Ficha 4
A Overdose dos Tempos Actuais


Tema: O nevoeiro dos excessos de informação
Título: Data Smog
ISBN: 0060187018
Autor: David Sherk (norte-americano)


TESE: É preciso responder desde já a esta overdose

por Rui Trindade

Publicado originalmente no Expresso



Foto: David Shenk O movimento é ainda incipiente, mas a TV-Free America, uma organização independente norte-americana, vem, há já alguns anos, propondo a realização regular de uma «National TV-Turnoff Week», isto é, de uma «semana sem televisão».

Este exercício, entendido como uma experiência de «desintoxicação mediática», é visto com apreço por David Shenk, em «Data Smog», um livro recentemente editado nos Estados Unidos e que tem sido alvo de uma interessante controvérsia.

Ao contrário de algumas outras obras, também recentes, como «Silicon Snake Oil» ou «The Gutenberg Elegies», o trabalho de David Shenk não é, no entanto, o de um «ludita», assustado com as consequências da revolução tecnológica contemporânea, mas antes o de alguém que procura equacionar os problemas levantados pela «sociedade da abundância informativa» em que vivemos.

Nesta perspectiva, e tomando como paralelo outros problemas (poluição, excessos alimentares, etc.) também decorrentes da «abundância» - e com os quais a sociedade americana já teve de lidar - a proposta de Shenk vai no sentido da necessidade de se começar a definir o que poderá ser uma «ecologia da informação», uma estratégia que permita aos indíviduos não sucumbirem de uma «overdose» comunicacional, o que, na sua perspectiva, é uma ameaça muito real neste fim de século.

Com efeito, analisando a evolução das sociedades, na sua passagem da escassez à abundância informativa ( «uma única edição do «New York Times» contém tanta informação quanta uma pessoa no século XVII dispunha ao longo da sua vida») Shenk interroga-se sobre a capacidade dos indivíduos - mesmo de um ponto estritamente físico - lidarem com um universo cada vez mais «denso» e saturado de mensagens.

Esta debilidade, ainda mal compreendida, afecta já, no entanto, e de um modo muito evidente, o comportamento dos indíviduos - veja-se, por exemplo, toda a recente literatura em torno da chamada «Attention Deficit Disorder», isto é, a crescente incapacidade de concentração resultante da proliferação em excesso de estímulos comunicacionais.

Este «mal», verdadeiramente emblemático da sociedade de informação - e que William Gibson antecipara, de algum modo, ficcionalmente, em «Neuromancer» - decorre não apenas da constante aceleração alimentada pelas tecnologias de informação e comunicação (entre 1965 e 1995, o tempo médio de um anúncio de televisão baixou de 53.1 para 25.4 segundos), mas também da crescente «ligação» de todas as esferas da vida moderna à «corrente informacional», indiferentemente do facto de se tratarem de espaços públicos (transportes urbanos, zonas comerciais,etc.) profissionais (computadores portáteis, telefones celulares,etc.) ou privados (televisão por cabo ou satélite, internet, etc.).

A isto terá de somar-se ainda uma crescente diversificação nos «emissores» de informação - empresas de relações públicas, agências de comunicação, institutos especializados, «think tanks», etc. - e uma nova e apurada sofisticação na produção das mensagens comunicacionais concebidas agora «à medida» dos públicos a que se destinam.

Mas a interrogação central de Shenk prende-se sobretudo com a percepção de que a actual «sobrecarga informativa» acarreta uma perigosa rarefacção na «produção de sentido», bem vísivel, aliàs, na capacidade de se produzirem «dados», «estudos» e «experts» capazes de sustentarem todo e qualquer ponto de vista.

Uma preocupação tanto mais pertinente quanto, a actual tendência para a «nichificação» das sociedade avançadas faz temer que uma «tribalização» de grupos de interesses e de «estilos de vida» torne impossível qualquer consenso social alargado.
Sem pôr em causa os benefícios da «revolução da informação», o que o autor de «Data Smog» procura então demonstrar é a necessidade absoluta de um reequilibrio que, eliminando os excessos, permita dissipar a presente «poluição informativa» e, sobretudo, torne clara a indispensável distinção entre informação e conhecimento.