O Regresso ao Atlântico?

Três cenários europeus em confronto para os começos do século XXI. Do desejo
de uma Europa do Atlântico aos Urais ao recentramento numa aliança transatlântica
com as Américas ou à livre expansão da globalização sem blocos regionais
ou fracturas civilizacionais. Cabe-lhe a si escolher

Jorge Nascimento Rodrigues visita três autores - Bernard Gordon, que antecipa o seu livro
«Trade Follies», Fred Bergsten, director do influente Institut for International Economics, de Washington DC e o polémico Samuel Huntington, autor de «The Clash of Civilizations and the Remaking of the World Order»


Em dicurso directo:
Gordon sobre a geometria variável
 Bergsten àcerca da América Latina como oportunidade europeia 

O cenário europeu vai ser palco nas próximas décadas de uma guerra de palavras entre três visões radicalmente distintas no plano geo-económico. Segundo alguns analistas, poderão ser antagónicas, mas para o pragmatismo do empresário 'internacionalista' são certamente oportunidades diferentes a ponderar.

Em resumo, confrontar-se-iam claramente duas visões sobre o Velho Continente no futuro próximo - os projectos de uma Europa do Atlântico aos Urais ou um regresso e recentramento no Atlântico nos começos do século XXI - com uma opção por um mundo sem blocos regionais defendida pela corrente que advoga a globalização sem limites políticos ou barreiras económicas.

O calcanhar de Aquiles gaullista

A visão de uma Europa política e economicamente integrada do Atlântico aos Urais não é nova. A «EurAsia» renasceu das cinzas com a queda do Muro de Berlim. Um dos seus mais fortes arautos actuais é o Le Monde Diplomatique.

Ainda recentemente, um dos seus articulistas (em 'Sempre Mais a Leste', assinado por Gilbert Achcar, da Universidade de Paris VIII, na edição em português de Abril de 1999), recordava a «lógica gaullista» de uma tal Europa, centrada no objectivo de «integrar a curto prazo o conjunto dos países da Europa de Leste na União Europeia, incluindo sobretudo a Rússia».

Um tal bloco continental assentaria na aliança euro-eslava, e em particular (sonham alguns franceses) no eixo franco-russo, como «meio de obter um duplo reequilíbrio», o da Europa face à Alemanha unificada e o da Eurasia face ao hegemonismo dos Estados Unidos.

Esta visão apaixona, naturalmente, as correntes de influência cultural francesa ou com algum atavismo anti-americano.

O calcanhar de Aquiles desta visão, dizem os que a contestam, é que o seu principal parceiro, a Rússia, falhou a revolução capitalista e democrática nos últimos dez anos e arrasta nessa fuga outros países com ambições de serem potências de segunda linha na Europa de Leste. As pulsões profundas que emergem numa parte do mundo eslavo são outras, que não coincidem com os cálculos dos europeistas mais ferrenhos.

O século do Atlântico?

Perdidas as ilusões da «EurAsia», renasce também, ciclicamente, o atlantismo. Esta corrente teme que aconteçam duas coisas: que o século XXI se afirme, de facto, como o da Ásia, concretizando as previsões do futurista John Naisbitt em Megatrends Asia (compra do livro), e que os dois «titãs» económicos e políticos actuais, os Estados Unidos e a União Europeia, se envolvam numa disputa bipolar pela hegemonia, desgastando-se e perdendo a liderança dos negócios do mundo.

Para os seus defensores, «o candidato mais plausível para ocupar o lugar central dos começos do século XXI é uma parceria económica transatlântica», refere-nos Fred Bergsten, o influente director do Institut for International Economics, em Washington DC.

Bergsten escreveu, recentemente, um polémico artigo na revista Foreign Affairs aludindo a esse «choque» potêncial ('America and Europe: Clash of Titans?', edição de Março/Abril de 1999. Artigo não disponível on line. Só por encomenda), insistindo na necessidade de «uma interdependência económica transatlântica que assuma a responsabilidade conjunta para a liderança global do mundo», uma espécie de «G2», que seja o núcleo duro de um conjunto de 'grupos' informais de geometria variável (ver entrevista que Bergsten concedeu à Janela na Web).

Este novo Mercado Transatlântico não agrada mesmo nada aos franceses do Observatório da Mundialização, sedeado em Paris. Pela pena de um dos seus articulistas no Le Monde Diplomatique ('O Novo Acordo Multilateral de Investimento', na edição de Maio de 1999, em português), esta estratégia é acusada de ser um ardil das multinacionais, através de um conjunto de «lobbies», como o Transatlantic Business Dialogue, o Business Investment Network e a Mesa Redonda Europeia dos Industrialistas. «O cenário parece antecipadamente traçado no sentido de que o condomínio EUA-Europa dirija a dança». escandaliza-se Christian de Brie, do referido Observatório.

