Ficha 8
O Quinto Poder apresenta-se


Tema: O Estado Digital
Título: The Digital Estate
Autor: Chuck Martin (norte americano)


TESE: "A Internet não é um ícone no seu écrã"

Entrevista de Chuck Martin a Jorge Nascimento Rodrigues


A Internet não pode ser pensada por metade. Ela não é mais um ícone no seu software, como outros em que prime diariamente no seu teclado ou no écran. E nem é uma mera base de dados de conteúdos, por mais extraordinária que seja.

A outra metade, de que nos fala em discurso directo Chuck Martin, o autor de The Digital Estate (Título completo: The Digital Estate - Strategies for Competing, Surviving and Thriving in an Internetworked World, Editora: McGraw-Hill, 1997, Nova Iorque, ISBN: 0070410453), é o contexto e a conectividade humana, o impressionante novo «media» que nasceu.


Na Europa acabámos de descobrir, depois do Relatório Banguemman - um dos comissários europeus da União -, a "sociedade da informação". Mas, ao lermos The Digital Estate, ou as obras do canadiano Don Tapscott (por exemplo, The Digital Economy), ou os artigos de George Gilder na revista «Forbes», damo-nos conta que, nestes anos 90, entrámos numa nova Era. Com a massificação do correio electrónico, do uso da Internet e da navegação na World Wide Web, deixámos de estar na "sociedade da informação" e passámos para a da "conectividade". Quer explicar-nos o seu ponto de vista?

CHUCK MARTIN -- A meu ver, a Internet é o meio comunitário de conexão entre pessoas e entidades mais extraordinário de todos os tempos. Nunca houve nada, até hoje, no género. E com a conectividade de massa vem atrás, naturalmente, a massificação da informação.

Com o envio de informação de umas para as outras pessoas, com a mais recente tecnologia «push» que envia através do mundo fluxos de milhões de peças de informação a seu gosto, com a partilha das imensas bases de dados empresariais através das tecnologias da Net, haverá um crescimento exponencial da informação disponível.

Mas isto é, apenas, metade da história. A outra metade, de facto, é a conectividade humana global que a Net permite.

Outro aspecto fundamental desta nova Era é a originalidade deste novo «media». Ele não tem precedente histórico, mesmo se comparado com a imprensa ou a televisão, como você sublinha no livro. Pode explicar-nos qual é a diferença de fundo? E quais as consequências?

C.M. -- É mais fácil falar das diferenças, do que das consequências. As primeiras são mais conhecidas, por ora. A imprensa e a TV fazem o papel de lhe chutar a informação que vasculharam.

São uma espécie de «mediadores» de uma informação disseminada. No Estado Digital, de que eu falo, eu, você, qualquer um tem acesso pessoal directo à informação que lhe interessa.

Por isso, a meu ver, nomedamente no caso da imprensa - de que você faz parte -, ela terá de evoluir, para ser mais do que um fornecedor de informação, terá de ser um fornecedor de saber.

Na Europa, começámos a falar da corrida aos conteúdos, tentando contrabalançar a hegemonia norte-americana na Net. Mas, nesta nova Era, é o contexto e a distribuição - e não o conteúdo - que são decisivos. Será que os europeus estão distraídos, e esquecem algo de fundamental?

C.M. -- É verdade que eu escrevi em The Digital Estate que o contexto é rei! Mas, os europeus e outros não estão necessariamente a "esquecer" algo de fundamental, como você o coloca assim tão friamente.

A Net está ainda numa fase evolucionária. Bom, mas a Net é a Net. E, por esta evidência, eu incluo as pessoas, as empresas, as organizações que fornecem informação e que também usam informação.

A Net é também verdadeiramente global, a meu ver, apesar de, nas primeiras fases de arranque, haver muitas empresas norte-americanas que foram muito agressivas em termos do que fizeram e conseguiram na Net.

Em países, como Portugal, descobrimos, ainda recentemente, o quarto poder, com a dinâmica introduzida pela TV privada. E ainda estamos a saborear isso. Mas você já fala do quinto poder, do Estado Digital. Em que é que ele é diferente?

C.M. -- No quinto poder, a pessoa tem acesso pessoal directo à informação e uma enorme capacidade de conexão interactiva, algo absolutamente novo.

Mas, o quarto poder tem, no entanto, uma oportunidade para evoluir e desempenhar um papel com significado na Era Digital.

O desafio é definir o que se quer ser neste novo ambiente. A partir do momento em que se tem essa visão estratégica, a passagem torna-se mais fácil.

Uma das proezas desta nova era, de que nos fala em The Digital Estate, é a capacidade de criar coisas "grandes" a partir da agregação das pessoas, dos serviços e das empresas. Mesmo, a possibilidade de "amplificar" o que é pequenissimo. Isso parece inacreditável para quem não pensa em termos digitais. Quer explicar-nos esse paradoxo?

