A Tasquinha do Santos

Resumo das partes 1 e 2 (nos 2 e 3 da «Internet Prática»)
A Tekno-Teknica, empresa onde as novas tecnologias são usadas com excessiva parcimónia, perdeu - em boa parte devido a esse facto - uma encomenda importante:
O vendedor, o eficiente Sr. Batatinha, ficou preso num engarrafamento e não pode entregar a tempo a proposta comercial em que tanto se esmerara.
E o correio electrónico também não pode salvar a situação porque a empresa se encontrava ligada à Internet por uma ligação cuja password só era do conhecimento do Eng. Estultício - o Grande Chefe - que, nesse preciso momento, embarcava no avião para o Hawai...

Parte III

Eu julgo que deve ser fácil imaginar a cara com que fiquei quando me deparei, precisamente, com o Sr. Batatinha e o Eng. Estultício a lerem, no café, o último número da «Internet Prática» em que eu gozava com eles!
De facto, estava eu sem saber se me havia de aproximar ou não, quando o engenheiro, ao ver-me, me chamou, com exuberantes gestos, agitando a revista na mão direita e exibindo um largo sorriso:
- Venha cá, seu pirata! Venha cá, que estamos para aqui fartos de rir com a crónica que você escreveu!
E completou, enquanto eu, a contra-gosto, já puxava uma cadeira para me sentar:
- Vá lá... vá lá... que você ainda teve a gentileza de alterar os nossos nomes e os da nossa firma. Mas deu para enfiar a carapuça, lá isso deu...
O homem estava muito bem-disposto, ao contrário do que se passava comigo, que me sentia sem jeito, pois nunca pudera pensar que aqueles dois cavalheiros folheassem (e muito menos lessem!) uma revista de Internet!
- O meu rapaz anda no Técnico e compra estas revistas todas. - Explicou - Ao ler este seu artigo, como ele já sabe do que a casa gasta, veio logo meter-se comigo!
Eu continuava sem saber o que dizer. Mas também não era preciso preocupar-me com esse aspecto pois o grande homem estava imparável e falava por todos:
- Sente-se aqui connosco, que já agora vai ouvir-me a filosofar um pouco...
Sentei-me na beirinha da cadeira, olhei para todos os lados para ver se o empregado vinha (por forma a permitir-me ganhar algum tempo e fôlego), e preparei-me para o pior...
- O meu amigo, por acaso, nunca teve um buraco na meia, mesmo no sítio do dedo grande do pé?
Confesso que esperava ouvir tudo menos uma pergunta dessas! Por isso limitei-me a acenar que sim com a cabeça. Fiquei à espera do resto do discurso e ele, apreciando o meu interesse que até não era totalmente fingido, prosseguiu:
- A solução, é claro, é trocar as meias uma com a outra. Ou então virar do avesso a meia que incomoda....
- Está bem pensado... - comentei, só para não ficar em silêncio, até porque o Sr. Batatinha também não abria a boca.
Recostando-se na cadeira, perfeitamente seguro da situação, o Grande-Chefe continuou:
- Agora suponha o meu caro amigo que resolve fazer as duas coisas: primeiro, vira a meia do avesso, e depois troca-a de pé. O que é que acontece, hem?!
E, chegando-se um pouco à frente, ficou a olhar fixamente para mim, sorridente e com os olhinhos a piscar, sabendo de antemão o que eu lhe ia responder.
- Fica na mesma com o problema inicial... - respondi, a medo, e continuando a sentir-me desconfortável com a situação, tanto mais que ele fechara a revista com alguma brusquidão.
- Ora aí está! - E afinfou uma grande palmada na contracapa - Ao querer resolver demais, dá-se mal!
Esse mesmo princípio aplica-se a tudo na vida, meu caro amigo, nomeadamente à modernização da minha empresa!
Atrevi-me a fazer cara de quem não compreendia...
- Modernizar, sim, mas moderadamente. Nunca ouviu a frase «Progresso, só o estritamente necessário»?
E, dando o raciocínio por terminado, pegou no copo da cerveja, emborcou com ruído e prazer o que faltava, pousou-o, e exclamou (talvez para mostrar que tinha estudos) enquanto limpava a espuma do bigode - Q.E.D., que significa: Quod erat demonstrandum.
Eu continuava paralisado, e até já sentia uma impressão no dedo grande do pé direito...
Mas as surpresas ainda não tinham acabado:
Inesperadamente, o homem colocou em cima dos joelhos uma pasta de executivo, fez girar as rodinhas para desfazer o segredo, abriu-a, e tirou de lá de dentro uma boa dúzia de revistas de informática! Todas elas tinham CD-ROM colados na capa, e ele passou a explicar, feliz por me ver boquiaberto:
- Você, na sua crónica, gozava connosco por estarmos ligados à Internet através de uma ligação do tipo brinde de 15 horas... Pois reconheci que tinha toda a razão e não podíamos continuar assim. Por isso temos aqui mais de uma centena de horas de brinde que estas revistas dão. Um-a-Zero e cheque-mate! Certo?
Eu queria mas era desaparecer dali! Mas não conseguia uma boa desculpa, e o Sr. Batatinha também não me ajudava nada, pois com o seu ar angustiado e com o seu silêncio eloquente era como se me suplicasse para ficar...
E o Eng. Estultício continuou, imparável, gostando de se ouvir:
- Finalmente, você termina a sua certeira crónica gozando com a situação verídica e caricata de o nosso Batatinha ter ficado com o carro preso num engarrafamento...
Nessa altura interrompeu-se, olhou para o relógio como quem acaba de se lembrar de uma coisa muito importante, e exclamou:
- Bolas, Batatinha! Está na sua hora! Pire-se, não perca a aula, que eu pago a conta!
- O Sr. Batatinha anda a estudar? - perguntei depois, simulando interesse, mas no fundo feliz por antever a possibilidade de mudar o rumo da conversa.
- Não é propriamente estudo... Ele vai é para a aula de condução, que a empresa lhe paga. No seguimento, precisamente, da sua certeira crónica...
- Mas ele não tem carta de condução?! Não estávamos mesmo a comentar que...
Interrompeu-me, e concluiu, displicentemente, enquanto chamava o empregado para pagar a conta:
- De motos, não...


Publicado na "Internet Prática" n.º 8, Dez de 99

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