Quanto vale a massa cinzenta da sua empresa

A apresentação do trabalho desenvolvido sobre o Capital Intelectual na Europa pela mão do responsável no grupo sueco Skandia pela primeira aplicação pioneira de uma metodologia de visualização e medição
desta nova forma de capital.

Jorge Nascimento Rodrigues comenta Intellectual Capital de Leif Edvinsson

Outros livros sobre Capital Intelectual | Obras de referência da autoria de Leif Edvinsson
 Papers do International Institute of Management Development, IMD, sobre o caso Skandia 
A experiência da Skandia | Entrevista exclusiva com Leif Edvinsson

Como é possível que a Amazon.com tenha esta semana (Primeira semana de Setembro de 1999) uma valorização de mercado na ordem dos 20 mil milhões de dólares quando esta livraria virtual criada apenas há quatro anos só estima vir a facturar 1/20 desse valor depois do ano 2000? O leitor dirá aparentemente seguro de si: pura especulação no NASDAQ!

Mas como justifica, então, que empresas mais 'velhinhas' da Terceira Vaga, valham muito mais do que os antigos tubarões do capitalismo industrial, alguns deles centenares? Como é possível que a Microsoft valesse no ano passado quase três vezes mais do que o vetusto grupo Shell e que a Intel valesse mais do que a poderosa petrolífera Exxon? Ou como se compreende que marcas como a Coca-Cola e a Marlboro estejam valorizadas em quase o triplo em relação às da Disney, da Sony ou da Kodak?

Do tradicional «goodwill»...

O que é que estará por detrás destas capitalizações de mercado astronómicas e destas diferenças bizarras, interroga-se o comum dos mortais, que pede auxílio aos contabilistas para uma explicação plausível. Só que estes não têm explicação - quanto muito recorrem ao conhecido «goodwill», a que se deita a mão quando se quer contabilizar uma daquelas diferenças inexplicáveis que alguém teve de pagar por uma empresa que comprou e cujos activos são pelos menos 1/10 (para sermos benevolentes) do dinheiro que desembolsou para ter a estrela e a sua equipa debaixo do regaço.

Leif Edvinsson

«O problema é que esta diferença entre o valor real dos activos e o valor de mercado da empresa tornou-se astronómica nos tempos que correm, com o desenvolvimento da nova economia nesta última década. No final de 1997, os activos da Microsoft eram apenas 6% do seu valor de mercado! Os da Coca Cola eram ainda menos: 4%! O que gera esse incrível 'valor escondido' de mais de 90 por cento?», interroga-se Leif Edvinsson, um sueco que foi responsável por pôr em prática desde o princípio dos anos 90 numa das empresas do grupo Skandia um primeiro método de avaliação e visualização desse 'valor escondido'.

Edvinsson explica-nos: «Os sistemas de contabilidade actuais são incapazes de explicar porque isto sucede e não têm modo de avaliar tudo o que esteja para além do imobilizado, nomeadamente imóveis e maquinaria». E prossegue: «O problema é que nos dias de hoje os factores clássicos de produção não são mais os principais responsáveis pela criação do valor de mercado. O capital em forma de imobilizado e o trabalho na velha concepção de mão-de-obra cedeu o lugar da frente a factores que, à falta de melhor expressão, designamos por 'intangíveis'».

O próprio factor 'recursos humanos' (RH, no calão) tem de ser bem entendido. «A questão dos RH é simples: tudo depende se são parte do multiplicador de valor ou apenas um custo/fardo. Ou seja tudo depende se os RH são potenciados como fonte de conhecimento para a organização ou apenas mão-de-obra. O segredo da criação de valor não está no hi-tech, mas tem a ver com a forma como a massa cinzenta o usa para criar valor», refere este vice-presidente da Skandia.

... a Galbraith revisitado

O que Leif Edvinsson e alguns académicos que com ele têm trabalhado - como Johan Roos e Goran Roos, do International Institute for Management Development (IMD), sedeado na Suíça - fizeram foi recuperar o conceito criado há 30 anos atrás pelo economista John Kenneth Galbraith que deu à luz em 1969 o 'capital intelectual'. O que era uma expressão literária foi, nestes últimos sete anos, escalpelizada ao pormenor e subdividida em dois novos tipos fundamentais de capital: o capital humano e o capital intelectual estrutural.

O primeiro alberga o valor da formação do pessoal, das suas competências, do seu potêncial futuro e sobretudo do seu talento latente, por vezes escondido e sub-utilizado. «Contudo, o capital humano é puramente pessoal e não é posse da empresa. Em geral vai na cabeça do quadro ou do empregado quando este sai porta fora regressando a casa ao final do dia de trabalho. A empresa pode - e deve - avaliá-lo, mas não consegue ter-lhe a propriedade», refere-nos o gestor sueco que é director para a área do Capital Intelectual e responsável pelos Skandia Future Centers, uma iniciativa pioneira em matéria de reflexão colectiva da empresa.

Apesar dessa falta de domínio sobre o capital humano, a empresa pode contabilizá-lo por aproximação através de indicadores como a percentagem de empregados com graus académicos avançados, o nível de literacia em tecnologias de informação e comunicação, o número de horas de formação, níveis de motivação e de liderança, poupanças nos custos advindas de sugestões e iniciativas inovadoras dos empregados e número de produtos e projectos saídos de iniciativas do pessoal. Estes indicadores são o reflexo do conhecimento 'implícito' existente nas organizações.