De facto, a ideia da oportunidade atlântica tem crescido, particularmente nos Estados Unidos, face à constatação de que a Ásia e o Pacífico levarão muitos anos a recuperar. «O século da Ásia não está morto, obviamente. Depois da crise, a região regressará em força, estou convencido disso. Mas a questão é saber quem virá à cabeça. A China poderá muito bem tornar-se um jogador de primeiro plano, aproveitando todas as oportunidades que lhe forem oferecidas, e o Japão poderá ter perdido o barco, vendo-se a braços, no começo do século XXI, com uma disputa acesa pela liderança dentro da sua própria região de influência», explica-nos Fred Bergsten.

A pensar já nesses problemas, o primeiro ministro japonês Obuchi disse que os asiáticos deveriam quanto antes estabelecer uma zona de comércio livre do mesmo tipo que a europeia, em que o Japão e a Coreia (do Sul) deveriam ser o eixo estratégico.

 Leia aqui uma entrevista de John Naisbitt a Jorge Nascimento Rodrigues sobre Megatrends Asia 

A solidão americana

Mas, a corrente americana atlantista não tem ilusões sobre a possibilidade de «um segundo século da América», como a acusam alguns europeus em busca da miragem da EurAsia.

O académico que mais tem combatido a «solidão americana» é Samuel Huntington, o autor do sugestivo livro The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (compra do livro), que, no mês passado, voltou a escrever na revista Foreign Affairs uma crítica demolidora à estratégia dos que pensam que os Estados Unidos ainda reinam num mundo unipolar (ver o artigo 'The Lonelly Superpower', edição de Março/Abril de 1999. Não disponível on line. Só por encomenda).

Para Huntington, os políticos americanos ainda não teriam percebido a mudança que ocorreu nos últimos cinco anos. Eles continuariam a achar que o mundo vive ainda no pós-queda do Muro de Berlim em que os EUA se afirmaram como única superpotência absolutamente hegemónica. Para este polémico académico de Harvard, atravessamos uma situação de transição «hibrida», que mistura explosivamente uma superpotência sobrevivente da era bipolar com várias grandes potências cujo objectivo é instituir, no começo do século XXI, um mundo multipolar, com várias zonas de influência.

Huntington não desaconselha uma estratégia transatlântica e aceita o desenvolvimento, desde já, de uma política de coexistência pacífica entre novos blocos estruturados em tornos de grandes Civilizações, em que cada um fecha os olhos e deixa aos outros a resolução dos problemas no seu bloco respectivo. Essa é, aliás, a sua mensagem final no livro a que fizemos referência, e que poderá ver comentado na Janela na Web.

As loucuras regionalistas

A quem não agrada nada disto é à corrente dos 'globalistas'. A emergência dos blocos económicos e de fracturas entre Civilizações é «um retrocesso ao século XVIII», diz-nos Bernard Gordon, um dos mais respeitados cientistas políticos da Universidade de New Hampshire, que nos antecipou o seu próximo livro intitulado sugestivamente Trade Follies.

Os defensores da globalização contestam «a balcanização do mundo». «Essa divisão do Planeta ao longo de barreiras económicas acabará por degenerar, em última análise, em divisões e choques políticos, e redundará num retrocesso económico global», acentua o nosso interlocutor. Essas «loucuras» regionalistas no comércio internacional são particularmente visíveis na Europa e na tentação dos Estados Unidos engolirem o Mercosul.

Para Gordon, «a União Europeia terá atingido os seus limites em termos de integração económica». «É inconcebível que 60%, e mesmo 75% nalguns casos, das importações sejam feitas internamente, o que significa fechar completamente a países terceiros as oportunidades de concorrência na Europa»., exemplifica. Os malefícios desta situação já teriam sido inclusive percebidos por alguns empresários europeus, citando o caso da Confederação dos Industriais Alemães (BDI), que divulgou um estudo em que advoga claramente a aposta da Alemanha na globalização.

O projecto de criação de uma Zona de Comércio Livre das Américas (FTAA), que estendesse a sul a NAFTA (acordo entre os EUA, Canadá e México) é também contestado por Gordon, que inclusive refere que no plano dos factos económicos o Mercosul não é um «mercado natural» do vizinho do Norte, mas da Europa (ver entrevista que ele concedeu à Janela na Web). «O conceito de mercado natural e de proximidade geográfica não faz mais sentido no mundo actual de emergência da economia digital, a par do correio aéreo expresso e do contentor do pós-guerra», conclui Bernard Gordon.

Uma outra obra recente, dentro da mesma linha, é a da autoria do colunista do The New York Times, Thomas Friedman, que em The Lexus and The Olive Tree (compra do livro) refere que a «Internet e a Web são os agentes que tornam inevitável uma sociedade de mercado transparente, democrática e descentralizada à escala global». A globalização seria um novo sistema e não apenas uma tendência entre outras. Actuaria, por isso, «automaticamente». «Automatismos» em História não existem, dirão os críticos.