O regresso dos hackers

Mas não confunda com o elogio dos crackers

Não se trata da apologia do cibercrime num ano (2001) em que os ataques
de virus e vermes não têm parado.
Mas do elogio do espírito de paixão e prazer típico da criatividade.
A ética "hacker" que criou a terceira vaga está de volta depois do "crash" para enterrar de vez a velha ética do trabalho no capitalismo.

Jorge Nascimento Rodrigues entrevista o jovem filósofo finlandês Pekka Himanen

«The Hacker Ethic» (compra), um bestseller no Silicon Valley | Site do livro
Galeria de "hackers" célebres entrevistados na Janelanaweb
Vinton Cerf | Bill Joy | Eric Raymond | Linus Torvalds

"Hacker" no título já provocou ao leitor certamente um franzir do sobrolho, depois destes últimos ataques de "Code Red" ou de "SirCam". A que propósito é que o regresso dessa gente do cibercrime é uma tendência com interesse para o mundo dos negócios?

Pekka Himanen Pekka Himanen, um estudante prodígio finlandês, doutorado aos 20 anos em Filosofia na Universidade de Helsínquia, começa por nos avivar a memória recordando que "hacker" nada tem a ver com cibercrime. Foram "hackers", como Vint Cerf, Berners-Lee, Wozniak, Torvalds, entre outros, que criaram os fundamentos da Sociedade da Informação dos últimos trinta anos.

Ética "hacker" é uma vantagem competitiva para os negócios

Capa do livro The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age Pekka demonstra que o espírito "hacker" é, agora, mais necessário do que nunca, num livro que acaba de publicar em inglês com o sugestivo título de The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age (compra do livro), editado pela Secker & Warburg, da Random House.

O finlandês, com apenas 28 anos (nascido em 1973), afirma mesmo que «a ética 'hacker' começa a ser apelativa para o mundo dos negócios. É uma vantagem competitiva pois fomenta a criatividade, a inovação e perspectiva de longo prazo».

A mensagem da ética "hacker" é simples: prazer e paixão no trabalho. Linus Torvalds, o criador do Linux, afirma no seu recente livro Just For Fun - The Story of na Accidental Revolutionary (compra do livro) de que os "hackers" acreditam que não há estádio superior ao do gozo de criar. Ele descreve o seu período de criação do Linux como «uma mistura de um 'hobby' cheio de prazer com trabalho muito sério e duro». Tim Berners-Lee em Weaving the Web (compra do livro), o seu livro de quase-memórias, advoga no mesmo sentido e dá o seu próprio testemunho na criação da World Wide Web.

DOIS LIVROS RECENTES DE MEMÓRIAS "HACKER"

Just For Fun
de Linus Torvalds (criador do Linux)

Weaving the Web
de Tim Berners-Lee (criador da Web)

Pekka acrescenta que é uma ruptura definitiva com a ética do trabalho do capitalismo industrial e mesmo com a filosofia da Nova Economia, que teria levado ao extremo essa ética vinda do século XVII. E explica este aparente paradoxo mais adiante na entrevista exclusiva que concedeu.

Pekka Himanen trabalha, agora, na Universidade de Berkeley, na Bay Area de São Francisco, na Califórnia, em projectos coordenados por Manuel Castells, um professor de sociologia, de origem espanhola, conhecido pela sua monumental trilogia sobre A Era da Informação. Castells escreveu um epílogo para o livro de Pekka e Linus Torvalds um prólogo.


Ao falar de "hackers" não corre o risco de se confundir a mensagem deste seu livro sobre a Ética "Hacker" com o mundo do cibercrime para mais num ano em que os ataques de vírus e vermes têm sido tão mediáticos?

P.H. - Primeiro que tudo, é preciso compreender que quando usamos o termo de "hacker", estamos a empregá-lo no sentido original, em que era referido no início dos anos 60 - ou seja, uma pessoa para quem programar é uma paixão. O termo nasceu com esse punhado de heróis do MIT que no princípio dos anos 60 se cognominaram de "hackers". Para os verdadeiros "hackers" a designação é um título honorífico e nobre.

Mas como é que surgiu a confusão?

