Serapião, o Sabichão

 

7
O Deslize

I
   Todos os anos, por alturas do Verão, tenho sempre o mesmo drama: como as crónicas que escrevo estão relacionadas com pessoas muito concretas, como hei-de fazer quando elas vão de férias?
   Pois foi o que agora aconteceu com o Estultício, com o Serapião e com a restante família.
   Felizmente, eu tenho muitos outros amigos com quem converso e troco correspondência e, uma vez por outra, lá aparece uma história interessante que, após a devida autorização, posso publicar.
   É o caso, hoje, de uma incrível aventura que se passou com o Roque, um ex-colega da Escola Primária, que, embora nunca tendo singrado nos estudos, ganha hoje muito mais do que eu e, se calhar, até é mais útil à Sociedade.
   Dou-lhe, portanto, a palavra (depois de corrigir a ortografia e fazer algum arranjo nas frases - o que foi feito a seu pedido):

II
   Antes de me criticarem, pensem bem no seguinte:
   Já viram a multidão de pessoas que também ganha a vida com a desgraça do próximo?
   Para já não falar da infinidade de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, cangalheiros e de todas as indústrias associadas, temos ainda os canalizadores (que ficarão muito felizes se alguém tiver uma inundação em casa), os bate-chapas (que é difícil pôr a colaborar em campanhas de prevenção rodoviária) e por aí fora...
   Pois eu, como proprietário de um reboque, sou também um dependente de acidentes. Por isso, desde que não haja mortos nem feridos… quantos mais carambolas, melhor.
   Afinal são o meu ganha-pão, que não vai faltando pois os portugueses parece que aprenderam a guiar em jogos de computador e, na estrada, portam-se como se usassem o joystick em vez do volante.
   Ora, um dia, estava eu muito sossegado quando tocou o telemóvel.
   A chamada caiu várias vezes e só estabilizou bastante mais tarde (e até com muito bom som, como verão a seu tempo).
   Quando eu perguntei onde era o acidente, respondeu-me uma voz muito pesarosa:
   «Não sei...»
   Bem... se o cliente não sabia, como é que eu havia de o poder ajudar?!
   «E não pode perguntar a alguém? Não há pessoas ao pé de si para lhe dizerem onde é que está?!» - perguntei eu, cada vez mais espantado.
   «Haver, há... Mas esta gente está toda com o mesmo problema que eu: sabemos onde é que o acidente começou, mas não sabemos onde é que vai acabar».
   A conversa parecia de maluquinhos!
   «Sim, é que o acidente ainda está a decorrer...» - esclareceu, por fim.
   Mas nessa altura caiu a chamada.
   Que diabo! Fiquei a matutar nessa conversa tão estranha, e lembrei-me de ligar a televisão e aceder à Internet para tentar saber o que se passaria. No entanto, e pouco depois, o telemóvel voltou a tocar:
   «Você tem aí à mão o Código da Estrada? Qual é a multa por ir com excesso de velocidade na A1?»
   Lá lhe disse.
   «E por andar em marcha-atrás?»
   Lá lhe respondi...
   «E se forem as duas coisas?»
   «Como assim?! Andar em marcha-atrás numa auto-estrada?!»
   Pois... Andar com excesso de velocidade, na auto-estrada, e em marcha atrás. Quanto será a multa?»
   Eu até já começava a achar graça à conversa do homem, mas a certa altura dei um salto na cadeira! Uma emissão em directo, filmada de helicóptero, ajudava-me a perceber o telefonema misterioso...
   Talvez saibam que ali ao pé de *** há uma fábrica de rolamentos. Mas talvez não saibam que as esferinhas vêm de Espanha e ali só as metem nos aros.
   E, em simultâneo na televisão e na Internet, estava a dar, em directo, o resultado de um camião TIR, com 20 milhões dessas bolinhas, se ter virado na A1. E lá se via o meu correspondente telefónico, bem na dianteira de um pelotão de carros (meus futuros clientes, previsivelmente!) a rodopiar e a deslizar...
   «Hum...» - matutei - «Estão quase a chegar à portagem de Alverca... Talvez alguns passem, mas a maioria fica logo ali... O melhor é ir já para lá!».
   E, deliciado, ainda comentei para mim mesmo:
   «Mas, à mistura, vai haver muitos que vão ser multados por passarem na portagem sem pagar!»
   E esperei mais um pouco, só para ver essa parte da fita...
   «Acertei!» - berrou o nosso homem ao telefone ao mesmo tempo que dizia adeus para o helicóptero... «Passei! E logo na portagem certa! Sabe? É que eu tenho Via Verde!»

   Nota final:
   A chamada voltou a cair. Pus o reboque em movimento, e fui andando para aqueles lados. O que não me iam faltar era clientes, mas o que me ligara tinha prioridade total. A certa altura, como eu esperava, ligou-me novamente. Desta vez - que maravilha! - ouvia-se em perfeitas condições!
   «É natural que agora se oiça bem» - comentou ele «Estou aqui estampado, mas tive muita sorte, pois foi contra uma antena do meu operador!»

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte