Ficha 9
A nova geração contada por Don Tapscott


Tema: A nova "geração Net"
Título: Crescendo num mundo digital
Autor: Don Tapscott (canadiano)


TESE: A emergência de uma nova geração e um conflito no horizonte


por Jorge Nascimento Rodrigues

Apresentação em exclusivo do livro editado em Outubro de 1997 na McGraw-Hill


O ano do cinquentenário do transístor promete. 1997 vai ser marcado pelo lançamento de um conjunto de obras marcantes sobre o desenvolvimento da economia digital. Nomes da galeria de gurus da "neteconomia" estão a investir somas astronómicas em marketing antecipativo dos seus livros e a utilizar o novo «media» de comunicação - a Internet e a Web - como máquina de ideias e debates prévios para o conteúdo dos futuros livros em papel. Chuck Martin, hoje um alto quadro da IBM, acabou de lançar, na Mc-Graw-Hill, The Digital Estate, uma metáfora para explicar as regras com que se cose o quinto poder emergente, baseado na economia digital e nos medias interactivos.

George Gilder vem trabalhando no seu super-anunciado Telecosmos, reportando a saga de escritos que ele tem produzido nestes últimos dois anos, nomeadamente no suplemento ASAP da revista americana «Forbes». A tese é que vivemos noutra era, que não se pode reduzir mais à "sociedade da informação" e ao computador em cima da secretária.

Foto: Don Tapscott Agora, Don Tapscott, o canadiano responsável pela popularização da ideia de que vivemos uma "mudança de paradigma" (o seu livro Paradigm Shift escrito com Art Caston, ISBN 0070628572) e que devemos aproveitar a fundo a nova "economia digital" (o seu outro livro de 1995, Digital Economy, ISBN 0070622000), vai lançar em Outubro mais uma pedrada para o charco, com Growing Up Digital: The Rise of the Net Generation, a sair também na Mc-Graw-Hill.

Ele vai imprimir, em papel, 100 mil cópias e a McGraw-Hill investiu 100 mil dólares numa campanha de promoção à escala americana, nos principais jornais de informação e fazedores de opinião (New York Times Book Review, New York Times daily, Wall Street Journal, Washington Post e Business Week) e numa rede de TV por staélite de 22 cidades. «On line» a publicidade será feita na Bookwire e através da Beta Books Online Serialization.

O tema de Growing Up Digital é altamente inflamável para a gerações actualmente dominantes, e sobretudo para a que ficou conhecida como "geração dos anos 60" (os nascidos no boom demográfico entre 1946 e 1964, segundo os marcos definidos por Tapscott).

"De novo, há uma geração numericamente significativa capaz de rivalizar com a hegemonia cultural da geração hoje liderante, explica o autor. Esta nova geração, a que chamo de «geração Net», tem um ponto forte que a outra jamais teve - está a nascer e a crescer no meio da emergência de um novo «media» de comunicação tão revolucionário como não havia memória desde a invenção da imprensa escrita".

Esta "geração Net" é formada pelos nativos a partir de 1977. Não representa apenas um solavanco demográfico (é 30 por cento da população americana) de proporções ainda maiores do que a geração de 60. Vai despoletar "uma transformação social de grandes proporções" e não pode ser posta de lado a hipótese de um novo conflito geracional no princípio do século XXI.

Escreve Tapscott: "As duas grandes gerações da segunda metade do século XX estão numa trajectória de colisão - uma batalha de titãs está para vir".

A não ser que a geração dos "Amigos de Alex" perceba o que se passa e deixe de considerar a sua futura rival como uma "geração rasca", ultra-individualista, viciada na violência dos jogos de vídeo e alimentada quase desde o berço com curiosidades imorais na Net.

A questão estrutural subjacente é que entre a geração actualmente dominante e esta juventude emergente não há apenas um fosso cultural e ideológico (o célebre «generation gap») - como havia entre a geração revolucionária dos anos 60 e os seus pais nascidos no início do século e forjados em tempos de guerra.

Agora há "um desfasamento de níveis" (um «generation lap») entre uma meninice e adolescência que encara as novas tecnologias como sua "extensão natural" e dá cartas em casa e na escola nesse campo, e uma geração dominante que "adere" ou se vê condenada a usá-las "sob grande pressão".

Esta gerãção emergente "coincide com a revolução digital" e nada tem a ver com a "Geração X" pintada a negro e popularizada a partir do romance de Douglas Coupland, que para Tapscott é apenas um último resquício da geração anterior.

A "Geração da Net" tem um poder imenso entre mãos. Está a ser "cultivada" num ambiente interactivo, conectivo. Não é uma geração de ouvintes ou expectadores. É uma geração de utilizadores, criadores e comunicadores.

"Não é por acaso, constata o autor, que as crianças e adolescentes são hoje uma força pioneira nos lares e nas escolas no uso da Net, do correio electrónico e da Web. E, mais do que isso, ela está a tomar o controlo dos mecanismos críticos desta revolução da comunicação. A hierarquia do saber começa a estar de pernas viradas para o ar. A nova geração aprende, diverte-se, comunica e trabalha num patamar a que a geração dos pais não chega".

Pelo meio há uma geração da terra-de-ninguém (nascida entre 1965 e 1976) que não teve projecto e se vê hoje dilacerada nas escolhas. Mais outro factor de perturbação.

O curioso deste livro é que foi fabricado em parte na própria Net.

O projecto de pesquisa foi liderado por Kate Baggot (de 24 anos) que organizou um «site» disponível a partir de 21 de Outubro de 1997
(www.growingupdigital.com) com uma equipa de seis outros jovens denominada «Kids'Energy» (nome de guerra KIDSNRG) por onde passou um debate colectivo com mais de 300 crianças, adolescentes e jovens entre os 4 e os 20 anos de todo o mundo.

Teve um grande empurrão com o envolvimento activo da comunidade «em linha» FreeZone (www.freezone.com) que agrega 30 mil jovens.

A própria ideia do livro germinou na cabeça de Tapscott a partir de uma conversa entre a sua filha Nicole e uma amiga de férias, combinando a melhor forma de se continuarem a comunicar. Teve depois o apoio da Alliance for Converging Technologies, uma instituição impulsionada por Tapscott e patrocinada por grandes empresas.

Muito do material de investigação estatística no campo das tendências da juventude foi conduzido pela Teenage Research Unlimited.


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