Fred Bergsten

Os 'Gs' de geometria variável

O director do Institut for International Economics em discurso directo com Jorge Nascimento Rodrigues

Fred Bergsten Alguns analistas na Europa cultivam a ideia (ou desejo) de que a famosa tríade (EUA,União Europeia e Japão) está de volta no plano económico, e que esse «G3» (Grupo dos três) governará, de facto, o mundo. Isso será durável?

FRED BERGSTEN -- Não creio. O cenário mais provável para o próximo século centrar-se-á numa economia mundial muito diversificada e pluralista. Novas grandes potências económicas, até há algum tempo consideradas fora do baralho, poderão tornar-se facilmente jogadores globais, nomeadamente a China, talvez a Índia e ainda algumas outras. O actual «G7» tenderá a emagrecer para esse «G3» de que se fala, mas depois gradualmente terá de se expandir, a começar pelo acolhimento da China.

Aliás, no seu artigo na revista «Foreign Affairs» de Março/Abril de 1999 (ver 'America and Europe: Clash of Titans'), fala de uma geometria variável de «grupos» de decisão internacional no plano económico. Quer explicar?

F.B. - A minha visão sobre a 'gestão' económica internacional assenta numa série de círculos concêntricos informais de liderança e de decisão no plano económico e financeiro. E em primeiro lugar, haverá um «núcleo duro», formado pelos dois maiores espaços económicos e as duas moedas globais, os EUA e a União Monetária Europeia (UME). Creio que este «G2» deverá partilhar de facto a primeira responsabilidade. Eu sou um defensor de que a relação bilateral EUA-UME no plano institucional deve ser revigorada. O Japão, ainda que muito abaixo destes dois por ora, deverá depois integrar o «G3» de que se fala. Mas, naturalmente, que este grupo deverá expandir-se gradualmente, à medida que outros - e a começar provavelmente pela China! - se tornem suficientemente importantes na arena global, aconselhando a que não sejam colocados de fora.

Mas, agora, fala-se muito do «G8», incluindo a Rússia e tendo vários países da União Europeia representados também individualmente...

F.B. -- Essas geometrias mais alargadas indo até a um G-22 ou G-36, como quiser, permanecerão, provavelmente, como agrupamentos intermédios entre os círculos fundamentais de que falo e as instituições globais, como o Fundo Monetário Internacional.

Essa aliança estratégica central entre os EUA e a União Europeia vai implicar que tipo de relacionamento entre o dólar e o euro, as duas novas moedas globais? Alguns falam já da necessidade de uma ligação muito estreita, para evitar futuros «choques». Acha isso defensável?

F.B. - Eu duvido muito de uma perspectiva desse tipo, de uma ligação muito estreita entre as duas moedas globais de hoje em dia. Isso geraria uma situação de criação, de facto, de uma só moeda global. Penso que ambos os espaços económicos, americano e europeu, preferirão um alto grau de flexibilidade para as suas taxas de câmbio. No entanto, aceito que uma flutuação livre poderá provocar desalinhamentos graves e grande instabilidade entre os dois espaços económicos. E os desalinhamentos prolongados gerarão efeitos nocivos também noutros países que indexam as suas moedas àquelas duas.

Então qual é a solução?

F.B. - Este «G2» de que falo deveria acordar numa zona de flutuação de 10 a 15% para cima ou para baixo de um dado patamar médio, que reflectisse as posições competitivas de cada uma das partes e a inevitabilidade de uma diversificação de portefólios em direcção ao euro.

Mas crê haver, de facto, a possibilidade de uma nova grande crise, que venha a explodir na base de um choque desses dois titãs, o dólar e o euro?

F.B. - Eu suspeito sinceramente que a próxima «grande crise» resulte de mudanças bruscas entre as moedas dos principais países industriais. Depois da actual fraqueza do euro, o dólar - já o escrevi noutro local - sofrerá uma brusca queda, sobretudo em virtude de três ordens de razões: o elevado défice comercial dos EUA e da dívida ao estrangeiro; a inevitável desaceleração da economia americana com uma queda das taxas de juro; e o começo de um portefolio substancial de diversificação para o euro, enquanto nova moeda global. O ressurgimento económico na Europa e no Japão, quando se der, arrastando a subida das taxas de juro em ambos, sem dúvida que irá intensificar este cenário de crise e pode mesmo precipitá-lo.


Fred Bergsten é director do Institut for International Economics sedeado em Washington DC e foi presidente
do Conselho de Política para a Competitividade entre 1991 e 1995.


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