A Tasquinha do Santos

Resumo da Parte I
Na primeira parte desta Crónica (que publicámos no último número da «Internet Prática») abordava-se o problema das mentalidades dos decisores e concluía-se como isso é determinante no sucesso ou insucesso das empresas que dirigem, especialmente em função da sua atitude face à aparição das chamadas novas tecnologias.
Referia-se o caso real de um simpático tasqueiro de Macau (que gere o seu estabelecimento de comes-e-bebes com espírito mais aberto do que muitos gestores da nossa praça), e de um japonês de uma empresa de vanguarda que encara a tecnologia como se ainda vivesse no tempo dos samurais...
Esta segunda parte do texto aborda, no entanto, um outro aspecto da questão:
O seu lado darwiniano.
É que uma coisa é ser um caricato gestor inforfóbico de uma empresa que está sozinha no mercado (e proceder em conformidade) e outra (muito diferente...) é agir da mesma forma quando a competição existe e é feroz e eficaz...
Neste último caso...
... ai dos que têm a pouca sorte de estar a bordo do barco que esses patuscos governam!
Rezai por eles... Ou talvez não...

Parte II

A propósito de concorrência tenho, pois, que vos contar outra pequena história:
Dizia, há tempos, o patrão da Tekno-Koisas, rindo, para quem o quisesse ouvir:
- Connosco não há problemas! Nós não usamos essas modernices mas estamos perfeitamente ao nível do inimigo!
E era uma grande verdade:
O principal concorrente da Tekno-Koisas (a temível Tekno-Teknica), acabara de ver em risco uma encomenda de muitas dezenas de milhar de contos...
Vejamos como se passou a aventura, omitindo o desfecho no que respeita ao aspecto puramente comercial.
Consultei-a para um determinado produto relacionado com telecomunicações e, sabendo eu que - naturalmente! - tinham correio electrónico, pedi que o usassem na correspondência comigo.
Bem... durante toda a discussão prévia ficou claro que não iria ter muita sorte:
Eu escrevia-lhes e-mails, que eles recebiam, abriam e liam, mas as respostas vinham por todos os outros meios possíveis menos por esse:
Telefone, telemóvel, telefax, carta, telex, telegrama (e às vezes até vinham pessoalmente ou enviavam um paquete). Decerto encararam também o uso do pombo-correio, do telégrafo de Morse, do tan-tan e dos sinais de fumo, mas por e-mail é que nunca apareceu absolutamente nada.
Ora, na véspera do último dia de entregar a proposta, dizia o sempre eficiente Sr. Batatinha, responsável pelo negócio:
- O meu amigo esteja sossegado, que esta coisada chega aí a tempo. Vai hoje ao fim do dia por Correio Azul, e se for preciso vou eu mesmo aí levá-la amanhã! É como se já aí estivesse!
À última hora, já eu estava com o lacre na mão para selar o embrulho, e ainda não tinha chegado nada...
Resolvi então telefonar. E diz-me a secretária:
- Ontem a proposta acabou por não estar pronta a horas de ir para o correio. Mas o senhor Batatinha já foi para aí há bastante tempo! Suponho que deve estar mesmo a chegar...
Assim que pousei o telefone, ele tocou. Era o nosso homem, choroso, num telemóvel roufenho:
- Você sabe lá o que me aconteceu… Estou para aqui engarrafado na Rotunda do Aeroporto! Há uma camioneta virada e não sei quando é que saio daqui!
Não me contive:
- Oiça lá, ó Sr. Batatinha! Eu já nem lhe pergunto porque é que não mandaram isso por e-mail… Mas você não pode, aí do telemóvel, dar indicações à vossa Secretária para ela excepcionalmente e só hoje, sem exemplo… nos mandar o ficheiro por correio electrónico?!
- Ó meu caro amigo… não se zangue nem me goze, que eu até tenho vergonha de lhe dizer o que se passa...
E, baixando a voz, prosseguiu - após uma pausa associada a profunda reflexão - medindo bem as palavras tendo em conta as revelações que decidira fazer:
- Sabe? É que a Tekno-Teknica está ligada à Internet por uma dessas ligações do tipo brinde de 15 horas...
- Deixe lá, que não é a primeira... - comentei, para o animar, enquanto recordava casos semelhantes.
- Pois... mas o problema é que a password é controlada pelo Grande-Chefe, que não a dá a ninguém!
Evitei comentários acerca de chefes excessivamente desconfiados e limitei-me a fazer a pergunta evidente:
- Então, já que é assim, porque é que não pede ao Grande-Chefe que faça ele o envio?!
A resposta, arrasadora, acabou com a conversa:
- Vim precisamente agora trazê-lo aqui ao Aeroporto… e ele vai no avião que está a levantar... Não ouve o barulho?
Ouvia-se até muito bem: era um avião... a reacção! (*)


(*) Apesar de tudo, e devido ao ambiente de restrita concorrência em que se movem, a Tekno-Koisas e a Tekno-Teknica ainda não foram ao ar...

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