelo controlo de recursos
no pós-Guerra

No seu livro sublinha que a Guerra do Golfo foi um dos primeiros exemplos de guerra aberta em torno de recursos, no caso do petróleo?

M.K. - Exactamente. Esse foi o primeiro exemplo no pós-Guerra Fria de um conflito explicitamente em torno de recursos. Falou-se abertamente da "protecção" dos interesses americanos naquela zona em termos de petróleo.

A massificação de guerras civis no chamado mundo sub-desenvolvido, como acontece por exemplo por quase todo o lado em África, é um bom exemplo dessa nova geografia de conflitos?

M.K. - Efectivamente, esse tipo de conflitos em África tem uma dimensão de controlo de recursos significativa ou dominante. Numa resposta anterior falei do caso de Angola e da Serra Leoa e pode juntar-se o do Congo. A guerra no Sudão, também, tem uma dimensão desse género.

De acordo com a sua investigação, o Médio Oriente é precisamente uma das linhas de fractura na arena geo-política mundial. No fundo, há ali uma mistura explosiva de petróleo e água. Como é que vê a evolução do conflito israelo-palestino?

M.K. - Esse conflito tem muitas dimensões, como sabe. Por ora, as divergências políticas são o factor dominante. Mas a população está em crescimento na área e a disputa em torno da terra e da água pode muito bem tornar-se muito mais intensa nos próximos anos.

O papel fracturante da água

A água tem sido um aspecto menos falado, efectivamente. Quais são as zonas de fractura mundial potenciais neste campo?

M.K. - Como refiro no meu livro, muitas áreas do Norte de África, Médio Oriente e Ásia sofrem de escassez permanente de água e o número de países que vão estar sob esta ameaça deverá duplicar nos próximos 25 anos. Numa ocasião, Moshe Sharret, um primeiro-ministro de Israel, disse abertamente que «a água para nós não é um luxo; é a própria vida», tendo em mente a importância, neste capítulo, do Vale do Jordão, e Boutros Boutros-Gali, quando foi ministro dos negócios estrangeiros do Egipto, advertiu que «a guerra na nossa região pode muito bem rebentar em torno do Nilo, e não da política».

Alguns relatórios prospectivos sobre o petróleo apontam para um domínio completo do mercado mundial desta matéria prima pelos países produtores do Golfo antes do final desta década (ler artigo). Será que isto pode acelerar as guerras de recursos na zona?

M.K. - Só o facto de tanto petróleo estar ali localizado, já significa que o mundo vai ficar muito dependente desta região. Se a procura do ouro negro aumentar, isso pode, de facto, levar a um conflito entre os principais importadores.

Como é que avalia a dependência crescente da Europa em relação aos fornecimentos de gás a partir do Norte de África, Rússia e outros estados da ex-União Soviética?

M.K. - De facto, está a tornar-se crescentemente dependente como diz. E isso é para nos trazer preocupação.

Refere que em 1997, a CIA, pela primeira vez, desenvolveu uma missão de combate simulado contra "forças renegadas" no Kazaquistão com o nome de código de Centrazbat e que o Departamento de Defesa deu recentemente importância à Ásia Central que ficou sob o mesmo comando unificado que o Golfo Pérsico, retirando-a ao comando do Pacífico. Que ilações daí tira?

M.K. - A importância da Bacia do Mar Cáspio que saltou para o primeiro plano.

Quais são as principais consequências desta nova geografia de conflitos para a Europa?

M.K. - A Europa vai ser afectada de várias formas: pela imigração oriunda de África e do Médio Oriente, onde os conflitos em torno da escassez de recursos se amplie; pela ruptura nos fornecimentos de petróleo ou de gás em virtude de conflitos; e pelo envolvimento em operações de paz em áreas claramente expostas a este tipo de novos conflitos.

A NOVA CARTOGRAFIA DOS CONFLITOS
O livro de Michael Klare permite-nos começar a olhar o mundo das guerras após a desintegração da URSS de um outro modo. À antiga divisão bipolar em torno de zonas de influência ideológica, sucedeu-se um mosaico multipolar de conflitos, por vezes incompreensível à primeira vista, em que pululam múltiplas fagulhas incendiárias, desde os motivos civilizacionais ancestrais aos interesses económicos mais óbvios.
Klare refere três áreas particularmente críticas na geo-política de hoje que têm tudo a ver com recursos naturais que poderemos designar de "estratégicos" - o Golfo Pérsico celebrizado por ser a mãe de todas as jazidas de petróleo; a bacia do Mar Cáspio, a maior massa de água interior do mundo, subitamente catapultada para a ribalta pela sua importância vital em gás natural e também petróleo (e até pelo caviar); e os mares do Sul da China, pelo petróleo offshore e as rotas marítimas. O autor designa estas três regiões como as "linhas de fractura" sísmica político-militar mais importantes nos tempos que correm.
Chama a atenção, ainda, para um outro recurso vital menos falado - a água. As "guerras da água" podem igualar, no futuro, as do ouro negro. Neste caso, as linhas de fractura encontram-se em certas bacias de rios transnacionais em que as secas e a pressão populacional e colonizadora poderão tornar-se endémicas.
A geografia mais quente da água em disputa centra-se, uma vez mais, em três regiões críticas - no Médio Oriente, na África do Norte e na Ásia. Gira em torno do Vale do Jordão que desagua no Mar Morto (envolvendo os estratégicos Montes Golã, e países como a Jordânia, Israel, Líbano, Síria, Autoridade Palestiniana); do Nilo, o mais extenso rio do mundo que atravessa diversos países africanos; da Bacia do Tigre e do Eufrates, envolvendo desde o Curdistão turco, à Síria e Iraque, e indo desaguar no Golfo Pérsico; do rio Indo que nasce no Tibete e desagua no Mar de Omã, e seus afluentes que atravessam o Afeganistão, o Punjab e a Caxemira quer do lado da Índia como do Paquistão; e o Amu Darya, partilhado pelo Tadjiquistão, Turquemenistão e Uzebequistão.
As pedras preciosas e as madeiras exóticas das florestas tropicais são outras achas para a fogueira, segundo Klare. As principais concentrações de guerras civis endémicas situam-se justamente em áreas de forte localização deste tipo de riquezas, como em determinadas zonas de África da geografia dos diamantes e do cobre (Libéria e Serra Leoa, Angola e Congo) ou das madeiras exóticas no sul da Ásia (Filipinas e Indonésia).
Um resumo do livro Resource Wars poderá ser lido no artigo de Michael Klare publicado na revista Foreign Affairs («The New Geography of Conflict», edição de Maio/Junho 2001, volume 80, nº3 - Não disponível "online", mas podendo ser encomendado no site).
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