As três revoluções do capitalismo
no século XX

Boneco:Marx e Gates
Recensão por Jorge Nascimento Rodrigues
Publicado no caderno de Economia do EXPRESSO em versão mais reduzida

O que levará um professor de gestão francês a querer perceber o itinerário histórico entre dois personagens tão diferentes como Karl Marx e Bill Gates, é no mínimo intrigante.

"São dois símbolos um pouco míticos do imaginário deste século. O primeiro é do século passado, mas a influência dele foi muito profunda em diversas gerações do século XX. O segundo é um símbolo de uma geração ganhadora de final de século e tem a ver com outro paradigma", explica-nos Bruno Lemaire (blemaire@club-internet.fr), professor do HEC, uma escola de gestão dos arredores de Paris, que acaba de tornar público um projecto de investigação precisamente intitulado "De Marx a Gates", tendo disponíveis duas versões - uma mais abreviada na Web (começando em www.reseau.org/rad/lemaire1.htm) e outra em livro.

O seu trabalho permite uma reflexão sobre o trajecto do capitalismo através das três revoluções «internas» que mais o marcaram no século XX - a revolução política, a revolução da gestão e a revolução do saber.

Todas elas tiveram os seus protagonistas principais - a política foi levada a cabo por uma organização de «revolucionários profissionais», a da gestão corporizou a nova organização empresarial e foi feita pelos gestores profissionais, e a do saber trouxe para a primeira linha os empreendedores inovadores e as suas organizações flexíveis que cavalgaram a revolução da informação e, mais recentemente, a revolução das comunicações.

Como se vê todos eles são «profissionais» - um termo que ganharia carga de marketing - e todos eles têm «organizações» coladas ao seu dia-a-dia.

Mas houve diferenças de monta entre elas.

A primeira revolução foi ruidosa, idealista nos seus primórdios, provocou grandes alterações geo-políticas e da forma de governar no próprio capitalismo durante várias décadas, mas fracassou. Teve um profeta, Karl Marx (1818-1883), e um «prático», o russo V. I. Lenine (1870-1924). Marx, diz Lemaire, foi dos primeiros «economistas» a perceber que o capitalismo era "um sistema adaptativo, onde os diferentes agentes interagem, tendo como resultado a emergência do fenómeno da luta de classes, que ele julgava ser o motor da história económica e social".


Os cataclismos silenciosos


As outras duas revoluções deste século foram silenciosas, subterrâneas, não são referidas nos manuais políticos nem de economia, mas foram verdadeiros cataclismos triunfantes e, parafraseando Marx, provavelmente contra a sua vontade, revelaram dois "motores da história" bem diferentes e inesperados - o gestor profissional e o empreendedor inovador.

Foto de Alfred Sloan O gestor profissional foi moldado por Alfred P. Sloan Jr.(1875-1966) à frente da General Motors e foi «descoberto» teoricamente por Peter Drucker, um austríaco emigrado nos Estados Unidos, que criaria no final dos anos 40 a doutrina da gestão a partir dessa observação empírica. Sloan ficou imortalizado com a actividade da Alfred Sloan Foundation (www.sloan.org) e em particular com a Sloan School of Management (web.mit.edu/sloan/www) no MIT. Drucker acabou por ser considerado o «pai» do management.

Diz-nos, com alguma graça, Lemaire: "A revolução organizacional foi a forma das grandes empresas, que tinham entrado na era da produção de massa, estandardizada, imaginada por Henry Ford, não ficarem esmagadas pelo peso do seu próprio gigantismo".

Por seu lado, o empreendedor inovador foi o herói de toda a obra de um outro economista austríaco, deixado na penumbra durante muito tempo, Joseph Schumpeter (1883-1950), que emigraria para Harvard, nos Estados Unidos, em 1932. A obra do autor publicada em língua inglesa pode ser consultada através da Amazon.com, procurando a partir do nome do autor. (Em português, há a tradução recente pela Celta Editora, de Oeiras, dos «Ensaios - Empresários, Inovação, Ciclo de Negócios e Evolução do Capitalismo»).

