A Tasquinha do Santos

Parte I

Há algum tempo atrás passei umas semanas em Macau e ia quase sempre almoçar à Ilha da Taipa, onde há vários restaurantes; e entre eles um, muito especial, chamado «A Tasquinha do Santos».
Ora, numa noite de confidências e entre um café e um brandy, o nosso amigo Santos desvendou, em voz baixa, o segredo do seu sucesso:
É que, além de ter um serviço impecável, um preço baixo e aceitar cartões de crédito, todas as manhãs, ao escrever a ementa, junta-lhe uma meia dúzia de linhas com algumas piadas, novidades, adivinhas, palpites de meteorologia, comentários a assuntos do dia... e ainda informações importantes, tais como...

* Não se esqueçam que amanhã estamos fechados!*
* Olhem que hoje há um petisco novo!*

e coisas assim.
Depois pega nessa folha e envia-a por fax para uma quantidade de escritórios de onde vem a maior parte dos seus clientes.
No fim de contas é quase uma home-page e uma mailing-list, à boa maneira da Internet!
E, além do mais, até prevê a interactividade, pois ele não se esquece de indicar o seu número do telefone, do telemóvel e do telefax para que as pessoas possam fazer marcação de mesa ou encomendar qualquer coisa especial.
Digamos que, na medida das suas possibilidades, usa todas as tecnologias ao seu alcance para melhorar o seu negócio.
E ele, que não é nada parvo nem anda a dormir, chegou-me a dizer um dia:
- Eu cá uso tudo: tecnologias novas, velhas, de meia-idade... Desde que dê para aumentar as receitas, não olho para trás! E quando vier aí a Internet, se for verdade o que você diz, também marcha!
Pelo que não me admirava nada se a qualquer momento tropeçasse com o URL da tasca!
Ora um dia, num escritório de uma multi-nacional ali perto, tendo eu acabado de contar a história do Sr. Santos, um dos presentes mostrou-me uma coisa muito interessante:
Uma montanha de dossiers acabados de chegar de Lisboa.
Vim a saber que se tratava de um documento, todo feito em Word, cujo envio tinha custado umas centenas de contos e que tinha demorado uma semana a fazer a viagem.
Ora esse envio, se tivesse sido feito por correio electrónico, teria demorado uns 2 minutos e custado muito menos que um maço de tabaco.
O mais espantoso é que, quer a pessoa que o enviou quer a pessoa que o recebeu, pertenciam à mesma firma, tinham correio electrónico e ambas sabiam disso!
Mas o problema parece ser geral:
Há pouco tempo recebi uma folha de formato A3, contendo um mapa em Excel, e que me foi enviada por fax.
A particularidade é que vinha do Japão, de uma das firmas mais famosas do mundo.
Ora, sendo em A3 e vindo por fax, o documento teve que ser cortado ao meio antes de ser metido na máquina. E, devido a esse meio de transmissão, chegou cheio de riscos e de manchas e praticamente ilegível.
Mas, já sabendo que isso podia acontecer, o japonês, com uma sabedoria oriental, enviou-me ao mesmo tempo uma cópia boa… mas por DHL!
Ora eu precisava de retransmitir o documento com urgência, e necessitava, para isso, duma cópia decente sem poder esperar pelo correio que havia de chegar sabia-se lá quando!
Contactei o representante deles cá em Portugal, e perguntei-lhe se a casa-mãe não teria correio electrónico.
A resposta foi engraçada:
- Claro que tem! Mas o que é que você quer?! Esse japonês, concretamente, é que se recusa a usá-lo! E não há maneira de o convencerem a mudar de ideias!
E concluiu, choroso:
- Isso podia não ter grande mal se fosse só o gajo a gastar o dinheiro... Mas, como não nem sequer me dá o endereço dele, obriga-me a responder-lhe também por fax. Não imagina a fortuna que gasto por causa dessa brincadeira!
Ora eu tenho pensado muito como é que é possível que o Sr. Santos, um homem apenas com a quarta classe, esteja mais aberto a usar todas estas coisas novas (?) do que técnicos de firmas que é suposto respirarem a espuma da crista da onda das novas tecnologias...
Pôr o dedo na ferida não é fácil, (pois há mais feridas do que dedos, e todas elas ligadas entre si) e haverá que pôr os dedos...
...nas mentalidades, na idade, na formação, na motivação… por vezes mesmo na simples cultura geral e até - porque não? - na inteligência propriamente dita.
E acaba-se, mais cedo ou mais tarde, por ir encalhar num ponto:
A responsabilidade das hierarquias.
Quase invariavelmente, quando se observa mais de perto uma empresa que NÃO usa estas coisas novas (e algumas, como os computadores não se pode dizer que sejam muito novas…) descobrem-se nos lugares de chefia pessoas que há muito passaram os 40 - 45 anos de idade e que se lhes referem como modernices...
Pois, quer se queira quer não, a idade é um factor que pesa muito (e eu por mim falo que andei às aranhas para aprender a mexer num PC e nunca consegui andar de skate...)
Claro que há muitas e honrosas excepções. Mas que, como excepções que são, só confirmam a regra.
Bem, mas a outra face do problema também daria para estarmos aqui uma infinidade de tempo:
Será que, por sua vez, essas tecnologias novas se apresentam, ao comum dos mortais, sob um aspecto fácil?
Embora se tenha ultimamente caminhado muito nesse sentido, acho que a resposta ainda é um rotundo "não"...
Mas os responsáveis hierárquicos não se podem colocar - nesse aspecto - ao nível do comum dos ignorantes mortais.
Por inerência das suas funções têm que, pelo menos, tentar perceber o que se passa no mundo.
E o problema é que um número muito considerável de entre eles… tenta… tenta… mas ainda não percebeu.
Alguns, quando muito, começam agora a ter uma vaga ideia...
Há empresas, que julgam que evoluir é, por exemplo... arranjar uma máquina de escrever melhor - quando o que têm a fazer é usar processadores de texto;
  • ou arranjar uma máquina de calcular com mais dígitos ou mais funções - quando o que têm a fazer é usar folhas de cálculo;
  • ou arranjar uns tira-linhas melhores - quando o que têm a fazer é usar programas de CAD;
  • ou arranjar um telefax mais rápido e com mais memórias - quando o que têm a fazer é usar o correio electrónico;
  • ou pôr uns anúncios maiores, - quando o que têm a fazer é tratar de arranjar uma Home-Page...
  • É que o que está em causa não é usar MAIS DO MESMO, mas sim usar OUTRAS coisas completamente DIFERENTES...

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