MIKE DAISEY, AUTOR, ACTOR E «EX-ESCRAVO» DE BEZZOS

21 dog years

LIVRO DO ANO 2002 ESCOLHIDO PELA WRITTENVOICES.COM

Mike Daisey apresentado por Jorge Nascimento Rodrigues

UM «EX-ESCRAVO» DE BEZOS REVELA OS BASTIDORES DA AMAZON.COM

O LADO NEGRO DO ÍCONE DA NOVA ECONOMIA

Artista da "margem" nova-iorquina conta a sua aventura a trabalhar mais de dois anos na Amazon.com em Seattle envolto no culto da personalidade de Jeff Bezos - "um demagogo talentoso", reconhece. A peça de teatro esteve em cena entre Maio até Setembro em Manhatam e o livro "21 Dog Years - Doing Time @ amazon.com" transformou-se em best seller. Foi tema de discussão entre os altos dirigentes da Amazon.com e consta que Bezos não deu uma das suas gargalhadas monumentais (Entrevista realizada em Agosto 2002)

Site do autor | Artigo sobre os "Escravos da Net"
Feedback ao autor de 20 Dog Years | Encomenda do livro na Amazon.com

Capa do livro 21 Dog Years Depois da agonia bolsista da Nova Economia e da polémica sobre os seus modelos de negócio, surge, agora, o lado humano do problema. Da economia pura começa a passar-se para a sociologia e a psicologia de toda uma geração entre os 20 e os 40 anos, que acreditou ter estado a fazer história, a História de uma Revolução, a Revolução Digital.

Bill Lessard e Steve Baldwin lançaram um primeiro livro de denúncia ("NetSlaves: True Tales of Working the Web", editado pela McGraw-Hill) em finais de 1999 e cunharam a nova categoria social de "escravos da Net" (netslaves). O seu grito de revolta fora premonitório ainda antes do "crash" do Nasdaq em 2000. Eles continuam a manter um sítio na Web de "cultura da recessão".

Mas os ícones não tinham sido ainda molestados directamente - à Amazon.com e ao seu fundador coube a honra da estreia, no duplo sentido do termo: o motivo para a inauguração de uma nova temática literária (as histórias por dentro do fenómeno "dot.com") e a subida a palco através de uma peça com um só actor que esteve quatro meses em cena de quarta a sábado no Cherry Lane Theater, um teatro "alternativo", criado em 1924, perto da 7ª Avenida em Manhatam.

A peça "21 Dog Years" vai agora para Los Angeles, e depois para Londres, São Francisco e Seattle, e o livro com o mesmo título transformou-se num "best seller". A peça foi produzida no Verão passado para o Festival Internacional Marginal de Nova Iorque e o livro foi sugestão da The Free Press (da Simon & Schuster), onde foi agora publicado.

No centro da peça está Mike Daisey, 29 anos, na sua própria auto-definição, um artista diletante alternativo, biscateiro meio preguiçoso nas mais diversas profissões (segurança, DJ, recepcionista, conselheiro psicológico, dador regular de sangue e até professor e artista de teatro "da margem"), que, a dado passo, toldado por uma paixão louca por uma namorada de origem polaca e por pressão da avô dela, quis arranjar um trabalho "sério" e se viu metido "21 anos de cão" (cada ano de cão vale por mais de 7 de um humano) a trabalhar na Amazon.com em Seattle.

Uma originalidade de Mike é passar a monólogo partes da sua vida e levá-las à cena.

Mike saiu em 1998 do Maine, na costa atlântica, para ir ter com amigos à outra costa norte-americana, em Seattle, tida, então, como a capital da preguiça e dos "profissionais" do trabalho temporário. Pelo caminho, de costa-a-costa, viveu diversas peripécias que passou ao teatro em "Wasting your Breath".

Antes de ter descoberto em 1998 o anúncio da Amazon no jornal Seattle Weekly pedindo gente para o "call center", estava a representar Jean Genet, onde desempenhava, meio envergonhado às vezes, um papel "fabulosamente decadente", na definição do director da peça. Mike mandou um fax com as suas habilitações e cinco minutos depois estava contratado - estávamos em Julho de 1998. Mais tarde soube por quem tomou a decisão na Amazon que o facto de ter mencionado uma licenciatura em estética foi a razão da chamada.

Mas eis que uma geração de jovens viciados no trabalho, electrizada pelo carisma de Jeff Bezos e ambicionando meter o El Dorado do Nasdaq no bolso, descobre, uns anos depois, que não passaram de "escravos" de uma aventura empresarial e se começam a interrogar "como é que isto sucedeu". Dão-se conta, então, que viveram uma mistura de idealismo esquerdista, sonhando estar a revolucionar o mundo através do comércio na Web, com as promessas do capitalismo popular.

Mike aparece em "21 Anos de Cão" de cartão de empresa ao peito e copo de café da Starbucks em frente, com uma luz vermelha humilhante em fundo que avisa de vez em quando que as metas não estão a ser cumpridas no "call center" (o local da Amazon por onde começou). Mike quase chegou à nomenklatura da casa - passou pelo departamento de serviço ao cliente e subiu à área de desenvolvimento de negócios. Feitas as contas das semanas de trabalho com horários "insanos" até Fevereiro de 2000, ele descobre que tudo o que ganhou (incluindo mesmo as acções da Amazon que vendeu em bolsa, num período de alta) foram 6 dólares por hora... "No Taco Bell teria ganho mais", ri-se.

