Serapião, o Sabichão

 

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Ora vamos lá ver...


      De vez em quando o meu amigo Serapião inventa umas engenhocas muito úteis. Outras
      vezes, são apenas divertidas. Outras vezes ainda (como é o caso de hoje), podem ser
      ambas as coisas...

   Numa das últimas tardes de intenso calor, estava eu a andar pela rua fora, sem destino certo (e a rememorar, saudoso, as minhas férias no Algarve), quando reparei que estava a passar à porta da casa do Estultício e do meu novo amigo Serapião.
   Quase instintivamente olhei para cima para ver se havia alguém à janela. Não havia. No entanto, como este mundo parece feito de coincidências, logo calhou aparecerem os dois, ao longe, vindo na minha direcção e a caminho de casa.
   Prevendo que me iriam convidar para subir e talvez tomar qualquer coisa fresca, esperei por eles à porta do prédio.
   Vinham ambos em grande galhofa. Para bem dizer, nem pareciam pai e filho, mas antes dois garotos traquinas que acabavam de pregar alguma partida ou - no mínimo - se preparavam para o fazer!
   E foi no meio de muitas risadas que me convidaram a subir. Fiz questão de saber o que estava a acontecer mas explicaram-me que as duas coisas estavam relacionadas:
   Eu que subisse, e lá em cima iria perceber o que se passava. Aceitei, evidentemente.
   Agora imagine-se a minha cara quando, ao entrar na sala de estar, me deparei com um gigantesco alguidar cheio de água, mesmo no meio da divisão, e onde a D. Elisa (de saia arregaçada, descalça e com os pés lá dentro) chapinhava alegremente!
   Claro que, ao princípio, ainda pensei que a senhora tivesse os pés doridos, mas a sua boa disposição fez-me antes desconfiar que a família toda enlouquecera!
   Além do mais, houve uma coisa muito estranha: a boa senhora, sempre tão bem educada e tão simpática para mim, ignorou a presença da minha pessoa e nem sequer respondeu às minhas «boas-tardes»!
   Porém, quando depois me aproximei, julguei perceber o que se passava - pelo menos em parte:
   Ela estava com uns estranhos óculos escuros (que a deviam ter impedido de me ver) e com uns enormes auscultadores (que a deviam ter impedido de me ouvir).
   Quer de uns quer de outros saiam uns longos fios que ligavam a um computador, num canto da sala. Estaria decerto a ouvir música pelos auscultadores. Mas... e os óculos?! Porque é que teriam fios?!
   O Serapião e o pai também não a interromperam. Antes me fizeram sinal para estar calado, puxaram três cadeiras de descanso para junto do enorme alguidar, sentaram-se e convidaram-me a fazer o mesmo!
   Depois descalçaram-se, e eu não tive de aguardar muito tempo até perceber que eles esperavam que eu os imitasse!
   Embora sentindo-me um verdadeiro idiota, assim fiz...
   Mais ou menos por essa altura apareceu o Bobi, o novo cão-salsicha lá de casa. E, dando ao rabo e sem esperar pelas minhas festas, pimba! Saltou para dentro de água, molhando tudo em redor!
   Perante o meu ar atónito, o Serapião e o pai se esticaram-se um pouco e, de uma mesa que ali estava perto, tiraram dois conjuntos de óculos e de auscultadores semelhantes aos que a D. Elisa tinha posto.
   Equiparam-se e recostaram-se, felizes e sorridentes!
   Então e eu?! Qual seria o meu papel no meio daquilo tudo?!
   Mas estava tudo previsto:
   - Você não está esquecido, caro amigo - comentou o nosso jovem. - Estou só a ver se a material está em condições. Ponha lá isto e diga-me o que acha.
   E foi assim que, em breve, me vi transportado (com vídeo tridimensional e som estereofónico) a uma praia das Caraíbas!
   Os auscultadores transmitiam o marulhar das ondas e o piar de gaivotas... e os óculos deixavam ver, com toda a nitidez e em vista panorâmica, uma paradisíaca ilha deserta!
   Mantendo os óculos postos, baixei os auscultadores para poder conversar e pedir ao Serapião (pois era evidente que fora ele o criador daquela maravilha digital) os esclarecimentos que se impunham.
   Ele, sorrindo, comentou:
   - Repare que, no lado direito da armação dos óculos, há um pequeno botão rotativo. Tem dez posições, correspondendo a outras tantas praias, desertas ou apinhadas de gente. Tudo digital e ao gosto do freguês. E tão verdadeiro quanto me foi possível fazê-lo a partir de ficheiros que obtive na Internet.
   Estava eu sem saber o que dizer quando ele me segredou:
   - Há-de ver que esses óculos (que são os meus) têm um micro-switch. Os da minha avó e do meu pai não têm. Trata-se de uma espécie de up-grade... É nele que está o segredo-da-abelha!
   Apalpei com o dedo e confirmei.
   - Para que serve? - perguntei, verdadeiramente curioso.
   - Já vai ver. E, do lado esquerdo, tem aí um outro botão. É para focar, se for preciso.
   Claro que não tardei a colocar de novo os auscultadores e a actuar o pinchavelho.
   Mas confesso que esperava tudo menos ver uma velhinha, desdentada e em biquini, a sair sorrateiramente de trás de uma palmeira, sorrindo para mim e tratando-me pelo nome (ainda por cima sem conseguir controlar os perdigotos)!
   Baixei de novo os auscultadores e olhei interrogativamente para o Serapião, preparando-me para ouvir a explicação que o nosso jovem decerto me daria.
   - Ó sócio! Com franqueza! Ainda se fosse a Claudia Schiffer!...
   Mas ele, piscando-me o olho, aproximou-se de mim e sussurrou-me:
   - Calma, meu amigo! Isso ainda é só a versão beta!

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