P.H. - Nos media. A confusão com os cibercriminosos foi criada nos anos 80. Por isso, os "hackers", desde essa altura, que referem que o termo correcto para os criminosos é "cracker" e não "hacker". Tudo começou quando surgiram os primeiros virus conhecidos e se assistiu à criação da Legion of Doom em 1984. Foi lamentável essa confusão entre quem cria e quem destrói. Por outro lado, ao associar em excesso o "hackerismo" à informática, esbateu-se o sentido geral do termo - que tem a ver com fazer coisas com paixão, o que se pode aplicar, também, ao jornalismo ou a outra actividade.

As dot-com levaram ao extremo a ética do trabalho em torno da avidez e da compressão do tempo. Não do prazer, nem da paixão. Não têm nada a ver com a ética "hacker"

A sua tese é que estamos a reentrar numa nova era de ouro do "hackerismo", apesar do "crash" da Nova Economia?

P.H. - Direi mesmo, graças ao "crash". De facto, o choque sobre as dot-com está até a incentivar a atitude "hacker". O "crash" lembra-nos que o dinheiro não é bom guia na vida. Sobretudo na Nova Economia que é caracterizada por alta volatilidade. A cultura da Nova Economia levou ao extremo uma ética do trabalho em torno da avidez e da compressão do tempo. Não do prazer, nem da paixão. Não tem nada a ver com a ética "hacker".

Mas o que é que está a "incendiar" a paixão "hacker" de novo?

P.H. - Está a espalhar-se por ser tipicamente uma filosofia de criadores de informação e de conhecimento. A paixão sempre foi típica de artistas e cientistas, por exemplo. Ora, hoje, a criação da informação e do conhecimento não é mais uma actividade marginal na sociedade, de uns quantos eleitos e de umas poucas actividades - agora é a fonte última de criação da riqueza. O que é cada vez mais indispensável é a atitude "hacker" de valorização da imaginação e da criatividade. O que exige paixão no trabalho, como o defende Eric Raymond, um dos expoentes da cultura "hacker". Ora, o pensamento industrial, a ética do trabalho típica dessa época (que designei de "protestante", com base em Max Weber), não fomentava a criatividade, por isso se desajustou da Era da Informação.

E a globalização favorece essa atitude?

P.H. - Penso que o tipo de criatividade que a era global exige favorece a atitude "hacker", sobretudo a de abertura e partilha do desenvolvimento tecnológico, de perspectiva de longo prazo e não de constante pressa (como se extremou na Nova Economia). As grandes empresas, por si só, não conseguem ter os recursos necessários para as maiores inovações e revoluções tecnológicas. Uma só grande empresa não faz uma revolução, é necessário um grupo de rebeldes. Mas não há um grupo de rebeldes sem uma mentalidade aberta, sem uma "nética" - não confundir com netiqueta -, como lhe chamamos.

Nética?

P.H. - Uma ética de rede, de facilitação de acesso à informação e aos recursos, de abertura e de partilha.

Mas a "abertura" não é contrária à concorrência no capitalismo? O segredo e a inovação fechada a sete chaves não são a alma do negócio?

P.H. - Uma das lições mais paradoxais da história recente é que a empresa que "fecha", que não partilha, acaba por perder. A Apple perdeu para o PC da IBM, porque tinha uma arquitectura fechada. Os standards da Internet venceram, impuseram-se, porque foram desenvolvidos abertamente em contraste com a standardização como doutrina oficial. Os protocolos abertos da Web derrotaram o Gopher, em virtude de se terem espalhado rumores de que este último se tornaria em sistema proprietário. Há imensos casos de onde se pode extrair a mesma lição: se criar alguma grande inovação, deve abrí-la ao máximo para envolver outros no prazo máximo de seis meses, ou então acabará sozinho com uma tecnologia obsoleta na mão.

Uma das lições mais paradoxais da história da Sociedade da Informação é que quem NÃO partilha, acaba por perder. Há imensos casos
a comprová-lo

Qual foi o papel dessa gente célebre que foram genuínos "hackers"?

P.H. - Quando o pessoal da Internet ouve a palavra "hacker" pensa em gente como Vinton Cerf ou Tim Berners-Lee, não em criminosos. Vint foi o "pai" da Net e Tim da Web. Junte-lhe Steve Wozniak, o criador do primeiro computador pessoal, o Apple I, ou os que criaram o Unix, como Bill Joy, e mais tarde, Linus Torvalds, o criador, em 1991, do Linux, que está a desafiar o monopólio da Microsoft. Creio que quando a opinião pública perceber que as bases em que assenta a Era da Internet foram criadas não pelas grandes empresas e pelos governos, mas por gente apaixonada que partilhou as suas invenções livremente, em suma, pelos "hackers", ganhar-lhes-á respeito. Os símbolos mais conhecidos dos últimos 25 anos estão ligados umbilicalmente ao "hackerismo", são filhos dele.