C.M. -- A Net, na verdade, não é uma coisa gigantesca, como muita gente fantasia. É uma série de milhões e milhões de nichos verticais que se agregam naquele chapéu.

E, por isso, é um mecanismo de grande igualitarismo. Quero eu dizer com isso que, na Net, uma grande empresa (grande de verdade) pode parecer pequena, e que uma minúscula pode parecer grande. Também, uma empresa local pode parecer global, e uma global pode aparecer como local.

A Net é um meio de construir comunidades - de pessoas em torno de interesses - e de as servir.

Aprendemos nos anos 80 de que devemos "pensar global e agir local", sobretudo com os estrategas empresariais japoneses. Demo-nos conta de que eles foram muito bons nisso e todos começámos a "copiar" a receita para as empresas ocidentais. Agora, você vem-nos dizer que devemos "pensar local e agir global", trocando-nos as voltas. Aliás, John Naisbitt, o guru das megatendências, disse recentemente o mesmo em termos de geoestratégia. Porquê essa guinada?

C.M. - A Net torna isso possível. É uma evidência.

Nas estratégias de marketing e de desenvolvimento a regra hoje é lançar, testar e aprender com o «feed-back» do utilizador, escreve no seu livro, citando diversos casos, como o do primeiro «browser» da Netscape. Mas, como se faz eco a imprensa, muitos utilizadores ficam nervosos, sobretudo os não-profissionais, com as versões «beta» e os muitos «buggs» e problemas que elas trazem...

C.M. -- Uma das características do Estado Digital é precisamente o de lançar e aprender. O ambiente Net exige o que eu chamo de aprendizagem auto-crítica, de aprendizagem com os deslizes - ou seja, é lançando e tropeçando ao longo do percurso que se consegue acertar com o caminho correcto.

A comunidade da Net fará o seu papel, ajudando-nos na criação da própria estratégia e do produto, a partir do momento em que é lançado.Este é o grande poder de usar a Net para criar o seu "produto" final. Empresas mais antigas têm imensa dificuldade em perceber isto, pois estão habituadas a fazer o contrário, ou seja a testarem vezes sem fim antes de lançarem os produtos no mercado.

Já agora, outro paradoxo. Este novo media permite, em simultâneo, a globalização e a personalização, conectando ao individuo e ao todo, como escreve no seu livro. Mas isto é algo muito dificil de explicar a gente "não digital". Pode dar-nos alguns exemplos.

C.M. - Um muito simples. Uma empresa ou organização pode criar um «site» acessível mundialmente - globalização - que se apresenta de um modo diferente a cada um que o visita - personalização. Isto é feito hoje pela tecnologia.

Assim quando uma pessoa vê determinada informação numa primeira visita ao «site», verifica, quando lá voltar, que tem mais e mais dessa informação que lhe interessou.

Algo similar, no mundo analógico, seria como se você visitasse uma loja e andasse por lá às voltas a ver determinado tipo de vestuário. Na visita seguinte a essa loja, eles teriam lá uma maior variedade do tipo de items que você viu da primeira vez.

E como é que uma empresa bem estabelecida no seu mercado faz a transição para este novo ambiente, quando os seus principais clientes e o seu negócio não parecem depender da Net?

C.M. - Em última análise, tudo virá a depender da Net - tanto os clientes fundamentais como o negócio central, na medida em que o uso da Net continuará a ser exponencial e global. O grande desafio é manter o seu negócio central a funcionar durante essa transição.

De tempos a tempos, o novo ambiente interactivo "guiará" o seu negócio, por isso, mais vale, que você ponha JÁ em marcha uma estratégia para a transição.


O BOM ALUNO DA ECONOMIA DIGITAL


Foto: Chuck MartinChuck Martin foi um bom aluno da "Economia Digital" de Don Tapscott (dtapscott@mtnlake.com), o autor canadiano responsável pela obra que desencadeou o conceito da nova economia, que aliás escreve o prefácio desta obra.

Chuck trabalhou com a Alliance for Converging Technologies (actnet.com), uma das entidades lideradas por Tapscott a partir de Toronto, no Canadá, e "estendeu" o conceito original definindo um novo espaço político, económico e social, que baptizou de "Estado digital". Neste livro agora publicado, Chuck Martin é dos primeiros a sistematizar as características das estratégias de negócio que estão a ser inventadas pelas novas empresas do mundo digital.

O livro contém, ainda, um útil índice de «sites» na Web referentes às empresas citadas no livro e uma listagem completa das 100 regras fundamentais para bem agir na Web (na condensação do livro, referem-se apenas as 10 mais, escolhidas por Chuck).

O autor é actualmente vice presidente para a área de Edição e Publicidade da IBM, depois de ter sido fundador e editor da revista Interactive Age.


SE QUISER DEBATER O TEMA COM CHUCK MARTIN:
Chuck mantém uma «home page» sobre o livro no «site» da editora McGraw-Hill, onde pretende travar uma discussão com os seus leitores em www.books.mcgraw-hill.com/digitalestate


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