O NOVO VALOR ECONÓMICO: A ATENÇÃO
A economia da atenção - não a informação - é a economia natural do ciberespaço. Cativar a atenção é o mecanismo de ouro para criar valor na nova economia emergente. Um físico teórico californiano prepara um livro polémico sobre o assunto, depois da revista «Wired» ter feito eco da estranha teoria económica
Jorge Nascimento Rodrigues com Michael Goldhaber
Estamos habituados a raciocinar sobre a «sociedade da informação» como terra prometida da abundância da referida informação. Esta ao multiplicar-se geraria cada vez mais valor económico - e eis uma das novas propaladas leis económicas.
A linha de exclusão dar-se-ia entre info-ricos e info-pobres, consoante a capacidade ou não de cada um ter acesso ao maravilhoso mundo novo do PC em cada casa ou da Internet para todos. Mais: os estados democráticos, temerosos de que um dia os info-pobres cortem o pescoço aos info-ricos, procuram massificar a dita informação.
A pergunta incómoda vem a seguir: mas será que a tal informação abundante gera conhecimento a quem a ela tem acesso e riqueza a quem dela faça negócio na nova economia?
Michael Goldhaber, um físico teórico californiano, de 56 anos, tornado estudioso das questões 'pós-industriais', pede licença para discordar vivamente desta visão hoje oficial. Há mais de uma dezena de anos que anda a remoer teoricamente o assunto, pois não se convenceu com a facilidade com que as instituições do regime absorveram conceitos como a 'Idade da Informação' e a 'Terceira Vaga' e os integraram na teoria económica e social corrente.
O que ele verificou, começou por nos sublinhar, é que «o problema com estas designações é que foi fácil de mais aderir a elas sem ter de mudar grande coisa na forma de pensar a economia».
Os novos conceitos foram digeridos com os velhos óculos do sistema capitalista e criaram-se alguns mitos. Um deles, muito vulgarizado, é, de facto, o da abundância da informação como motor das economias mais desenvolvidas.
«Mas como é possível haver economistas que defendam semelhante coisa?», interroga-se, para de seguida nos responder: «As economias são governadas pela escassez, como dizia o economista Paul Samuelson, e a informação, pelo contrário, e sobretudo cada vez mais na Internet e na Web, é abundante, para não dizer transbordante».
Jogo de soma nula O truque da nova teoria económica será o de descobrir o(a) candidato(a) a ocupar esse lugar da «coisa» escassa que trará riqueza. Para o nosso físico teórico, que vive em Oakland, do lado de lá de São Francisco, a única forma de o fazer é pensar «radicalmente» - ou seja fora do quadro de pensamento a que estamos habituados. «As leis da economia que está a emergir são diferentes quanto ao essêncial das que funcionam para o capitalismo, como aconteceu entre este e o feudalismo», acrescenta.
Por isso, ele foi investigar o que motiva, por exemplo, milhões de pessoas, empresas e entidades a se pocionarem na Web, oferecendo a sua informação nesse novo mercado, aparentemente sem retorno palpável.
Explica-nos: «Ninguém coloca nada em lado nenhum sem a esperança de receber algo em troca», adverte o nosso interlocutor contra a ingenuidade militante de muitos analistas. Goldhaber 'descobriu' que esse «algo» era a atenção - a atenção do leitor, ou de uma audiência, ou de um público fiel.
«A atenção - e não a informação - é a economia natural do ciberespaço. O que é escasso, e que portanto poderá fundar a nova economia, não é a informação, mas sim o que se poderá ganhar colocando-a no mundo, ou seja vista pelo outro lado, pelo lado do potencial consumidor, pelo lado da chamada procura».
O leitor aqui, retorquirá, que 'ganhar' significa universalmente dinheiro e não essa tontice da atenção. Mas Goldhaber insiste: «O montante total per capita de atenção é estritamente limitado. Incomparavelmente mais limitado do que o dinheiro. E funciona também como um jogo de soma nula. O que alguém obtém ao cativar a minha e a sua atenção, outro certamente perderá. Não é possível uma igualdade de resultados para as várias opções de oferta».
Esta tese cativou a atenção de alguns media mais ligados à chamada nova economia. A revista Wired consagrou o tema no final do ano passado ao publicar um artigo de Michael Goldhaber, na edição de Dezembro de 1997, que serviu para despoletar a polémica.
O autor, acicatado pelas reacções, prepara, agora, a publicação de um livro sob o título de A Economia da Atenção.
|
Clique
aqui para ler uma apresentação
do novo livro
|
A inversão da publicidadeQuem melhor compreendeu esta dinâmica económica foram os que habitualmente chamamos de 'estrelas', nomeadamente nos desportos, no entretenimento e nas artes, particularmente desde meados dos anos 60, refere Goldhaber. Depois estendeu-se aos políticos e às personalidades 'globais' (como recentemente se percebeu com a princesa Diana) e, finalmente, foi agarrada por algumas categorias profissionais e pelos próprios líderes empresariais.
Os consultores, como Tom Peters, e mais tarde Michael Hammer (com a reengenharia) foram expoentes desta estratégia de criar valor captando a atenção dos gestores e dos 'media'.
Milton Friedman e agora Paul Krugman, com a projecção que lhe está a dar a revista Fortune, são exemplos vivos no campo da academia. Nos 'media', a CNN transformou-se numa 'fábrica' de estrelas da informação e polémica no momento. Bill Gates, o conhecido homem mais rico do mundo, é, desde há alguns anos, um exemplo desta mesma estratégia na classe empresarial.
A própria publicidade está a ser revirada do avesso. A 'estrela' é a própria marca e os produtos e serviços transformam-se em 'merchandising' pessoal. Os produtos e serviços tornam-se eles próprios 'formas' de captar a atenção.
Outra inversão inesperada é-nos explicada por Goldhaber: «Ainda vamos assistir à publicidade se focalizar no criador artístico mais do que na própria empresa ou produto que a encomendou». Os produtos dos clientes serão como apêndices no chapéu do publicitário de renome.
Um fosso social medonho A posse da atenção dos outros é um valor durável com efeito multiplicador se for cuidadosamente cultivada. O nosso físico teórico californiano desenvolveu em torno dela um conceito original de propriedade. Pela primeira vez, a propriedade de algo por parte do 'produtor' pode estar dentro do próprio consumidor.
Ou seja, diz-nos Goldhaber: «A propriedade da atenção reside paradoxalmente na cabeça dos fãs. As estrelas activam-na regularmente, quando fazem algo que reaviva a atenção dos fãs». Em linguagem de ficção, funciona como um «chip» implantado nos súbditos.
Por isso, é um mecanismo de fidelização extraordinário, que está a gerar um abismo social jamais visto. «O fosso entre estrelas e fãs é medonho, como todos constatamos no dia-a-dia. E, nesta época de transição, isso começa a ser bem visível. O dinheiro corre lado a lado com o privilégio de captar a atenção. A conexão entre o dinheiro e o estrelato é muito íntima».
| Michael Goldhaber foi físico teórico, tem 56 anos, dirige o Center for Technology and Democracy. Vive em Oakland, do outro lado da Bay Area de São Francisco, na Califórnia, e lecciona na Universidade da Califórnia em Berkeley no Institute for the Study of Social Change. Em 1986 escreveu Reinventing Technology, editado pela Routledge |
A LER AINDA: