A Nova Mão Invisível da Economia

Recensão de New Rules for the New Economy

Kevin Kelly apresenta a Jorge Nascimento Rodrigues o livro que vai sair em Novembro de 1998
Um EXCLUSIVO Janela na Web a publicar em versão mais compacta no caderno Vidas do semanário Expresso

A nova 'Mão Invísivel' do sistema emergente já não é o mercado, mas a rede. E esta comporta-se economicamente como uma colmeia se comporta biologicamente.

As leis naturais que regem uma enxame são a inspiração para Kevin Kelly, o conhecido editor executivo da revista «Wired», desenhar as 'leis económicas' que fundamentam a lógica de redes que está a invadir toda a nossa sociedade.

O autor apresenta estes Novos Mandamentos no livro New Rules for the New Economy (Encomenda do Livro) que vai publicar em Novembro próximo.

O assunto das leis da 'nova economia' nascida com a revolução digital já começara a ser abordado no anterior livro de Kelly, intitulado Out of Control (disponível gratuitamente em www.kk.org/outofcontrol/index.html), editado há quatro anos, antes do «boom» da Internet. A imagem da colmeia fora mesmo escolhida para capa do livro e um capítulo (o XIº) desenvolvia as primeiras ideias sobre o que eram as «economias de rede».

Depois, há cerca de um ano (na edição de Setembro de 1997), o autor escreveu na «Wired» um extenso artigo em que sistematizava 12 novas regras (em 'The New Rules of the New Economy') que, agora, comprimiu para uma dezena (ver quadro).

Subjacente à visão que nos quer 'vender' está um novo paradigma, que poderíamos, humoristicamente, resumir assim: a mentalidade de colmeia é o oposto da do rebanho. A rede não funciona com comportamentos nem de ovelha ordeira, nem mesmo de ovelha negra.

Por isso, as 'leis' de que fala Kelly são pouco óbvias para quem ainda esteja prisioneiro das duas lógicas deste século: a do individualismo no centro do mundo ou a das «massas» sob controlo.

Os economistas puros e duros da academia acusam-no de ser mais um 'teórico acidental' fascinado com o mundo digital, dispondo de um púlpito nos «media». Ele responde à letra: «Cite-me lá algum desses que marque realmente a diferença? Eles já não têm nada a oferecer de novo, por isso não me importo nada de ser uma amador. Estão tão adormecidos nas suas torres de marfim, que já ninguém lhes liga nenhuma!».

Kevin Kelly facultou-nos as provas do livro no prelo e acedeu a mais uma entrevista (a anterior sobre o artigo publicado na «Wired» pode ser lido aqui), onde volta a sublinhar que as tradicionais leis do capitalismo estão a ser substituídas.


Um editor como você ligado ao que se designa por 'novas tecnologias', que dirige uma revista como a «Wired», tida como a bíblia dos 'seres digitais', a que propósito é que vem meter uma colherada na área da economia?

KEVIN KELLY - Por uma razão simples. Os títulos de primeira página estão a ser dados a essa tal revolução tecnológica, mas algo muito mais profundo está lentamente a mexer-se por debaixo disso. Dirigindo os ciclos de todas essas modas tecnológicas, está uma nova ordem económica emergente. Esta nova economia representa uma deslocação tectónica - se me é permitido usar a imagem -, um reordenamento ainda muito mais turbulento do que o que tem provocado o «hardware» digital.

Mas o que é que há de novo realmente nessa economia?

K.K. - Ela tem, a meu ver, três características distintivas - é global; favorece tudo o que é intangível (ideias, informação, saber e relações); e está intensivamente interligada. Estes três novos atributos estão a criar um novo tipo de mercado e de sociedade, baseado em redes eslectrónicas.

A 'rede', aliás, é considerada a metáfora central desta nova sociedade pós-capitalista emergente neste final do século XX. Mas as redes não existiram sempre ao longo dos tempos na sociedade?

K.K. - O que é diferente agora é que as redes, potenciadas e multiplicadas pela tecnologia, estão a penetrar nas nossas vidas tão profundamente que se tornaram no paradigma para o nosso pensamento e para a própria economia. O que nós criámos recentemente foram redes artificiais de enorme poder. A invenção destas redes é comparável às invenções financeiras da Veneza da Idade Média e à imprensa de Gutenberg.

Mas isso não se aplica só ao sector digital?

K.K. - Não. A premissa básica do meu novo livro é que os princípios que governam o mundo do «soft» comandarão, em breve, tudo o resto. Se você quiser visualizar o seu negócio no futuro, é melhor começar a imaginá-lo como algo construído inteiramente à volta do tal «soft», ainda que o veja, hoje, totalmente mergulhado no «hard». O que tem de fazer é saltar fora do casulo em que está habituado a pensar.

O seu ponto de vista é acusado de querer fazer tábua rasa de tudo o que havia antes...