Mas como é que uma filosofia de prazer pessoal no trabalho e de partilha do que se cria, como se fosse um "hobby" permanente, "casa" com o capitalismo, com a necessidade de fazer dinheiro para pagar as contas no final do mês ou ter lucro, sobretudo quando se acabou o capital de risco fácil para queimar ou o casino da bolsa?

P.H. - Como a criação de informação e de conhecimento passou a ser a fonte última de criação de riqueza na era actual, a ética "hacker" começou a ser apelativa para o mundo dos negócios. Uma empresa que não consiga incentivar a criatividade dos seus colaboradores será marginalizada. A ética "hacker" é inclusive uma base para a competitividade e não o contrário. A criatividade não é motivada sobretudo pelo dinheiro, mas principalmente pelo desejo de criar algo que a comunidade de pares achará de grande valor, reconhecerá.

No Sul da Europa de tradição católica, nunca tivemos uma ética de trabalho protestante dominante, nem um temperamento judeu exagerado, e nunca floresceu uma filosofia "hacker" nestes últimos vinte e cinco anos. Como "encaixa" a nossa situação "latina" na sua análise?

P.H. - É um tópico interessante. É provável que a escolha do termo "ética protestante" por Max Weber no seu clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (publicado em 1904/05 numa revista de Anais) tenha sido um pouco infeliz. A mesma atitude pode ser observada nalgumas culturas católicas. Rapidamente o novo espírito do capitalismo se tornou completamente independente da religião. Quanto a mim essa ética serviu o capitalismo industrial, e tanto se encontra no mundo protestante, como no católico, ou mesmo na Ásia, em países como o Japão.

SOBRE A NOVA ÉTICA DO TRABALHO
PEKKA HIMANEN EXPLICA O PORQUÊ DE UMA INVESTIGAÇÃO
A minha tese é que enquanto a moral protestante foi a ética do trabalho da Era Industrial, a moral "hacker" é a filosofia de trabalho "natural" da Era da Informação e do Conhecimento.
A ética "protestante" ensinou-nos que qualquer que fosse o trabalho exercido, devia ser encarado como um DEVER - o seu dever mais importante em vida, ou seja a mentalidade hoje convencional de que "isto tem de ser feito". Nesta moral, o sofrimento no trabalho é até considerado nobre. O Mito de Sísifo é o máximo! Sísifo é o herói!
Em contrapartida, os "hackers" devotam as suas vidas a fazer coisas com paixão - algo que acham intrinsecamente interessante, excitante e alegre. Os "hackers" trabalham naquilo em que podem ser criativos, realizam-se pessoalmente. O que é totalmente diferente da ética protestante.
A ética protestante era indispensável para a sociedade industrial, porque nela polulam actividades que não são intrinsecamente motivadoras, como qualquer um de vós sabe.
O que exigia uma moral que visse o trabalho como um fim em si e evitasse esta questão subversiva: "Porque estou eu a consumir o meu tempo em algo que não tem qualquer significado para mim e que não me permite qualquer realização pessoal?".
Esta atitude desenvolveu-se desde o século XVII, o que, em tempo histórico, é curto. Esta moral é completamente alheia à sociedade agrária pré-protestante, em que a moral cristã falava do trabalho durante a semana e do descanso ao domingo, em que não se tinha de trabalhar, separando estes dois tempos.
Os arquétipos máximos daquela moral protestante são, por um lado, as imagens do herói do trabalho soviético e do executivo ocidental "paranóico" que cita a célebre máxima de Benjamim Franklin, «tempo é dinheiro» (escrito em Conselho a um Jovem Comerciante, 1748).
A moral "hacker" nem é protestante - a condenação ao trabalho em que não nos realizamos -, nem cristã - esta última fazia uma separação entre a semana de trabalho e o domingo. A filosofia "hacker" é fazer aquilo em que se sente inspiração e prazer. Ponto final. Seja o que se clarifica de trabalho ou de lazer - essas etiquetas foram abolidas.
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