«Mas o grande desafio, diz Leif Edvinsson, é avaliar o capital estrutural, ou seja o que fica explicitamente na empresa, o que está fora da cabeça das pessoas. É o caso de bases de dados, ficheiros de clientes, comunidades de fidelização, marcas, patentes, standards de processos, redes de parceria,etc.». No modelo da Skandia dividiram esta segunda forma de capital intelectual em capital cliente e capital organizacional (por exemplo, neste último caso, propriedade intelectual, activos intangíveis e processos).

Apesar de Edvinsson não gostar do termo hoje em voga de 'gestão do conhecimento', a arte é conseguir transformar o máximo de capital humano em capital intelectual estrutural, colectivo, da organização.

Foi para dar visualização a este capital nas contas da empresa e na própria forma de planear e orçamentar que Leif Edvinsson foi contratado em 1991 por Jan Carendi, dirigente da Skandia AFS (a empresa do grupo ligada ao negócio dos seguros e serviços financeiros). Leif saiu-se bem da sua missão e em 1993 estava a produzir o primeiro relatório sobre capital intelectual em anexo ao Relatório e Contas daquela empresa do grupo. O resto foi uma passadeira vermelha para a fama mundial.

A internacionalização do modelo

Revista Fortune

O trabalho pioneiro de Leif Edvinsson na Suécia à frente da área de capital intelectual na Skandia no princípio do anos 90 (apresentado na Web em www.skandia.se/group/future/intellectual/frame_intellectual.htm) subitamente teve eco internacional e a revista Fortune deu-lhe capa em Outubro do ano seguinte, na edição de 3/10/94 (não disponível em formato digital nos Arquivos electrónicos na Web). O caso era narrado pelo editor da revista Thomas Stewart, ele próprio um apaixonado do tema que viria anos mais tarde a escrever um «bestseller» que foi recentemente traduzido em português pela editora Sílabo (sob o título Capital Intelectual: A Nova Riqueza das Organizações) e cuja recensão da edição original foi apresentada na Janela na Web.

Em 1996 o projecto de medição do capital intelectual recebe uma distinção do Centro Americano de Produtividade e Qualidade (APQC) e da Business Intelligence, do Reino Unido. Ainda por essa altura, a experiência da Skandia AFS é transformada em «caso de estudo» académico no IMD por iniciativa de Joan e Goran Roos (os artigos científicos estão disponíveis no IMD). Estes criam mesmo em Londres a Intellectual Capital Services, uma nova empresa que comercializa e «customiza» um Painel de indicadores - o IC Index - que poderá visitar na Web.

No ano seguinte, Leif recebe um prémio da Fundação Europeia para a Gestão da Qualidade (EFQM) e em 1998 é premiado como «Cérebro do Ano» pela fundação inglesa Brain Trust, onde ombreia com uma galeria onde estão o xadrezista Garry Kasparov e o célebre professor Stephen Hawking.

O impacto do trabalho chamou inclusive a atenção nos Estados Unidos da Securities and Exchange Commission, o orgão 'vigiador' da Bolsa, que pretende propor legislação que torne o capital intelectual transparente nas contas das empresas cotadas na Wall Street.

Dentro do próprio grupo, o método foi agora generalizado. Designado por Skandia Navigator foi introduzido este ano em todas as empresas da Skandia. Entretanto, foi organizado um banco de conhecimento baptizado de «Kennet», que é parte da intranet do grupo, e uma aplicação «Knownet» permite a todo o pessoal sugerir ideias e melhorias. Também, um mecanismo interno de expressar as necessidades de formação por parte dos empregados está em vigor, bem como um seguro de promoção de competências pessoais que é alimentado pela empresa e pelos próprios empregados.

Skandia Future Center

Outra iniciativa são os Skandia Future Centers. O primeiro centro de reflexão estratégica do grupo, que Leif designa por «ambiente de contactividade», abriu perto de Estocolmo numa «villa» oitocentista na pequena cidade de Vaxholm num ambiente agradável junto ao Baltico. «Contactividade» quer exprimir exactamente o ambiente que se pretende criar - de interacção entre as pessoas e de conexão da sua massa cinzenta. Cinco grupos de reflexão sobre o futuro já estão em campo e procuram definir as forças motrizes do grupo. Cada grupo é formado por membros de diferentes gerações, com diferentes experiências profissionais, distintas funções e culturas dentro do grupo Skandia. Não se trata dos clássicos «brainstormings» dos quadros de topo.

Duas novas empresas para a globalização da reflexão sobre o capital intelectual foram agora lançadas por iniciativa de Leif e da Skandia: a UNIC (Universal Networking Intellectual Capital, visite-a na Web aqui e a Futurizing (visite-a na Web aqui, só por convite).


OBRAS DE REFERÊNCIA DE LEIF EDVINSSON:

Leif Edvinsson é co-autor em duas obras de referência - uma com Michael Malone intitulada Intellectual Capital - Realizing your company's true value by finding its hidden brainpower, datada de 1997 (compra do livro), e outra com Johan e Goran Roos e Nicola Dragonetti também intitulada Intellectual Capital, mas com o pós-título de Navigating in the New Business Landscape datada de 1998 e que poderá ser encontrada na colecção de Economics &Business da New York University Press aqui na Web.

PAPERS DO IMD SOBRE O CASO SKANDIA:

  • Artigo de 1996, Skandia: measuring and visualizing IC
  • Artigo de 1998, Skandia Future Centers
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