Bernard K. Gordon

«Mercosul não será 'naturalmente' absorvido
pela NAFTA»

Reputado Cientista Político em discurso directo com Jorge Nascimento Rodrigues

Bernard Gordon Uma das suas teses é que a América Latina não é um mercado «natural» para a Nafta e em particular para os Estados Unidos. Em que factos sustenta essa opinião?

BERNARD GORDON - Primeiro do que tudo, para mim não há mercados «naturais». Isso é uma falácia como eu escrevi há quase um ano na revista «Foreign Affairs» (ver artigo 'The Natural Market Fallacy', edição de Maio/Junho de 1998. Não disponível On line. Encomendar). No mundo de hoje haverá muito poucos ou quase nenhuns mercados naturais. Mas são justamente os padrões económicos do comércio e do investimento da América do Sul que o demonstram, mais do que as minhas palavras. Essas tendências demonstram, historicamente, que o comércio com aquela zona do mundo é dominado pela Europa, e não pelos EUA. Os casos do Brasil e da Argentina são, aliás, boas vitrinas disso. Para falar de um caso mais próximo de vós, as importações do Brasil originárias da Europa são 2 a 3 mil milhões de dólares por ano superiores às vindas dos EUA. Do lado da exportação, a diferença é ainda mais abissal, pelo menos desde 1988. Em 1997 essa diferença foi de 5 mil milhões, favoráveis à UE. No caso da Argentina, o contraste é ainda mais acentuado.

E no campo do investimento? Há ainda a ideia de que a América Latina é uma coutada das multinacionais norte-americanas?

B.G. - Os padrões de investimento contam a mesma história do que lhe disse sobre o comércio internacional. De acordo com estudos das Nações Unidas e da OCDE, a Europa foi o principal investidor na América Latina. A quota da Europa é quase o dobro da dos EUA no caso do Brasil, por exemplo.

Ainda que a América Latina não seja um mercado «natural» para a Europa, isso não significa uma oportunidade geo-económica interessante para uma estratégia sul-atlântica europeia, e em particular dos países latinos da Península Ibérica?

B.G. - É verdade que as firmas europeias inglesas, alemãs, italianas e suíças há muito que viram essa oportunidade, e ultimamente os dois países ibéricos, mas - repito - isso não significa que a América Latina seja um mercado «natural» vosso ou uma aventura fácil. A razão é simples: a competição é hoje global e as multinacionais japonesas, coreanas e também norte-americanas são extramamente 'agressivas'. Se a perspectiva dos consumidores latino americanos for a de comprar o melhor e mais barato, não vejo razão para que seja uma coutada dos fornecedores europeus em detrimento de outros.

Não será que o Mercosul verá, também, uma oportunidade geo-económica mais favorável na Europa?

B.G. - Eu espero que o advento do Mercosul não interfira com o normal funcionamento do mercado global. Mas, admito, que o prognóstico não é nada bom. O Mercosul pode tender a interferir com a liberdade de escolha, como os estudos infelizmente já o indicam.


Bernard K. Gordon é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de New Hampshire
e autor de «Trade Follies» que será editado no princípio do ano 2000


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