Serapião, o Sabichão

 

8
Tudo por medida


      Depois de um mês de merecidas férias, e perante a necessidade premente de arranjar
      assunto para a crónica mensal na revista, procurei encontrar-me com o Serapião.

   Mas, afinal, foi com o Estultício que me deparei, e até nem foi na sua casa nem sequer no café do costume.
   Cruzámo-nos no meio da rua, na Baixa, perto da casa dele e, para meu grande espanto, pareceu nem dar por mim!
   Ainda ele vinha ao longe e já eu reparava que o homem estava muito atento, quase obcecado, a falar ao telemóvel. Mas, observando com atenção, notei que não era só isso, e que se passava mais qualquer coisa:
   É que ele, de facto, vinha agarrado ao aparelho, trazia-o encostado ao ouvido (evidentemente), mas parecia só escutar e não falava!
   E, de tão absorto que estava, passou por mim, quase me tocando, e nem me viu - ou, se tal aconteceu, nem me ligou!
   Ao princípio, resolvi não dar atenção ao caso, mas a necessidade imperiosa de escrever a crónica mensal levou-me a retroceder, depois a segui-lo, aguardando que desligasse e que se proporcionasse uma oportunidade para podermos conversar um pouco.
   No entanto, a cena que eu estava a presenciar parecia não ter fim:
   Ele continuava a andar, a andar (sempre em silêncio), e, reparando melhor, notei que o fazia com um passo incerto: ora muito depressa, ora muito devagar... E, por vezes, até parava em frente a uma loja qualquer. Quando isso acontecia, ria-se à gargalhada e, uma das vezes, até entrou!
Parecia um maluquinho e algumas pessoas começavam até a olhar para ele com ar surpreso. Como a cena já se prolongava há muito tempo, era evidente que algo de muito estranho se passava.
   Decidi-me, então, a intervir discretamente, aparecendo a seu lado como que por acaso, dando-lhe um pequeno toque no ombro ou no braço, obrigando-o a dar-me atenção e a esclarecer aquilo que já era um verdadeiro mistério.
   E foi exactamente nessa altura que ele, dando um salto e soltando uma imprecação de que não o julgava capaz, desligou abruptamente o telemóvel e o meteu no bolso, visivelmente furioso ou, pelo menos, muito incomodado com o que ouvira!
   Alguma coisa o pusera nesse estado e eu tinha, então, uma boa oportunidade para intervir, quanto mais não fosse para tentar acalmá-lo.
   E assim fiz.
   Mas ele, em vez de se mostrar satisfeito por me ver, começou a vociferar:
   - Eu é que tenho razão! Progresso, só o estritamente indispensável! Quando ultrapassa certos limites, é um disparate! Pode até ser uma desgraça!
   Claro que lhe pedi para me explicar o motivo de tanta irritação, apesar de ser evidente que tinha a ver com a tal "conversa unidireccional" que ele mantivera.
   O Estultício não se fez rogado, e vim então a saber que, pouco antes, tinha feito um up-grade do seu telemóvel movido a energia do sapato:
   Agora, e no seguimento de uma intervenção do Serapião nesse sentido, o aparelho era "inteligente". Ou, pelo menos, era suposto ser:
   Dotado de GPS (ou de qualquer outro dispositivo que ultrapassava a minha capacidade de compreensão tecnológica), o aparelho reagia ao ambiente!
   Assim, quando o Estultício passou em frente da pastelaria onde costuma ir, o telemóvel avisou-o de que tinham acabado de chegar os bolinhos de baunilha de que tanto gosta; e ele lá os foi comprar. Ao passar junto da paragem do autocarro, o aparelho informou-o do tempo que teria de esperar até vir o da carreira habitual...
   E assim por aí fora.
   Apesar de ser o primeiro dia em que ele experimentava essa verdadeira maravilha, pensei logo em pedir-lho emprestado não me esquecendo de que, evidentemente, seria necessário solicitar ao Serapião que o personalizasse para os meus hábitos e gostos.
   Ou, mais simplesmente, talvez até fosse possível fazê-lo com o meu velho aparelho.
   Mas, antes de pensar nisso, urgia esclarecer o que é que tinha acontecido pouco antes, pois parecia evidente que o trabalho que o nosso jovem executara ainda não estava bem afinado.
   - Talvez um bug qualquer se tenha infiltrado no programa... - aventei.
   - Qual bug nem meio bug! - explodiu o nosso Engenheiro que, pelo vistos, até já sabia o que isso era - O meu rapaz não comete erros desses! O problema é que fez a coisa bem demais!
   E, perante a evidência da minha incompreensão, voltou atrás (ao lugar onde o caso acontecera), ligou o aparelho, esperou um pouco, e deu-mo para a mão.
   Pu-lo no ouvido:
   «Senhor Engenheiro,» - dizia uma voz maviosa - «seja bem aparecido! No primeiro andar do prédio à sua esquerda está o seu amigo ALFA ALFAIATE onde o Senhor Engenheiro deve, há mais de um ano, a módica quantia de...»

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