Serapião, o Sabichão

 

4
A Camisola Misteriosa


      Um dia destes, ao encontrar o Serapião à porta da sua casa, ele convidou-me para
      entrar. Mas, em vez de usar a chave, tocou à campainha, o que, no entanto, fez de
      uma forma que não lembraria a ninguém:

    Meteu previamente a mão ao bolso das calças, tirou de lá um papel que desdobrou com cuidado, e começou a consultá-lo à medida que ia premindo o botão!
    - É código de Morse - esclareceu - Estou a praticar e a minha avó ajuda-me.
    De facto, parecia uma coisa de loucos, e não esperava uma garotice daquelas, pelo menos da parte da D. Elisa que, pelos vistos, estava lá em cima a divertir-se.
    Mas o mais espantoso é que o trinco também não foi aberto de uma vez só! Apesar de ser completamente desnecessário, a senhora accionou-o repetidamente, e seguindo também o mesmo processo!
    Fazendo-me sinal para não o distrair, o Serapião, apurando o ouvido e tomando notas no tal papel, decifrou a mensagem:
   

«PODES SUBIR TEU PAI AINDA NAO CHEGOU»

    Uma vez lá em cima, ninguém falou do caso. Limitámo-nos aos cumprimentos e em breve eu acompanhava o Serapião ao sótão onde tem o seu quarto das engenhocas.
    - Então explica lá essa coisa do código de Morse em que, pelos vistos, estás tão empenhado!
    Não me respondeu. Sentou-se em frente ao computador e ligou-se à Internet depois do habitual pontapé na zona do modem interno.
    Enquanto isso, eu repimpava-me em cima de um velho Macintosh, ajeitava os óculos, e prestava atenção ao que se estava a preparar.
    A breve trecho o Serapião consultava sites dedicados ao código que o obcecava. E não só: num outro computador ao lado, também ligado à Internet, participava num chat onde decorria uma discussão para se esclarecer se o símbolo "@" se poderia escrever com pontos e traços!
    Por fim, fatigado, recostou-se na cadeira, pegou numa lata de refrigerante e em duas palhinhas (uma das quais me deu) e, entre um gole e outro (que íamos alternando), começou então a explicar-se:
    - O meu pai, como você sabe, é aquilo a que se chama um "inforfóbico". Já esteve pior, mas o certo é que continua a resistir a coisas tão corriqueiras como a Internet.
    Até aí, nada de novo. E o Serapião prosseguiu:
    - Eu estou sempre a meter-me com ele. Se, apesar de tudo, está receptivo às tecnologias anteriores, porque é que não há-de regredir até aos sinais de fumo?
    Achei graça, e mais ainda quando me contou a resposta que o pai lhe dera: «Não pode ser, por causa das campanhas anti-tabagistas».
    Mas fora no seguimento dessa conversa tão disparatada que, meio a sério meio a brincar, o Estultício resolvera interessar-se pela telegrafia! E, entrando na brincadeira, o Serapião até recorrera à Internet para obter dados sobre essa tecnologia tão antiga. E a história em breve extravasara as paredes da casa:
    O Estultício contara ao Batatinha, este comentara com a mulher... e em breve o nosso Grande Engenheiro era convidado de honra na festa anual de um grupo de patuscos rádio-telegrafistas reformados! E ele, sentindo-se muito honrado, lá fora, sorridente e no seu passinho saltitante.
    - Apesar de não perceber nada do assunto, o certo é que o meu pai foi muito bem recebido e, no fim, até lhe venderam esta recordação, embora por um preço simbólico.
    E continuou, mostrando-me aquilo a que se referia:
    - Como vê, é uma camisola muito boa. E tem piada por ser toda decorada com pintinhas e risquinhos. Suspeito que é código de Morse, mas há muitos caracteres desconhecidos. No entanto, como os velhotes eram quase todos ex-militares, pode ser qualquer coisa codificada. Sabe-se lá se isto não é um texto a gozar com a pessoa que a veste?
    E prosseguiu:
    - Estou a tentar o algoritmo da famosa máquina ENIGMA com o qual talvez possa decifrar a coisa.
    A história, em si, até era engraçada. Mas o trabalho (longo, e ainda por cima com resultados duvidosos) já não me interessava.
    E estava eu já para me vir embora, quando o Serapião, dando um salto e entornando o conteúdo da lata nas minhas calças, gritou:
    - Espere aí, chefe!
    É que ele, maquinalmente, virara a camisola do avesso. O facto é que ela também podia ser vestida assim. No fundo, era como se fossem duas camisolas pelo preço de uma só, aspecto esse que deliciara o sovina do Estultício e, pelos vistos, o convencera a pagar meia-dúzia de escudos por ela.
    Notei então que, depois de revirada, os tais caracteres continuavam visíveis, mas agora invertidos. O Serapião, recorrendo ao tal papel a que me referi no início, em breve gritava «Eureka!» e soletrava:
   
«AQUI VAI UM IDIOTA COM UMA CAMISOLA DO AVESSO»

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