O assalto à cadeira vazia

Mais uma obra sobre a irresístivel ascensão da China como nova super-potência no século XXI, ocupando o lugar da ex-União Soviética ao longo da segunda metade do nosso século. A um ano da devolução da soberania de Macau à China, refresque a memória e perceba o que se passa na Ásia, sem ilusões, mas também sem 'guerra fria'

Jorge Nascimento Rodrigues apresenta BIG DRAGON, da autoria de Daniel Burstein e Arne de Keijzer, e recorda os últimos passos da literatura sobre a China desde o princípio dos anos 90

Subitamente algum tempo depois da queda do Muro de Berlim e do irromper da crise económica no Japão, o jogo geo-estratégico ficou inesperadamente baralhado.

Alguém veio borrar a pintura de final de século sem ter sido convidado para tal pelo famoso «G7». A leitura 'ocidental' regozijara-se, na abertura dos anos 90, com um só 'polícia do mundo' e voltara a colocar na moda o papel da 'tríade' geo-económica representada pelos Estados Unidos, a Europa e o Japão.

Mais eis que uma carta fora do baralho aparece em cena em meados desta última década do nosso século: a China.

De início, a 'conversão' da China «vermelha» ao capitalismo fora vista como um maná dos deuses pelas multinacionais da 'tríade'. Um mercado tão descomunal abria o apetite a qualquer um e uma corrente ultra-optimista invadiu os 'media' e os meios políticos e económicos do 'Ocidente'. Todas as «pontes» ocidentais para aquele vasto mercado foram valorizadas ao extremo - o papel de Hong Kong, e mais modestamente de Macau, surgiu com todo o esplendor. Até que a consciência do que estava em jogo começou a aparecer à superfície. William Overholt escreveu, em 1993, China: A Próxima Superpotência (em inglês The Rise of China - compra do livro), traduzido, entre nós, pela Difusão Cultural em 1995, com algum optimismo moderado.

Três anos mais tarde, o futurólogo John Naisbitt, em Megatrends Asia (compra do livro), diria o mesmo só que com uma escrita algo eufórica sobre o próximo século da Ásia centrado na China, melhor dizendo sobre o próximo século da China.

Clique aqui para ler uma entrevista exclusiva com John Naisbitt a propósito de Megatrends Asia


De árvore das patacas a inimigo público

A cadeira vazia da segunda superpotência, deixada vaga pela ex-URSS, já tinha candidato. Ainda por cima, um candidato de peso, não só pela sua população, pela sua história milenar, como pelo surgimento na economia mundial de um mercado emergente de proporções jamais vistas - algo que a União Soviética nunca fora.

Mas este 'mercado emergente' não era o adicionar de mais um 'Dragão' do Pacífico - era o surgir do maior Dragão de todos os tempos, o aparecimento do maior jogador de sempre na arena internacional, como o referiu, numa ocasião, Lee Kuan Yew, o fundador de Singapura, e um dos chineses da 'diáspora' mais ouvidos em Beijing.

Esta constatação óbvia deixou arrepiados alguns meios académicos e políticos, sobretudo norte-americanos.

Subitamente, a China de árvore das patacas transformou-se na ameaça do século XXI. Livros com títulos sugestivos como «O Próximo Conflito com a China», em inglês The Coming Conflict with China (compra do livro), de Richard Bernstein e Ross Munro, tornaram-se 'best-sellers' e criaram o terreno para uma política de 'guerra fria' e de 'contenção' do novo gigante.

Um romance - Dragon Strike: The Millennium War (compra do livro) - sobre a curta Terceira Guerra Mundial em 2001 desencadeada pela China em torno das ilhotas estratégicas que controlam os corredores do transporte do petróleo nos mares do Sul da Ásia, mostra uma nova superpotência afirmando a zua zona de influência e jogando habilmente nas bolsas mundiais.

Clique aqui para ler a história de Dragon Strike contada por JNR em Xangai

De um modo mais 'rendilhado', e com a cobertura de uma investigação em torno das civilizações, o académico Samuel Huntington publicou uma obra polémica sobre o choque das grandes civilizações no próximo século e sobre a hipótese de uma guerra contra a China por volta de 2010, a que a Janela na Web já se referiu.

Apesar de The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (compra do livro) ter sido o livro de ouro dos 'falcões' da guerra fria com a China, Huntington propunha a «acomodação» ao facto consumado e uma partilha 'civilizada' entre zonas de influência das grandes Civilizações no próximo século. Uma versão da «coexistência pacífica» para chinês ver. Contudo, quer a corrente optimista sobre o efeito benéfico para os bolsos das multinacionais da emergência do mercado chinês, quer a pessimista e belicista, apelando ao reforço de uma nova 'guerra fria' contra a nascente super-potência, revelam algum desconhecimento sobre a China, segundo afirmam Daniel Burstein e Arne de Keijzer no livro agora publicado com o título sugestivo de Big Dragon (compra do livro).

Estratégia inteligente, precisa-se

Daniel Burstein Arne de Keijzer Os dois autores conhecem o país desde o final dos anos 60, desde que atraídos pela Revolução Cultural foram impelidos inadvertidamente pela história para 'acompanhar' o filme da queda do maoismo e da ascensão da transição para o capitalismo. Eles próprios 'evoluiram' com a situação - hoje são consultores de multinacionais que pretendem apostar estrategicamente na China.

O livro pretende insuflar algum realismo sem belicismo. A ascensão da China a nova segunda super-potência no século XXI seria um facto consumado, «escrito nas estrelas». Já o filósofo Bertrand Russell, em O Problema da China, o dizia em 1922! Mas a solução, segundo aqueles dois autores, não é a 'guerra fria', mas uma estratégia inteligente por parte do 'Ocidente'.

A China não estaria interessada «numa projecção global de força» pelo menos nas próximas décadas, ao contrário da União Soviética no período de ascensão hegemonista dos anos 70 e 80. O seu objectivo seria uma 'Pax Sinica' na Ásia, à qual, aparentemente, os japoneses já teriam começado a aceder discretamente, perdidas que estão as ilusões do Sol Nascente ser a «locomotiva» da Ásia Pacífico. Apesar de toda a pujança no crescimento económico e no disparo do capitalismo, a China continua com diversos calcanhares de Aquiles. Alvin Toffler chamava a atenção, ainda recentemente, para o atraso dela em relação à «terceira vaga». O que matou a URSS, poderá ser hoje o inesperado factor de 'contenção' da China.

Também, Paul Krugman punha a nú a debilidade do «factor produtividade total» neste país, algo que mexe estruturalmente com as ambições geo-económicas de quem quer que seja. Talvez por isso mesmo, os chineses continuem, paradoxalmente, a dizer, candidamente, que a China, nos próximos 50 anos, não passará de uma «economia mediamente desenvolvida».

Realismo na apreciação da evolução política é outro aspecto que Burstein e Keijzer recomendam face ao nervosismo comum dos que querem ver uma democratização de estilo 'ocidental' na China. A geração actual no poder só largará provavelmente algum pedaço do seu domínio por volta de 2002, aquando do próximo 16º Congresso do Partido Comunista da China. Mas a geração que se seguirá continuará, provavelmente, com o «gradualismo». Muito para além disso já será pura especulação. Escaramuças na região não são postas de lado no cenário pintado pelos dois autores, mas eles continuam a achar que a melhor estratégia do 'Ocidente' é a de explorar ao máximo o 'gradualismo' inventado por Deng Xiaoping.


Outras obras de referência da autoria de Arne de Keijzer: