Como a Web revolucionou a vida
de um jornal centenário

A dinâmica do «site»
do San Jose Mercury News,
no Silicon Valley

Jorge Nascimento Rodrigues

Saber agarrar uma oportunidade e inovar é uma das melhores saídas para um ‘dinossauro’. E o caso mais em foco em torno da Web vem do mundo dos ‘media’. Trata-se da revolução na vida de um jornal nascido em 1851, o San Jose Mercury News, hoje em dia reconhecido como a voz do Silicon Valley, provocada pela decisão estratégica de apostar na versão ‘online’, colocando-a progressivamente no comando do relacionamento com os leitores.

O ‘site’ (http://www.mercurycenter.com) tem hoje 6 milhões de visitantes por mês, tem várias fornadas de novidades noticiosas ao longo do dia e integrou plenamente a versão em papel, que vai para as rotativas ao começo da madrugada. O ‘site’ tornou-se célebre ao conseguir lançar ‘online’ verdadeiras ‘bombas’ jornalísticas para o mundo do ‘hi-tech’ e bolsista.

O ‘site’ e a versão em papel complementam-se, hoje em dia, em diversos aspectos e o jornalismo foi obrigado a pensar e escrever nos dois registos (que são diferentes), como nos explicou Bob Rayan, o director do Mercury Center em entrevista exclusiva à Janela na Web (ver no final).

A história tem cinco anos. A gestão da empresa Knight Ridder New Media (pertencente ao grupo Knight-Ridder com 36 diários e 33 «sites» em toda a América), que detém o jornal, percebeu em 1993 a oportunidade que se abria com a edição electrónica e tomou a decisão de lançar o Mercury Center dentro da American On Line, tornando-se rapidamente no primeiro diário norte-americano a colocar ‘em linha’ o seu conteúdo.

Simultaneamente, a ideia estratégica era torná-lo o ponto de referência em alta tecnologia para todo o público leitor na Califórnia e nos Estados Unidos.

Quando em 1994 surgiu a Web, o Mercury Center lançou também o seu próprio ‘site’ (http://www.mercurycenter.com) e um ano depois estava a cobrar assinaturas pelo seu uso. Afirmava-se, assim, como a voz do ‘hi-tech’ em toda a comunidade tecnológica e empresarial da emergente indústria digital em todo o mundo. Em 1996 passou a ser considerado o melhor jornal na Web pelo Prémio para a Imprensa Interactiva.

Para além da notícia e da sua análise, o ‘site’ construíu uma rede de informação útil para o utilizador, apostando em ser a ‘porta de entrada’ do cibernauta para a procura na Web de imensos pontos de interesse, como desporto, guia de entretenimento na região (a chamada ‘Bay Area’ de San Francisco), gestão de carreiras (‘Talent Scout’, uma das funcionalidades mais bem conseguidas, que inclusive organiza, desde 1997, uma Feira de Carreiras, que coloca em contacto empregadores e talentos, que se conheceram previamente através da Web), páginas amarelas electrónicas, turismo e viagens, jovens (‘Digital High’, outra das funcionalidades originais), arquivo de artigos dos principais jornais norte-americanos (e não só do Mercury News), compra de automóveis e procura de casa, bem como um serviço personalizado de noticias (‘NewsHound’) e um provedor do leitor muito concorrido.

No quinto aniversário, durante o passado mês de Maio (1998), o ‘site’ decidiu tornar o seu conteúdo gratuito para os assinantes, e, nos últimos meses, alargou as suas parcerias, atendendo aos interesses dos seus utilizadores em todo o mundo. Uma aliança com a Nikkei BP BizTech, uma subsidiária do grupo editorial japonês Nikkei, permitiu-lhe lançar diariamente o ‘Asia Tech Update’, muito procurado.


Entrevista exclusiva com o director do Mercury Center

A Reengenharia do Jornalismo tradicional

Bob Ryan (bryan@sjmercury.com), director do Mercury Center, a Jorge Nascimento Rodrigues

Fotografia de Bob Ryan O «site» começou em 1993 dentro do serviço American On Line (AOL) com a designação de Mercury Center e em finais de 1994 passou a ter presença própria na Web (http://www.mercurycenter.com).
Bob Ryan foi nomeado director do Mercury Center em Abril de 1995. Ele é responsável pela edição, produção e gestão do «site». Anteriormente, tinha sido sub-editor e toda a sua carreira foi feita no San Jose Mercury News e no grupo Knight-Ridder (propietário do jornal).
Entre 1982 e 1987 foi editor das secções nacional e internacional do Mercury News e em 1986 dirigiu uma equipa do jornal que ganhou o Prémio Pulitzer para Reportagem Internacional. É formado em história e tirou um mestrado em jornalismo.

Qual é o tipo de novo relacionamento com os leitores e os assinantes que se criou com o Mercury Center na Web?

BOB RYAN – Muito do que estamos a criar hoje é um novo relacionamento entre nós - o jornal - e os nossos leitores. Como sabe, até Abril deste ano, apostámos em assinaturas pagas da edição «online». Contudo, acabámos com esse serviço e passámos a pôr o conteúdo gratuito na Web, para nos focalizarmos na criação de um vasto público leitor de massas.
O nosso ponto de vista actual é que a melhor estratégia é conseguir o maior número de leitores «online» e ajudar os nossos anunciantes a atingirem eficazmente com as suas mensagens esses leitores.

E que tipo de nova relação forjaram com esses anunciantes?

B.R. – A parte mais encorajadora do nosso negócio «online» são as Páginas Amarelas, um conjunto de directórios de negócios. Estamos, também, a criar «sites» para muitos dos nossos anunciantes, alguns dos quais são nossos novos clientes no Mercury News (impresso).

E qual é o relacionamento que têm com a comunidade do Silicon Valley?

B.R. – Nós encaramos cada vez mais o nosso papel como fornecedores de uma vasta gama de serviços, incluindo ferramentas especiais para pesquisar e investir no Vale. É um contínuo valor acrescentado que pretendemos dar.

Naturalmente que a integração de dois registos de infornação tão diferentes, como o impresso e o electrónico, motivaram uma reengenharia na forma de trabalhar dos editores e dos próprios jornalistas. Que mudanças mais significativas houve e que barreiras encontraram?

B.R. - Esse é precisamente um dos desafios mais interessantes do que estamos a fazer.
Alguns dos jornalistas do San Jose Mercury News ainda debatem a chegada dos novos «media». Alguns repórteres e editores sentem-se tolhidos na sua capacidade de escrever para as suas audiências tradicionais, ao terem de fornecer informação atempada para as duas plataformas - a impressa (que sai ao final da madrugada) e a «online» que é actualizada várias vezes ao dia.
Contudo, com a nossa atenção muito concentrada nas novidades do nosso Vale, a maior parte do «staff» de jornalistas começou a aceitar e a perceber que são os leitores, e não a gestão da casa, que não podem esperar pelas noticias das seis da manhã do dia seguinte - no jornal impresso - para saberem o que se passa de novo.
Muitos dos jornalistas tradicionais do ‘papel impresso’ começaram a ficar muito entusiasmados com a oportunidade de verem os seus artigos serem lidos a qualquer hora do dia e em todo mundo, em poucos segundos de edição - o que se tornou muito atraente e motivador. Além disso, o feedback directo dos leitores por correio electrónico é muito gratificante para os jornalistas.

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