K.K. - Nada disso. A nossa economia é uma amalgáma de diversas formas de comércio e de relações sociais. Veja o caso da troca directa. É uma das mais velhas formas de comércio, e não desapareceu. Ela passou através da primeira vaga agrícola, da segunda industrial e da terceira, e continua hoje. Muito do que acontece na World Wide Web é troca directa. E provavelmente continurá a ser mais importante, durante algum tempo, do que o próprio comércio electrónico.

Você refere que as comunicações não são, apenas, um mero sector económico, mais um. As comunicações são a própria nova economia, escreve no livro. Mas como é que se deu essa 'fusão' total?

K.K. - Veja o caso do dinheiro. Ele é, no fundo, um tipo de comunicação. E à medida que é cada vez mais 'libertado' da sua pele física por efeito da electrónica, mais se parece com outros tipos de comunicação. Agora estenda esta forma de ver as coisas ao resto da economia. Comunicações avançadas não são apenas computadores. Os computadores chegaram ao fim do caminho. Tudo o que poderíamos esperar dos computadores como máquinas isoladas já aconteceu. A grande ironia da nossa época, em que temos computadores por todo o lado, é que o valor não é criado pelas computações, mas pelas conexões.

Mas porque é que não chama à nova economia simplesmente 'economia digital' ou 'economia baseada no saber' como o fazem outros?

K.K. - Eu penso que necessitamios do modelo da rede para percebermos o que se passa. A ´rede' é como uma nova Mão Invísivel. Os seus princípios renunciam à rigidez, às estruturas fechadas, aos esquemas universais, à autoridade central, aos valores imutáveis. Se quiser, em termos filosóficos, a 'rede' oferece a pluralidade, as diferenças, a ambiguidade, o incompleto, a contingência e a multiplicidade. E tudo isto tem a ver com a forma como age a nova economia. A meu ver é como uma colmeia, provavelmente o melhor modelo natural de uma rede que é um sistema de pontos de controlo descentralizado. Tudo na nova economia é caracterizado pela descentralização da propriedade e do accionariato, por «pools» de saber em vez de «pools» de capital, por uma ênfase numa sociedade aberta.

Alguns economistas acusam-no de cometer o pecado capital ao colocar no centro da nova economia a abundância, quando a economia tem sido a 'ciência' do escasso...

K.K. - Uma das leis de que falo é efectivamente a da abundância. A informação tornou-se abundante e mesmo o conhecimento, apesar de ser mais escasso que a informação, se está a tornar abundante. Cada vez mais gente sabe de computadores, ou de redes, ou de inglês, por exemplo, e isso só torna tudo isso mais valioso. Mais dá mais.

Acha que a Europa está a acompanhar esse passo da 'invasão' de tudo pelas redes?

K.K. - Sou bastante ignorante sobre o estado da arte na Europa, mas penso que está a fazer o mesmo que os EUA fizeram, ainda que com alguns anos de atraso.

Um dos princípes criados pela riqueza que se desenvolveu a partir dos anos 70 é o patrão da Microsoft, apontado como o bilionário número um do mundo. Bill Gates é o seu símbolo para a nova economia?

K.K. - Para muita gente é. Contudo, não é o primeiro - nem será o último - a fazer uma riqueza incalculável a partir dos intangíveis. Quando Bill Gates passar à história, outro lhe ocupará o trono, e provavelmente não virá do negócio do software. Particularmente a história económica americana pode ser contada como uma série de indústrias que primeiro surgem como completamente desconhecidas e que depois passam a uma fase 'heróica', e que, durante um tempo, são tratadas como 'estrelas'. Depois outras vêm ocupar o lugar. É a lei da vida. Nada é harmonia, tudo é fluxo.

OS DEZ MANDAMENTOS DA NOVA ECONOMIA
1 - A lei da colmeia
A vantagem competitiva: um sistema de controlo descentralizado
2 - A lei dos rendimentos crescentes
O mecanismo de aumento do valor económico: as conexões entre pessoas e coisas
3 - A lei da abundância
Mais dá mais: a inversão do princípio clássico da escassez
4 - A lei do tendencialmente gratuito
A formação dos preços também é invertida: antecipar o barato ou o gratuito
5 - A lei da submissão à Web
Alimentar primeiro a Web. Maximizar primeiro o valor na rede
6 - A lei de antecipação do obsoletismo
Abandone as galinhas de ouro antes que se tornem obsoletas pela entrada de outros 
7 - A lei do espaço de negócio
O mercado deixou de ser um local físico, mas um espaço
8 - A lei do desequilíbrio
Não há harmonia, tudo é fluxo. A única saída é a inovação
9 - A lei da tecnologia 'relacional'
As únicas tecnologias com futuro são as que potenciam relações
10 - A lei das ineficiências
A exploração de novas oportunidades vem antes da optimização do que existe


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