A reforma 'realista' do FMI

É a «terceira via» entre os defensores de um regresso à ditadura sobre os movimentos de capitais e o radicalismo de alguns académicos e especuladores que querem ver o Fundo Monetário Internacional desmantelado. A alternativa é repensar a arquitectura do sistema monetário internacional a partir de propostas politicamente exequíveis sobretudo tendo em conta os graves problemas das economias emergentes. Um ex-consultor sénior do FMI conhecido dos meios financeiros portugueses explica como.

Uma entrevista exclusiva de Jorge Nascimento Rodrigues com Barry Eichengreen no Evans Hall da Universidade da Califórnia em Berkeley. Mais uma 'intervenção' do Ardina na Crise.

O caminho não é tanto mexer no Fundo Monetário Internacional (FMI), mas mudar algumas regras do jogo da arquitectura financeira internacional. Algumas das medidas urgentes são politicamente exequíveis, segundo Barry Eichengreen, um ex-consultor sénior do FMI em 1997/98, e que é professor de Economia e de Ciência Política na Universidade da Califórnia em Berkeley (Área de Economia aqui).

Doutorado em Economia pela Universidade de Yale, foi aí colega do ex-ministro Braga de Macedo, e já visitou o nosso país diversas vezes, a convite do Banco de Portugal, da Caixa Geral de Depósitos e de governos.

Livro: Toward a New International Financial Architecture Eichengreen editou, recentemente, através do Institute for International Economics, uma obra onde desenvolve os seus pontos de vista, intitulada Toward a New International Financial Architecture (compra do livro). Entrevistá-mo-lo no seu gabinete em Berkeley, a convite da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento.

 Leia aqui o Prefácio da Obra 

Toda a gente fala da reforma inadiável do Fundo Monetário Internacional. Mas, aparentemente, nada se faz. Porquê?

BARRY EICHENGREEN - Não é porque haja falta de ideias e propostas. Bem pelo contrário. Como resultado do actual debate, por vezes muito aceso, elas até abundam. Pelo menos quatro governos dos 'grandes' já apresentaram propostas - o francês, o alemão, o canadiano e o norte-americano. Depois os Grupos dos 22 (que envolve países desenvolvidos e menos desenvolvidos) e dos 7 já produziram relatórios e declarações sobre a matéria. São imensas as vozes da academia e até dos mercados financeiros a avançar com esquemas adicionais. Até Michel Camdessus, director do FMI, já proferiu uma série de discursos sobre a matéria.

Então, porquê o marasmo no meio de tanta fartura?

B.E. - Muitas destas propostas são inclusive contraditórias e incompatíveis. O problema político é pegar nalgumas delas e pô-las em prática. A minha abordagem é diferente em dois pontos. Primeiro, eu acho que há que actuar sobre o sistema - sobre a arquitectura financeira internacional - e não primordialmente sobre o FMI. E, em segundo lugar, devemos centrar-nos em ideias práticas, exequíveis, que tenham hipótese, e aqui entra o contexto político.

Um ambiente politizado

Aliás, o professor é conhecido como um pragmático...

B.E. - Isso reflecte o meu temperamento. Não sou um teórico abstracto. E tem a ver com a minha própria docência. Como sabe, sou professor tanto de Economia como de Ciência Política aqui em Berkeley. A política económica e financeira está forçosamente enquadrada num ambiente politizado. É ingénuo crer que as instituições que ditam as políticas nestas áreas possam seguir regras apolíticas rígidas. Aliás, a minha experiência no FMI só me reforçou esta minha convicção.

Barry Eichengreen Falando da arquitectura global do sistema financeiro mundial, muitos analistas espalham a opinião de que precisamente as instituições nascidas com Bretton Woods já não servem. Concorda?

B.E. - É preferível irmos por partes. É um facto que o mundo se transformou imenso nas últimas décadas. As tecnologias de informação e agora a Web mudaram completamente o jogo financeiro. E, então, estando aqui ao pé do Silicon Valley, é impossível ser cego! Hoje em dia o capital pode movimentar-se pela Internet inclusive. A desregulação financeira é imparável. E a democracia é contra o controlo dos capitais. O meu ponto de vista é que a mobilidade de capitais veio para ficar, é a vaga do futuro. É inevitável e irreversível.

Instabilidade é incontornável

Mas qual é o reverso dessa medalha?

B.E. - Ponto prévio: os benefícios desta mobilidade de capitais são imensos. Mas, os mercados financeiros não são perfeitos. Eu concordo que a mobilidade de capitais tem um lado escuro. Certamente, parafraseando Winston Churchill diria, neste caso, que ela é a pior forma de alocar dinheiro, exceptuando todas as outras formas que são bem piores. E como os mercados financeiros são caracterizados pela assimetria de informações poderão gerar crises financeiras. Elas poderão ocorrer, certamente, com diferentes sabores. Mas o problema da instabilidade é incontornável: hoje em dia é um facto que os factores financeiros têm um papel muito forte. E no futuro será ainda maior. O que é que resulta daqui? Que é preciso identificar medidas que possam minimizar a incidência dessas crises e ajudar a resolvê-las com o mínimo custo. A meta não é construir um sistema financeiro que seja imune às crises. Seria em vão.

