A armadilha da euforia
Paul Krugman advoga o regresso a uma política económica que se prepare para a depressão, enquanto é tempo. Uma vez mais o polémico economista do MIT rema contra a corrente
que continua euforicamente acreditando num crescimento sem ciclos e advogando a derrota
do fantasma da inflação nos países desenvolvidos. Quem vai pagar no final a factura
do esgotamento da margem de manobra?
Jorge Nascimento Rodrigues O mundo ocidental desenvolvido continua envolvido numa alegre bebedeira económica. A Wall Street nova-iorquina bate recordes e a economia digital continua a captar biliões. O euro ainda está no período de graça. O crédito jorra por todo o lado - só nos Estados Unidos, já atingiu 95% do rendimento disponível das famílias em finais de 1998. Neste melhor dos mundos, que cabimento tem virem incomodar-nos com assuntos desagradáveis como a «depressão» e aconselhar-nos a «reler os acontecimentos dos anos 30»?
Pois é este o conselho do sempre desmancha-prazeres Paul Krugman, o polémico professor de economia da Sloan Management School ligada ao Massachusetts Institute of Technology. Ele voltou, de novo, à carga contra a corrente dominante com mais um artigo na revista «Foreign Affairs» (na edição de Janeiro/Fevereiro de 1999, ainda não disponível na Web em http://foreignaffairs.org) em que nos anuncia o Regresso da Economia de Depressão, tema que acedeu a comentar, mais em detalhe.
Cheiro dos anos 30 no ar O interesse académico pela Grande Depressão dos anos 30 reapareceu. Krugman refere algumas obras dos últimos três anos que o inspiraram e lhe permitem fazer alguma história económica com vista a, segundo ele, «um paralelismo por vezes tão óbvio» que nos faz sentir no ar um «certo cheiro aos anos 30».
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Veja aqui duas dessas obras recomendadas por Krugman: Globalizing Capital: A History of the International Monetary System (Princeton University Press, 1996, compra do livro) de Barry Eichengreen, a que já nos referimos noutro local; e The Defining Moment:
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O problema central, adverte-nos, não está no terreno da economia, mas na cabeça das pessoas. «Na falta de flexibilidade mental notória dos políticos e decisores», frisa. As ideias que ainda hoje dominan reduzem a Grande Depressão dos anos 30 a uma tragédia derivada da «estupidez» ou «ignorância» de alguns (investidores, banqueiros, políticos) - e como hoje temos gente mais avisada, tragédias dessas, é claro, não se repetiriam!
Acredita-se, também, correntemente, que a política económica e financeira se foi afinando progressivamente nos últimos 50 anos a ponto de hoje poder jogar com sucesso em todos os tabuleiros, como se uma das «leis de ferro» da economia do bom senso tivesse subitamente sido deitada borda fora - ou seja que qualquer opção que se tome tem custos e revela-se incompatível com outras opções.
Este edifício ideológico começou a ser abalado há sete anos atrás. Primeiro foi o Japão, o milagre dos milagres do séc. XX, depois o México. Mas, não passariam de «excepções», logo retorquiram os guardiões da fé. Depois veio o dominó de crises no resto da Ásia e as mordidelas na América do Sul, e as dúvidas começaram finalmente a acumular-se. Mas, mesmo assim, como os Estados Unidos e a Europa por ora não foram tocados pelo vírus, o assunto não assumiu ainda o estatuto de problema sério.
«A verdade nua e crua é outra, responde Paul Krugmam. A economia mundial tira da cartola mais perigos do que poderíamos imaginar. Problemas com que julgávamos saber lidar - por exemplo, como levar as pessoas a voltarem a consumir o suficiente para redinamizar a economia -, voltaram a tornar-se intratáveis. Veja o caso do Japão. Eles tentam todas as maneiras e feitios para estimular a economia, mas os esforços não resultam».
A melhor imagem que ele nos dá é esta: «É como se uma bactéria temporariamente controlada voltasse, de novo, ao activo, tendo desenvolvido, entretanto, uma nova resistência aos antibióticos». Muitos analistas independentes duvidam mesmo que os Governos consigam ser «keynesianamente eficazes» quando isso for preciso. Quer o leitor dúvida mais «assassina» do que esta?
