Ficha 11
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com Vinton Cerf, Gordon Bell e Bob Metcalfe

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O PC deixou de ser o centro da computação

Trio de históricos debate transição do paradigma do computador pessoal para o das comunicações

Jorge Nascimento Rodrigues no «pivot»

Publicada em versão mais reduzida no caderno XXI do Expresso


Num ponto estão de acordo. Atravessamos um período de transição para uma época onde as comunicações serão centrais. Se isso é ou não uma nova "vaga" divergirão entre si. E alguns não poupam a ousadia do economista Paul Romer em "decretar" o fim da era do transístor, para o sucesso da qual os três contribuiram decisivamente.

A propósito dos 50 anos do transístor e do aniversário da primeira associação ligada à computação - a Association for Computing (ACM - www.acm.org) também criada em 1947 (então com o "M" significando "machinery", máquinas, palavra que depois deixaram cair) - fomos ouvir um trio de «históricos» de uma geração que já inscreveu o seu nome neste meio século.

Vinton Cerf Vinton Cerf (vcerf@MCI.net) é apresentado pela MCI, onde é vice-presidente para a área de arquitecturas de dados, como o "pai da Internet" - a ele se deve em 1973 os protocolos TCP/IP e com Robert Kahn desenhou a arquitectura básica da Internet.

Gordon Bell (gbell@MICROSOFT.com) é tido como o "pai do minicomputador", foi vice-presidente de Investigação & Desenvolvimento da Digital, empresa onde esteve mais de vinte anos, e hoje é um dos gurus da Microsoft.

Robert (Bob) Metcalfe (bob_metcalfe@infoworld.com) foi o inventor também em 1973 da tecnologia Ethernet, que permitiu criar redes locais de computadores, e presidiu à Conferência do 50º aniversário da Associação realizada em São José, da Califórnia, entre 1 e 5 de Março deste ano (ver em www.acm.org/acm97).

O debate aqui relatado não se realizou fisicamente. Nem ainda por teleconferência ou em «chat». Mais "ciber-artesanalmente" colaram-se numa mesa redonda imaginária as respostas dadas por correio electrónico .


Entre as vossas previsões mais optimistas nos últimos trinta anos, quais delas se vieram a verificar estar redondamente erradas?

VINTON CERF -- Que o correio electrónico [criado por Ray Tomlinson em 1972] daria o grande salto em 1985 - o que só ocorreu em 1992...

Bob Metcalfe BOB METCALFE -- Se eu tivesse acertado mais quando estava à frente da 3Com - onde estive entre 1979 e 1990 - , hoje, certamente, não existiriam empresas como a Novell, a Cisco ou a Bay. Seguramente, sobrestimei o que uma empresa sozinha, só por si, pode fazer. Veio a verificar-se que a focalização é muito importante para o sucesso. Não se pode escapar, culturalmente, a ela.

GORDON BELL -- Eu previa que o computador pessoal [o primeiro, o Altair 8800, lançado em 1975] se tornaria útil para toda a gente e que se generalizaria em massa em 10 ou 15 anos...

E o que é que vos surpreendeu mais nestes trinta anos?

METCALFE -- Nos anos 70 nunca pensava que pudesse aparecer o correio electrónico e nos 90 fui apanhado de surpresa pela Web. Será um sintoma do meu envelhecimento?

CERF -- A mim, o caminho da digitalização de tudo - basta olhar para dentro de uma fotocopiadora e encontramos uma boa dose de computação. O mesmo começa a acontecer com os carros. E, dentro em breve, será com os electrodomésticos. A Web também me surpreendeu. Será melhor do que a Enciclopédia - vai transformar-se num verdadeiro repositório do Saber da Humanidade, globalmente acessível e infinitamente expansível.

Gordon Bell BELL -- Bom, sobre a Web, ainda falta algum tempo para ela satisfazer os desejos dos investidores... Por isso, no curto prazo, é uma maravilha e simultaneamente um fiasco financeiro. Mas, no longo prazo, quando ela substituir os telefones, mesmo os videofones, e grande parte da TV, então será olhada como uma milagre revolucionário!

E em relação às tendências em curso na computação e que irão ter impacto nas próximas décadas, qual vos espanta mais?

BELL. -- A possibilidade de gravar tudo o que aparecer em cima das nossas secretárias quer pela via escrita ou oral.

CERF -- Seguramente a integração do software e de processos autónomos no nosso dia-a-dia. A integração dos computadores e da nanotecnologia com os nossos corpos e cérebros. Os implantes no canal auditivo são um exemplo assombroso desse novo mundo.

METCALFE -- Creio que vamos assistir a uma substituição massiva dos transportes pelas comunicações. E continuaremos a assistir ao crescimento dos serviços, da informação, e especialmente das indústrias do lazer.

Acham que já entrámos noutra "vaga", uma quarta, completamente diferente daquela baptizada por Alvin Toffler, nascida com o transístor há 50 anos e cujo aparelho mais emblemático é o computador pessoal?

CERF -- Sim, sim. A nova "vaga" gira totalmente à volta das comunicações. E a Internet está a ter, justamente, um profundo impacto neste aspecto da computação.

METCALFE -- Desculpem, mas eu perdi o rasto a várias "vagas" (risos), incluindo a de Toffler. Mas se querem a minha opinião, eu acho, de facto, que o computador pessoal, o PC, está ultrapassado - especialmente a versão Windows/Intel. Estamos a mover-mo-nos para os computadores de rede, os tais NC.

