A Nova Aliança Sino-Americana - uma proposta perturbante

«O 'Ocidente' está morto como conceito historicamente útil»

China e Estados Unidos têm de dar as mãos para a globalização não fracassar. A situação de ambas grandes potências é de "dependência estratégica mútua" diz Thomas Barnett, um especialista norte-americano em defesa, professor do Naval War College americano. É esta nova aliança que deverá substituir o eixo americano-britânico que foi o pilar da aliança atlântica no século XX e o eixo nipo-americano desde a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial. No meio deste movimento estratégico, Europa e América Latina ficariam com escassa margem de manobra no jogo de potências mundiais.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com e Gurusonline.tv, Dezembro de 2005, com Thomas Barnett, a propósito do livro Blueprint for Action: A Future Worth Creating

Links de referência:
www.thomaspmbarnett.com | www.thomaspmbarnett.com/weblog

5 MUDANÇAS QUE PODERÃO OCORRER
  • China e Índia avançarão em direcção aos recursos críticos e estabelecerão alianças estratégicas pontuais ou regionais para esse fim. Pelo que os EUA deverão, desde já, acomodar-se a essa tendência e oferecer-lhes uma aliança estratégica
  • O terrorismo transnacional poderá vir a aninhar-se em África, encarada como local de retirada estratégica
  • A Rússia poderá jogar a cartada do gás e o principal destinatário é a Europa, com quem um "Bill Clinton" russo poderá querer estabelecer uma aliança estratégica
  • A questão da Coreia do Norte poderá ser resolvida se os EUA oferecerem uma NATO asiática à China, sacrificando Taiwan
  • Os Estados Unidos poderão voltar ao seu desígnio de alargamento da União, com a entrada de novos estados até meados do século
  • capa do livro Blueprint for Action: A Future Worth Creating A ideia é que os Estados Unidos para assegurarem "um segundo século americano" terão de mudar radicalmente as suas alianças geo-estratégicas. "O conceito de 'Ocidente' está historicamente morto. [Nós americanos] Não devemos gastar mais energias a tentar ressuscitá-lo", sublinhou-nos, Thomas Barnett, 43 anos, professor do Naval War College dos Estados Unidos, autor do polémico Blueprint for Action: A Future Worth Creating (Putnam, Outubro 2005). Um livro lançado recentemente que escandalizou os saudosos da "Guerra Fria" ao propor, preto no branco, que "a conclusão estratégica óbvia é que a aliança de longo prazo com a China será a pedra basilar da ordem geo-estratégica do século XXI".

    Barnett já escrevera no ano passado um outro livro - The Pentagon's New Map (Putnam, 2004) - que foi "bestseller" na lista do The New York Times, preparando a cama para duas ideias básicas rejeitadas fortemente por muita gente no Pentágono e na Administração norte-americana: "A China não é a próxima União Soviética" e "Se perdermos (de novo) a China podemos liquidar a globalização de novo".

    O temor das réplicas

    Segundo este especialista em defesa, vivemos "uma pausa estratégica de uma década ou mais" na rivalidade entre super-potências que pode ser uma janela de oportunidade para prosseguir a actual vaga de globalização pós-queda do Muro de Berlim. Sem o risco de ter uma réplica do início do século XX, quando a rivalidade hegemónica "estancou a vaga de globalização de então" e provocou duas guerras mundiais.

    Esta pausa actual foi oferecida pelo terrorismo transnacional, e deveria ser aproveitada para os Estados Unidos descobrirem "mais tarde ou mais cedo que temos mais em comum com os emergentes", do que com a Europa e o Japão, os dois pilares das alianças americanas até hoje.

    Desaconselha, por isso, a repetição da estratégia de "contenção" da doutrina da Guerra Fria, agora em direcção à China, o principal emergente. "Não há alternativa. Os EUA serão forçados a acomodar-se a esta nova realidade", repete-nos Barnett.

    Mundo a 3 e ½

    Para suportar esta ideia da viragem estratégica para os grandes emergentes - particularmente China e Índia -, Barnett reorganizou o Planeta em três mundos e meio, determinados pela geoeconomia e a geopolítica:
    - o núcleo central (os chamados países desenvolvidos apoiados no eixo EUA-Europa-Japão);
    - o novo núcleo central (sobretudo os 4 grandes emergentes, que a Goldman Sachs baptizou em 2003 de BRIC);
    - o perigoso "gap" (que cobre 1/3 da Humanidade em África, boa parte de Caraíbas e América Latina, parte dos Balcãs, Cáucaso, do Médio Oriente e da Ásia Central e do Sudeste);
    - e, finalmente, um quarto grupo de estados, um "meio-mundo", que forma como que uma "bainha", uma "costura", que pode funcionar como "ponte" do terrorismo transnacional entre o "gap" e os núcleos centrais. Nesta "charneira" se incluiriam países como o México, Brasil, África do Sul, Marrocos, Argélia, Grécia (na União Europeia) e Turquia, a par de outros, como o Paquistão, Tailândia, Malásia, Filipinas e Indonésia. Alguns destes países não gostarão nada de se ver metidos nesta "bainha".

    Encurtar o "gap", considerado como que "uma espécie de buraco do ozono não integrado na globalização", é "o objectivo das políticas de negócios estrangeiros para as próximas décadas", em que a legitimidade da "mudança de regime" e da "guerra preentiva" é advogada por Barnett.

    Dentro desta linha, admite resolver o problema da mudança de regime na Coreia do Norte a troco de "um custo hoje" (Taiwan) e da criação de "uma NATO asiática" com a China. Sugere, provavelmente para espanto dos leitores, que se "coopte" o Irão e se lhe dê "alguma responsabilidade na segurança regional".

    Sonha, ainda, com o dia em que os Estados Unidos, tal como "a União Europeia o faz", "back to business" na integração de novos estados, olhando para as suas traseiras na América Latina. Um dos seus desejos prospectivos é "Cuba como 53º estado da União" e coloca a Venezuela e a Colômbia como candidatos a mudanças de regime.

    Entre as suas previsões finais, duas dão que pensar. Acha que a Rússia ganharia em ter um Bill Clinton - "talvez lá para 2020", diz-nos - que fizesse a aproximação estratégica daquela potência do gás natural com a União Europeia. Por outro lado, deixa-nos um aviso: "África poderá ser amanhã o local de retirada estratégica do terrorismo transnacional".

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