A ratoreira da liquidez Particularmente interessante para os países desenvolvidos é a «lição» do Japão recente. Este país, candidato há 10 anos a líder do séc. XXI, caíu no que Krugman denomina «a ratoeira da liquidez». Trocado por miúdos: por mais engenharia financeira que se faça, o ambiente psicológico dos consumidores e dos investidores não vira e os governos vêm-se obrigados a esticar ao limite a corda dos truques ligados à baixa sucessiva das taxas de juro e ao controlo paranóico da inflação. O problema, adverte o polémico economista do MIT, é que os políticos, de tanto pressionarem para zero as taxas, «acabam por deixar de ter margem» a partir de certo ponto em que a taxa de juro é incrivelmente baixa e a inflação rídicula. Em plena crise dos anos 30, recorda Krugman, a espiral na taxa de juro chegou aos 0,023% nos Estados Unidos e, apesar de pertinho do zero, não foi capaz de suster o ciclo negativo.
«Um país com 5% de inflação e 8% de taxas de juro tem muito mais campo de manobra para baixar as taxas quando a recessão bater à porta, do que outro com estabilidade dos preços e 3% de taxa de juros. Por outras palavras: os países desenvolvidos não seriam hoje tão vulneráveis se não tivessem sido tão bons alunos na política de estabilização dos anos 80», explica preto no branco Krugman, que cita o caso da Europa como um bom exemplo do trambolhão dado nessa armadilha.
Mudar o sentido da agulha Pode parecer sádico, mas a economia prega-nos destas partidas: «Nem o sucesso se livra de ser punido mais tarde», ironiza o nosso interlocutor. Ou seja, o êxito das reformas levadas a cabo nos anos 80 está hoje a começar a apresentar a sua factura.
E quando essa hora chega, a solução é mudar de paradigma. No caso, mudar o sentido da agulha, aconselha Paul Krugman. «Mais tarde ou mais cedo teremos de voltar a limitar os movimentos de capitais no caso dos países que não estão aptos a integrar uniões monetárias ou a seguir uma política de flutuação livre. Teremos de re-regulamentar até certo ponto os mercados financeiros. E teremos de prosseguir uma política de inflação, sem dúvida baixa, mas não tão excessivamente baixa como hoje», assim conclui o artigo o economista maldito do MIT.
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Face a isto como pode você leitor reagir se estiver ao leme da sua empresa? |
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Paul Krugman é um académico mal-amado dentro e fora do seu país. Mas desperta a atenção de muitos pares que se habituaram a valorizar as pedradas no charco que aquele economista do MIT de vez em quando lança. Mário Murteira, presidente da Escola de Gestão do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa, leu mais esta peça polémica, e comentou ao EXPRESSO o paradoxo em que a política económica está a viver e que Krugman desenha com clareza: «Há sintomas, como foi reconhecido recentemente pelo insuspeito semanário The Economist, de que entrámos numa conjuntura deflacionista, isto é, de baixa de preços e afrouxamento do nível de actividade económica, enquanto a maioria das análises e das políticas formuladas supõem ainda o risco da inflação, continuando, assim, o primeiro objectivo da política económica dos países a assegurar a estabilidade de preços, ainda que com sacrifício do nível de emprego. Se isto é verdade, então o mal-entendido poderia ter consequências graves, como seria medicar um doente sofrendo de baixa tensão supondo que ele padece de hipertensão».
Krugmam põe justamente o dedo na ferida deste «mal-entendido» que teima em fazer finca pé e roga-nos que nos livremos de tais «médicos» e «medicações» enquanto ainda é tempo. «No caso da nossa União Europeia, sublinha Mário Murteira, o facto pode ter graves consequências a curto ou médio prazo. Na realidade, toda a estratégia política da chamada convergência nominal - por seu turno, preparatória da moeda única - não será facilmente conciliável com uma conjuntura internacional depressiva, de regressão na actividade económica e no emprego». «Por esta via, é claro, a depressão poderá entrar também em nossa casa», opina o nosso interlocutor.
Para Mário Murteira, o que «está em causa é encontrar a combinação óptima, adequada à presente conjuntura mundial, de instrumentos de política económica que permitam atingir objectivos satisfatórios em três aspectos relacionados, mas não facilmente conciliáveis: estabilidade de preços, crescimento económico e pleno emprego».
Historicamente, recorda-nos que, no após-guerra, e sob influência das ideias de Keynes e também da experiência da depressão económica dos anos 30, os governos ocidentais deram geralmente primazia ao crescimento económico e ao emprego, tolerando niveis elevados de inflação. A partir dos anos 80, a tendência dominante foi no sentido da estabilização económica, desregulação, privatização, em suma criação de condições «ambientais» favoráveis à competitividade das empresas.
Mas, depois de anos de sucesso desta viragem, constata Mário Murteira que «se multiplicaram as crises 'regionais', primeiro na Ásia, começando pelo Japão, depois na América Latina, na Rússia... e enfim um pouco por todo o lado, num planeta onde apenas a economia norte-americana aparenta invejável boa saúde - mas por quanto tempo mais?».