É o outro lado de um dos ícones mais fortes da Nova Economia dos anos 90, contado em livro e representado em palco em Nova Iorque. É tanto uma sátira à Amazon e ao culto da personalidade de Bezos, quanto uma comédia autocrítica da própria experiência vivida por Mike Daisey (em que se podem rever milhões de outros "dot-comers").


Como é que lhe ocorreu fazer esta peça de teatro e escrever o livro sobre a sua experiência na Amazon.com?

Este é o terceiro "show" que faço em que aproveito uma porção da minha vida pessoal para levá-la ao palco. Uma ida minha à Polónia por causa da minha namorada em 1997, bem como as lembranças da guerra do Vietname em que esteve o meu pai, levou-me a levar ao palco "I Miss the Cold War"; depois a minha viagem de costa-a-costa até Seattle motivou "Wasting Your Breath". Agora, foi a vez de "21 Dog Years", que é dirigida por Jean-Michele Gregory, a minha namorada. Depois um editor achou que era natural passar ao papel.

É uma pequena vingança contra a escravatura na web?

Acho que sim (risos).

Nesse período louco de exuberância irracional - nas palavras do vosso FED [Alan Grienspan]- alguma vez teve acções em bolsa, nomeadamente da Amazon, onde trabalhava?

Desde as acções que tive da Amazon - e que vendi em Fevereiro de 2000 (quando saí) ainda antes do "crash" do Nasdaq - nunca mais tive acções. E duvido que mais alguma vez na minha vida o volte a fazer.

Como é que encara esse período da "Nova Economia"?

Foi o melhor dos tempos, e o pior também, com tudo o que Charles Dickens queria dizer com essa expressão.

É engraçado que também você resolveu fugir da costa atlântica para Seattle. Tal como reza a história da ida de Jeff Bezos de costa-a-costa com o cão, a mulher e o carro. Porquê Seattle e não o Silicon Valley?

Por uma razão muito simples - tinha amigos em Seattle, queria sair do Maine e ficar bem longe, e participar na vida artística teatral dessa cidade. Nunca me tinha passado pela cabeça trabalhar na indústria da alta tecnologia. Por isso, o Silicon Valley nunca me ocorreu.

Jeff Bezos é um demagogo cheio de talento, muito prendado. Mas não creio que possa ser "arrumado" assim tão facilmente.

O que é Bezos - um visionário e pioneiro de uma revolução económica, ou alguém que descobriu um meio de mobilizar milhões a investidores e na bolsa para prosseguir uma mania megalómana?

Acima de tudo, penso que ele é um demagogo cheio de talento, muito prendado. Mas não creio que possa ser "arrumado" assim tão facilmente. Por isso escrevi a minha própria história sobre o assunto.

Para além dos investidores e dos accionistas da bolsa, o "paradigma de crescimento", que você satiriza na peça e no livro, foi alimentado por uma legião de "escravos da web", gente qualificada "fora do normal" (as instruções de recrutamento sublinhavam isso) que acreditou estar a fazer uma revolução económica, como você próprio sublinha. Como é que isso pôde acontecer?

Porque éramos hiper-formados, sem direcção e prontos para absorver uma visão para uma nova vida.

Mas o que é que os movia - apenas arranjar um emprego? A ganância das "stock options"? Uma ilusão? O vício do trabalho?

As quatro razões. Em suma, um "frisson" de ganância e idealismo, uma convicção genuína e uma esperança em que o trabalho revolucionário seria recompensado com riqueza. Era um dois em um.

E quando é que se deu conta da escravatura a que vos condenava a máquina da Nova Economia e o mito do grande empreendedor-líder revolucionário?

Com o tempo, sobretudo quando passei a trabalhar na secção de desenvolvimento de negócios [da Amazon]. Aqui as ilusões caíam na real.

Você acusa Bezos de desenvolver um culto da personalidade, com os seus risos extravagantes, o seu modo de vestir informal, a sua ideologia revolucionária económica. Como é que isso se manifestava?

Através da inacreditável atenção dada por vocês, pelos media, ao CEO como cabeça da empresa. Nós "comíamos", respirávamos e embalávamo-nos ao som de Bezos. Aliás, não é isso que fazem os "bons" empregados? Esta tendência perpetuava-se a si própria.

Mas o que é que liquidou os planos de Bezos? A desorganização, um dos aspectos que fala no seu livro? A falta de profissionalismo na gestão, de que também dá exemplos? Ou a megalomania de querer passar de uma livraria virtual de culto para o maior conglomerado mundial de vendas na web?

A realidade simplesmente o surpreendeu - nada mais do que isso. Cortou-lhe o devaneio.

E o que é que aprendeu com ele, com essa experiência?

A ouvir as minhas próprias orientações, a trabalhar para mim próprio e a NUNCA MAIS voltar a uma empresa.

Acha que, depois de toda esta "gigantesca insanidade" - uma expressão de John Kenneth Galbraith, em "The Great Crash", que você cita a abrir o seu livro -, a Amazon sobreviverá? De qualquer das formas, para as gerações actuais, a Amazon é um ícone.

Claro, na medida em que a marca tem imenso potencial sempre sobreviverá de alguma maneira - alguém quererá sempre possuir ou operar aquele nome. Para além disso, já não me interesso mais pelo assunto - há já algum tempo que cresci para além do meu vicio na Amazon. Limpei-me da droga.

De todas as suas actividades no passado - de professor a DJ - o que é que o marcou mais?

Aprendi imenso dando aulas.

Qual é o seu principal objectivo agora?

Estou a investigar para um segundo livro e a trabalhar num novo "show" para o Outono e também para a TV e o cinema. Em geral, mantenho-me ocupado com uma variedade de projectos.

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