Reconciliar humanismo com tecnocratismo

Entrevista sobre o livro What Will Be

Jorge Nascimento Rodrigues com Michael Dertouzos (falecido em 2001)
no MIT em Cambridge


Fala em «What Will Be», este seu último livro, de uma nova revolução socio-económica em curso semelhante no impacto e na escala às duas anteriores revoluções industriais do capitalismo. É, finalmente, a Terceira Vaga em pleno, anunciada pelo casal Toffler? Ou até essa já é coisa do passado, a acreditar no economista Paul Romer (que decretou a morte da Era do Transístor, no cinquentenário recente deste) ou no agitador George Gilder que anda a falar da "revolução telecósmica" por oposição à "microcósmica" (a do «chip» e do PC)?


Foto de Michael Dertouzos MICHAEL DERTOUZOS - Desculpe, mas não consigo estar a par de tudo o que gente, tão brilhante sem dúvida, anda a escrever ou dizer. Para mim, continua a ser simples: houve a revolução agrária, depois duas revoluções industriais (a da máquina a vapor primeiro, e mais tarde a do motor de combustão e a da electricidade) e, mais perto de nós, a revolução da informação - inclua nela o computador e as comunicações.

Mas será que poderemos "encurralar" a Internet e a World Wide Web em mais um ícone no écran do nosso computador, mais um adereço na plataforma do PC? Estas novas ferramentas - e as que estão para aparecer baseadas na tal "proximidade electrónica" de que nos fala neste seu livro - são mero «software» ou são mais do que isso? Não serão um novo ambiente, um novo medium, comparável à revolução da imprensa com Gutenberg?


M.D. - Mas, em termos práticos, qual é a diferença entre ser um "mero" software ou um novo ambiente? Com a Web há já 40 milhões que estão a fazer coisas com esse íconezinho no écran que dantes não faziam. Contudo, ainda é uma gota no oceano. Estamos muito longe do que irá ser - what will be, como diz o título do meu livro. Quando a Web estiver por todo o lado, então será um movimento enorme.

Ao longo de todo este seu livro fala-se da lamentável divisão entre duas "culturas" (como lhe chamava C.P. Snow) no seio da intelectualidade nos últimos 200 anos - entre tecnocratas e humanistas. Será que, com a sociedade digital, poderá haver reconciliação numa nova plataforma ideológica?


M.D. - Sinceramente, esse é o meu desejo, que haja uma integração - como eu lhe chamo - entre humanismo e tecnocracia. Não lhe sei dizer se isso irá acontecer ou não, mas que o desejo, é bem verdade. É estúpido, se tal não acontecer. Mas, como já não é a primeira vez na história, que se actua estupidamente...

Outra das suas teses, é que na sociedade como na economia não se pode deixar o mercado ao deus dará, entregue a si próprio. Esta conclusão válida para o capitalismo continuará a funcionar na tal sociedade futura assente no que você chama de "mercado da informação"?


M.D. - É sempre válida - e independente do mercado da informação. Não será, por isso, que sempre tivemos governos e igrejas, universidades e museus... para lidar com as necessidades "não mercantis" do ser humano? O mercado da informação, de que falo, não é outro mundo. É o nosso - só que com ferramentas novas. Por isso, não está alheado dessa necessidade universal.

Os gurus da informação mais bem sucedidos, e ricos, começaram recentemente a interessar-se pelos "problemas humanos" - veja-se a criação da fundação 2B1 por Nicholas Negroponte, virada para as crianças do terceiro mundo sem acesso à informação. É uma nova tendência que desponta? A sua proposta de um Virtual Compassion Corps vai no mesmo sentido?


M.D. - Nova tendência? Não faço ideia! O que me parece é que, à medida que a tecnologia amadurece, as pessoas, naturalmente, começam a perguntar e a preocupar-se com os seus impactos.

Na corrida para esse futuro do "mercado da informação", como é que estão a Europa e o Japão? E que hipóteses realistas vê para a União Europeia na chamada sociedade da informação, já que o professor também é cidadão europeu (de origem grega)?


M.D. - A Europa e o Japão estão claramente atrás dos Estados Unidos. E, na Europa, os cidadãos não estão assim tão excitados sobre o futuro. Como europeus, continuamos a julgarmo-nos "superiores", mais sofisticados e experientes culturalmente e olhamos sobranceiramente para estes "artefactos" e novidades que vêm do outro lado do Atlântico. Já agimos assim anteriormente, em relação à Coca Cola e à comida rápida. Agora toda a Europa, de lés a lés, está pejada disso! Sinceramente - como europeu que também sou - desejaria que largassemos essa sobranceria, e saltassemos para o combóio e utilizassemos a fundo as novas tecnologias. Elas poderiam servir muito melhor e mais rapidamente os nossos próprios propósitos enquanto europeus.

Um dos fantasmas agitados sobre a Net é que ela continua a alimentar o isolamento e o individualismo criado pela TV e pelo PC. Tem fundamento, ou, pelo contrário, a Net e a Web estão a recriar novas comunidades de pessoas, algo que se tinha perdido antes?


M.D. - Absolutamente. Eu escrevi mais de 100 páginas neste meu livro sobre o renascimento das comunidades - toda a terceira parte, aliás.

E que perigos nos espreitam por detrás da rede?


M.D. - Um fosso maior entre ricos e pobres, problemas graves quanto à privacidade e lixo, muito lixo informativo... Mas, também, uma vida melhor do lado das promessas e expectativas optimistas.

Entre os "perigos", será que o futuro mercado da informação vai ser dominado por poderosos oligopólios ou alianças oligopolistas? Ou vamos ter uma situação mais equilibrada?


M.D. - A meu ver, nenhuma empresa ou grupo poderá vencer em tudo, poderá dominar tudo. O espaço é grande demais e está cheiro de jogadores. E isto é uma situação muito diferente, a meu ver, da época industrial. Eu espero mesmo um muito maior número de pequenas empresas do que nos dias da era industrial.

Há também uma crítica no seu livro à ideologia e à estratégia dos fornecedores de equipamentos e de «software» e em relação aos criativos deles que, ao conceberem e desenharem os produtos e serviços, pensam pouco em nós - são pouco fãs do "amigável com o utilizador" (para usar esta expressão, à falta de melhor). O que é que há de errado com toda esta gente?


M.D. - Não há nada de transcendente - nós cometemos o mesmo erro aqui no Massachusetts Institute of Technology. Temos que ver que estamos a falar de uma nova área com novos mecanismos e no começo tendemos a focalizarmo-nos mais no mecanismo (para o fazer funcionar) e só depois, mais tarde, na sua utilidade para os utilizadores. As máquinas e o software tornar-se-ão muito mais simples no futuro, pode crer.

Escreveu, também, outra afirmação polémica - que a economia digital emergente não é assim tão diferente da velha ordem capitalista dos produtos e serviços "em átomos". Ainda recentemente Kevin Kelly na revista «Wired» e os estudos de Paul Romer insistem exactamente no contrário. Acha que toda essa excitação à volta das "novas leis" da economia digital não se justifica?


M.D. - Sem entrar em considerações em relação a colegas e amigos, que têm dito coisas muito úteis, eu acho que há grande exagero. Eu tanto vejo industriais de sapatos vendendo no mercado da informação com o mesmo à vontade que na loja, como vejo o oposto, com o aumento de um novo tipo de intermediários.


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