SEIS VERDADES
  • A mobilidade de capitais veio para ficar
  • As crises financeiras são inevitáveis
  • É necessária uma almofada de último recurso (o FMI, por exemplo)
  • É preciso um standard internacional de boas práticas bancárias
  • São úteis mecanismos fiscais dirigidos à entrada de capitais de curto prazo em países vulneráveis
  • É preferível uma política de flexibilidade nas taxas de câmbio em mercados emergentes
  • E como entra aí a sobrevivência do FMI?

    B.E. - Como acredito que os mercados financeiros podem funcionar mal, justifica-se que haja uma almofada financeira de último recurso, e, portanto, um claro papel para o FMI.

    O que significa que não alinha com o coro dos que apelam ao desmantelamento do Fundo, como já o fez Milton Friedman?

    B.E. - Obviamente que não. E o senhor Soros exagera quando fala que o que se está a passar nos mercados financeiros está a provocar uma crise do capitalismo global. Quando se é unilateral, tende-se a jogar fora o bebé com a água do banho.

    Mas que soluções globais advoga para a arquitectura do sistema financeiro mundial?

    B.E. - Vamos ver o que se entende por 'globais'. Eu não dou credibilidade nenhuma a propostas sem qualquer viabilidade política, como a da criação de uma moeda mundial, ou de um banco central mundial, ou de um regulador financeiro mundial, ou mesmo de um tribunal mundial para bancarrotas. O que eu defendo pode parecer pouco ambicioso em comparação.

    Modificar o ambiente

    Concretamente qual é a reforma 'realista' do FMI?

    B.E. - Atenção, que eu até não falo primordialmente de reformas do FMI propriamente dito, ainda que tenha a dizer algo sobre o tópico. O meu ponto de vista é sobretudo modificar o ambiente em que o Fundo opera, o que, naturalmente, dará ao FMI outra dinâmica. O que o FMI tem de fazer é endossar estas mudanças e tornar claro que emprestará em termos mais atractivos a quem der mostras de as seguir.

    E quais são essas novas medidas estruturais?

    B.E. -- A primeira seria a adopção de novos standards financeiros internacionais para boas práticas bancárias, particularmente nas economias emergentes. A outra tem a ver com a forma de lidar com as entradas de capitais de curto prazo particularmente nos mercados financeiros emergentes. Neste campo, sou adepto da solução chilena. Eles actuam fiscalmente, com impostos, junto destes movimentos de entrada de capitais de curto prazo. É preciso reconhecer que não é fácil ser-se uma pequena economia nesta era de globalização. O capital ora entra e ora sai no curto prazo. Eu penso que é preferível usar o fisco às regulações e controlos administrativos.

    O que significa que não é adepto das medidas temporárias preconizadas por Paul Krugman e em certa medida aplicadas na Malásia?

    B.E. - A realidade está aí á vista. A Malásia não recuperou tão rápido quanto a Tailândia ou a Coreia.

    Dores de cabeça no planeta

    A propósito a Ásia já está fora de perigo?

    B.E. - Muita gente diz que sim e está impressionada com a recuperação. Essas pessoas pensam que a crise financeira asiática foi uma coisa passageira e não estrutural. Mas eu não concordo. Permanecem sérios problemas estruturais à vista de todos nós.

    Quer concretizar?

    B.E. - Veja o caso da Coreia (do Sul). A recuperação coreana é um pouco mistificadora. Os poderosos conglomerados, as «chaebol», auto-limitaram imenso a sua reforma interna. Houve mudanças positivas, mas muito parciais. O meu medo é que tudo isto seja temporário. Um compasso de espera antes de nova tempestade. Toda a gente está muito eufórica e isso pode ser apenas o começo de um engano fatal.

    E o Japão, já está no trilho certo?

    B.E. - Não, continua um grande problema. O Japão não consegue mudar nada de essencial. O modelo japonês a que nos habituámos está muito entranhado na sociedade nipónica. E o problema de fundo é que o Japão só sairá do beco onde está se se modificar radicalmente.

    E será que o vai fazer?

    B.E. - Essa é a grande interrogação.

    O euro e a Europa estão fora desses cenários de tormenta?

    B.E. - Até certo ponto, o euro está imune a uma catástrofe. As economias e as sociedades da União já estão muito interligadas. Mas isso não imuniza a Eurolândia contra outro tipo de crises mais focalizadas.

    Mais focalizadas?

    B.E. - Como no caso do sector bancário. É uma área cheia de problemas. Há demasiados bancos na Europa. A consolidação é algo de absolutamente necessário. Quando essa 'crise' surgir, resta saber quem vai saber lidar com ela, quem vai tomar a responsabilidade de implementar as medidas indispensáveis.

    O euro vai recuperar face ao dólar?

    B.E. - Não sou um adivinho nessas matérias. Se o fosse, estava rico. A meu ver, a força do dólar reflecte a força real da economia norte-americana, e isso alguns europeus não o aceitam. Mas, mais tarde ou mais cedo, a expansão americana vai acabar e haverá, naturalmente, uma inversão de tendência.


    OUTRAS OBRAS DE BARRY EICHENGREEN
    Globalizing Capital: A History of the IMF (1998) (compra do livro) | International Monetary Arrangements for the 21st Century (1994) (compra do livro)

    OUTROS INTERVENIENTES NO DEBATE SOBRE A CRISE
    Paul Krugman | J. Bhagwati | D. Cavallo