Serapião, o Sabichão

 

5
Tira-linhas


      Um dia destes recebi um telefonema do Serapião. Pedia-me que, quando eu pudesse
      (mas com alguma urgência), passasse por casa dele ou nos encontrássemos na minha
      (ou em qualquer outro lugar onde houvesse um computador).

    Evidentemente que acedi, curioso, e até lhe pedi logo que me adiantasse qual o assunto da nossa futura conversa.
    E vim a saber, para meu grande espanto, que queria falar comigo acerca das «realidades do mundo empresarial»!
    Acontece que ele anda a estudar para engenheiro, e queixa-se de que a ligação da Universidade às empresas não é lá grande coisa. Isso nunca foi novidade para mim, e nem agora me preocuparia muito se não tivesse acontecido o que ele me passou a contar:

***

    A Tekno-Teknika, a retrógrada empresa do seu pai, ia ser alvo de uma auditoria, e os inspectores poderiam querer saber como é que estava a ser gasto o dinheiro para formação que o Fundo Social Europeu disponibilizava.
    Ora o certo é que esse assunto nunca foi particularmente grato ao Grande Engenheiro, pelo que a formação, para aqueles lados, é pouca ou nenhuma e cada funcionário aprende o que pode e como pode.
    Mas - e aqui é que estava o problema - o Estultício acenara ao filho com uma boa maquia em troca de ele lhe fazer um relatório (favorável, evidentemente!) sobre o assunto...
    O rapaz, pouco à-vontade e sentido-se de certa forma «comprado», lá foi à empresa, falou com as pessoas, e tirou as conclusões que se adivinham quando se sabe que o lema da casa é «Progresso, só o estritamente indispensável!»...

***

    E foi assim que, depois de a avó Elisa me abrir a porta (e, sorridente, me mandar entrar), fui dar com o nosso amigo no sótão, sentado de costas para o computador, a trincar amendoins e a atirar setinhas para o tal alvo que tem a cara do Bill Gates. E - via-se-lhe no rosto - muito frustrado por não saber o que escrever.
    Mas, de súbito, deu uma gargalhada, rodou sobre si mesmo, atacou furiosamente o teclado, deu uns estranhos comandos, e desatou a escrever copiosamente ignorando a minha presença que, afinal, ele mesmo solicitara!
    Estranho... No entanto, como vi que ele estava inspirado, resolvi afastar-me discretamente, parecendo-me até que nem deu pela minha saída.
    Só que, no dia seguinte, ligou-me para o telemóvel:
    - Desculpe lá o que se passou ontem, mas já acabei o trabalho e precisava da sua opinião. Vou enviar-lho pela Internet. O ficheiro tem um pequeno truque, que lhe explico se prometer que não diz nada ao meu pai.
    Não percebi a conversa, mas prometi, evidentemente! E, como até estava perto da casa dele, foi escusado enviar-me o e-mail: resolvi entrar, subir ao sótão, e ver logo tudo com ele de uma vez.

***

    Ora, aqui, vai ser preciso fazer um pequeno parêntesis:
    Se alguém abrir uma folha de processamento de texto e começar a escrever... o texto aparece.
    Mas, agora, imagine que o selecciona e muda a sua cor para branco.
    Surpresa! O texto, que continua lá, ficou invisível!
    E, evidentemente, pode-se mudar a cor para outra qualquer e o texto escondido aparece, nessa outra cor, como num passe de mágica. Já experimentei isso com pessoas ignorantes e o efeito tem um sabor a ilusionismo.
    Pois foi a esse truque que o Serapião recorreu para conseguir escrever o texto que o pai lhe pediu. Fez o seguinte:
    Começou por escrever maravilhas inventadas - e que lhe davam voltas ao estômago - sobre a inexistente formação na Tekno-Teknika.
    Em seguida abriu, entre as linhas desse texto, outras tantas e, nessas, desatou a escrever o que de facto lhe ia na alma. Mas a branco!
    Com um dos tais comandos que só ele sabia, era então possível passar de um texto para o outro e, com a ajuda de umas boas gargalhadas, compensar, nas linhas pares, o efeito nefasto dos disparates que fora forçado a escrever nas linhas ímpares!
    Estava ele a acabar de me explicar a brincadeira, quando apareceu o Estultício, subindo as escadas pachorrentamente.
    - Ora vivam! E tu, vê lá se escreves umas boas patacoadas, que o importante é que os idiotas se convençam de que o dinheiro está a ser bem aplicado!
    O Serapião não respondeu logo. E ainda vim a saber uma coisa deliciosa:
    O Grande Engenheiro alugara computadores para todos os funcionários, mas só para o dia da auditoria! E o Serapião deveria lá ir, de manhãzinha, ligá-los, fazendo com que exibissem páginas fictícias! Os empregados, coitados, entrariam no jogo, fingindo trabalhar!
    Mas, como eu estava a contar, o Estultício aproximou-se do monitor e, deliciado, começou a ler o que o filho escrevera e estava visível.
    - Muito bem, rapaz! Já fiquei a par, e acho que está um texto ímpar!
    Achou muita graça ao trocadilho que ele próprio fez, mas nunca chegou a perceber o comentário do Serapião:
    - Pois é, pai, acho que está bom. Especialmente para quem o souber ler... nas entrelinhas.

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