Hoje está a ser redescoberto, na medida em que as revoluções da informação e das comunicações, desde o final dos anos 40 (recorde-se que o transístor, a faísca que despoletou a terceira vaga, surgiu em 1947), têm aberto a porta à afirmação deste tipo de empreendedores, de que o melhor protótipo é, sem dúvida, Bill Gates, um miúdo cocabichinhos da informática surgido num desconhecido liceu americano que passou a homem mais rico do mundo nos últimos vinte anos, segundo as listas da fortuna.


Os pensadores descontínuos


Provavelmente esta é uma abordagem pouco ortodoxa e lança para a ribalta personagens que poderão não ser as mais medalhadas e reconhecidas oficialmente. Este «olhar» de Bruno Lemaire sobre a evolução do nosso sistema desde o industrialismo das chaminés até à nova economia do saber e do digital é feito percorrendo o pensamento de economistas que foram claramente "pensadores descontínuos", como designa este tipo de gente o filósofo de gestão inglês Charles Handy, da London Business School.

Karl Marx já não move paixões extremadas de um lado e de outro e, por isso, a sua avaliação pode ser feita em sossego utilizando o processador de Gates e não o megafone. Marx foi claramente um dos profetas da descontinuidade.

"No plano puramente teórico da economia, ele estava extraordinariamente avançado em relação aos economistas da sua época, incluindo os afectos ao modelo do equilíbrio geral. Os esquemas marxianos de reprodução simples e alargada que vêm no O Capital eram intrinsecamente dinâmicos", refere-nos Bruno Lemaire. O que o mataria teoricamente "foi ele continuar prisioneiro de modelos lineares e deterministas, típicos, aliás, da época", sublinha o autor de De Marx a Gates.

Foto de Schumpeter Quanto a Schumpeter, o reconhecimento do seu papel é um acto de justiça, justifica-se Lemaire, que o cita longamente neste ensaio. "Penso que é efectivamente um dos raros economistas a colocar a dinâmica e o empreendedor no coração das suas análises teóricas", apesar do seu brilho ter sido literalmente apagado na época pela projecção do inglês John Maynard Keynes (1883-1946), que chegaria a Lorde. Peter Drucker, que privou com Schumpeter de perto ao longo da vida deste, considerou-o como "o profeta da era da descontinuidade".

A divulgação do seu pensamento tem ultimamente crescido em todo o mundo e em particular na Europa. Uma associação internacional científica em torno da sua herança intelectual foi criada em 1986, a International Joseph A. Schumpeter Society (ver em www.wiso.uni-augsburg.de/vwl/hanusch/iss.htm), que funciona a partir da Universidade de Augsburg, na Alemanha. Esta associação promove concursos de dois em dois anos sobre o pensamento daquele economista. Este ano (1998) o tópico é o «Capitalismo e a Democracia no séc. XXI» (ver regulamentos do Prémio Schumpeter 98 na home page acima assinalada ou contactando directamente o Prof. Horst Hanusch - horst.hanusch@wiso.uni-augsburg.de).

Também o dinamarquês Esben Sloth Andersen (esa@business.auc.dk) é um dos académicos mais militantes da causa com uma forte exposição na Web (ver em www.business.auc.dk/evolution/esa).

Esta obra de Bruno Lemaire vem «geneticamente» na sequência de um livro anterior sobre Empreendedores e Empresas de Quarto Tipo, já abordado na Janela na Web.

AS TRÊS REVOLUÇÕES
DO SÉCULO XX
E OS SEUS PROTAGONISTAS
  • A revolução política e o «revolucionário profissional»
  • A revolução da gestão e o gestor profissional
  • A revolução do saber e o empreendedor da «terceira vaga»
  • OS TRÊS ECONOMISTAS DA DESCONTINUIDADE
  • Karl Marx que pretendeu dar consciência do seu papel histórico a uma das classes que seria a coveira do sistema industrial
  • Joseph Schumpeter que deu consciência do seu papel ao empreendedor inovador
  • Peter Drucker que deu consciência do seu papel ao gestor
  • OS TRÊS «PRÁTICOS»
  • V. I. Lenine que criou a organização dos revolucionários profissionais
  • Alfred P. Sloan Jr. que criou a grande organização empresarial gerida por gestores profissionais
  • Bill Gates que é o protótipo do empreendedor da terceira vaga
  •