BELL -- Eu acho que ainda falta muito para sabermos comunicar facilmente com estas máquinas - os PC - e enquanto elas nos ajudarem imenso, continuarão a poder fazer muito. A razão é que a revolução dos microsistemas [sistemas computacionais completos num «chip»] - de que eu falo - ainda está para acontecer. Só haverão hoje uns 100 milhões de pessoas com PC... Ainda são uma gota no oceano!

Mas será que a Era do Transístor está mesmo no fim, como escreveu, recentemente, o professor Paul Romer?

METCALFE -- No fim?! Não, quando muito a meio. Mas declarações como essa serão realmente relevantes?

CERF -- Eu espero que ainda haja muito por percorrer no campo da integração de sistemas - nomedamante para o VLSI - e a nanotecnologia está, apenas, no ínicio.

BELL -- Não conheço esse trabalho de Romer. Mas acredito que a Era do transístor e do circuito integrado está, apenas, no começo...

Mas estamos ou não num período de transição da computação para as comunicações, do computador como uma «ferramenta» de trabalho pessoal para um oceano de máquinas interligadas que funcionam como um novo «media»?

BELL -- Eu nisso estou de acordo! E a telepresença é isso mesmo. É nisso que eu estou pessoalmente interessado, e em que aposto fortemente.

CERF -- Nisso concordo totalmente.

METCALFE -- Volto a repetir - o PC está ultrapassado. Os aficionados pasmavam no que conseguiam fazer com ele quando a rede estáva na mó de baixo. Hoje os adeptos dos computadores de rede ficam embasbacados com o que podem fazer com os seus computadores agora que ela está na mó de cima. Os utilizadores o que agora desejariam - se o não puderem ter em simultâneo - é uma duplicação da velocidade de transmissão (os bits por segundo) em relação à da computação (as instruções por segundo). Isso é óbvio.

E acham que é possível "encurralar" - se me é permitida a expressão - o ambiente Internet/World Wide Web em mais um íconezinho no meu écran, tal como tenho lá uma série de outros?

METCALFE -- Não. Nem sequer é muito útil ter ícones para vários «media». Nem mesmo para vários programas de aplicações. Se calhar, nem faz sentido algum ter ícones! (Mas, esta não é a minha área).

CERF -- De facto, não é assim tão fácil "encurralá-las" - mas talvez pudessemos ter ícones para determinados serviços em rede...

BELL -- Pelo meu lado, à sua pergunta, eu respondo que, por agora e para certos ambientes, sim. No longo prazo, bom, aí, eu penso que as coisas vão evoluir para o modelo de WebTV.

Daqui a 50 anos, acham que a Association for Computing (ACM, e originalmente em 1947 Association for Computing Machinery, a primeira do género em todo o mundo) manterá o mesmo "C" de computação, ou transformá-lo-á noutra coisa diferente, mais consentânea com esta mudança generalizada para o paradigma comunicacional?

BELL -- Sinceramente, não vejo razão alguma para mudar de "C". Eu sempre insisti que as comunicações são parte integrante dos ambientes de computação.

CERF - É provável que conserve o nome, até em honra da história, mas seguramente significará muito mais do que as suas origens implicavam.

METCALFE -- A ACM deverá sempre ser ACM. O "C" terá significados mais envolventes. Eu, também, sempre disse que a computação incluía a comunicação, pois ela serve em grande parte para isso mesmo.

Pensam que a Lei de Moore [do nome do fundador da Intel, segundo a qual o número de transístores num microchip duplicaria em cada 18 meses] vai continuar por mais umas décadas, ou iremos assistir a um corte inesperado com o aparecimento de um novo dispositivozinho, por exemplo, quântico ou baseado no ADN?

METCALFE -- A Lei de Moore vai persistir. E até talvez implique, no longo prazo, a sua generalização para além dos semicondutores, para o campo da computação óptica, quântica, genética, e sei lá o quê mais.

CERF -- Eu acho, pelo contrário, que a computação quântica é precisamente o próximo grande desafio e que, provavelmente, representará o fim da lei de Moore.

BELL -- Eu penso que, pelo menos, até 2010 ela vai continuar a funcionar.

E qual vai ser a grande aplicação computacional que vai triunfar no futuro próximo?

BELL -- Eu acredito que tendo mais largura de banda será possível o teletrabalho e a telepresença em massa. E creio que o reconhecimento de voz é uma área muito promissora, apesar de até agora haver mais exagero do que realidade no discurso sobre as possibilidades dessa tecnologia.

METCALFE -- A minha aplicação preferida também é a telepresença. Mas, chamo a atenção para uma tecnologia minha favorita, que vai dar origem certamente a muitas aplicações-chave, a que eu chamo de "filtragem colaborativa", ou seja, uma comunidade de utilizadores que partilha recursos e avaliações para se conseguir navegar pelo meio desta fartura louca de informação!

CERF -- A crescente capacidade dos computadores em terem sensores para captar o som, a imagem e outras modalidades (radio, raios x?) pode originar muito bem novas formas de inteligência artificial. Designs de redes neuronais acopladas com bons sistemas sensoriais, podem permitir-nos "ensinar" os computadores em vez de os programar. Quanto ao curto prazo, a minha aplicação favorita são sistemas autónomos de software a que eu chamaria de (nossos) "escravos" (software slaves), para escolher uma expressão bombástica.


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